Eu, e só

Decidi começar esse blog por alguns motivos, o principal deles é para que fique ligado aos meus outros dois: o sobre livros Anotações, cenários e a estante lá de casa, e o A vida moderna é um lixo, onde coloco meus textos de ficção. Também, aproveitando esse começo, tentar fazer posts mais elaborados e que sejam interessantes para mim e, com sorte, para outras pessoas (e separar esses textos das besteiras que adoro colecionar, agora no meu tumblr).

Não pretendo fazer um post de introdução porque eu odeio falar sobre mim. E porque isso vai justamente contra o que eu disse no parágrafo passado (que eu quero que os textos importem em geral), já que eu não sou uma pessoa extraordinária e acho que a minha vida não dava nem um twitt, muito menos um blog (e menos ainda um livro… aliás, todo mundo acha que a própria vida dá um livro, né? Essas pessoas estão erradas 90% das vezes). Mas aproveito essa apresentação para falar de algo que muita gente deve se identificar ou, de alguma forma, achar curioso. O fato é que eu nunca me senti sozinha. Nem uma única vez em toda a minha vida.

Claro, eu já passei por aqueles momentos em que pensei ‘puxa, queria que minha irmã/mãe/pai/amigo estivesse aqui pra eu falar/mostrar/contar isso’, mas eu não sei o que é solidão. Não sei mesmo. Eu imagino que solidão seja uma dor que existe até o momento em que outra pessoa aparece e, então, ela se cura. É uma dor que depende de outrem para ser curada e que, mais importante, pode ser curada pela presença da pessoa certa. Bukowski disse que ele não sentia solidão porque nunca esperou que suas dores fossem curadas ao passos de alguém entrando em seu quarto.

Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar. (Charles Bukowski)

Acredito que a minha total falta de habilidade em sentir solidão vem da junção de dois fatores:

1) Introversão

Eu sou introvertida assumida e sem vergonha. O mundo onde vivemos é um lugar hostil para nós, porque valoriza muito mais os extrovertidos. Na verdade, quando alguém está listando qualidades de si mesmo ou de um conhecido, acaba colocando ‘extroversão’ como algo bom e ‘introversão’ como defeito. Nenhum dos dois é uma coisa e nem outra. São simplesmente duas formas de ser (que tem ligação com a maneira como nosso cérebro transmite energia, mas não me peça para explicar… o Google é seu amigo). Algumas pessoas se sentem mais energizadas quando estão entre muitos, fazendo bagunça e festejando; e outras são exatamente o contrário, perdem energia quando estão no meio de muita gente e se sentem melhor ao ficar sozinhas.

 

Eu sou do segundo grupo, o que quer dizer que eu não gosto de muita gente conversando comigo, festas, bagunça e a maioria das coisas que são necessárias para alguém de 25 anos ser considerado legal. Eu gosto de ler, de assistir filmes e seriados, de ir tomar um café com poucos amigos, de ficar em casa, de estar sozinha.

Um erro comum são as pessoas confundirem introversão com timidez, achando que é a mesma coisa. Não é. Muitos introvertidos são tímidos, mas isso não é regra. Timidez é se sentir desconfortável (ou ter medo) de situações sociais, introversão é não precisar delas. Exemplo: numa festa, o tímido vai sofrer par interagir com as pessoas e se sentir julgado e desconfortável o tempo inteiro, enquanto o introvertido consegue lidar com essas coisas, mas prefere ficar em casa lendo um livro. Ou então podemos ver a coisa assim: o tímido não é a ‘alma da festa’ porque não consegue, o introvertido não é a ‘alma da festa’ porque não quer.

Na maioria das vezes eu não sou muito tímida (tenho meus momentos, mas me viro bem), mas sou o clichê da pessoa introvertida. De verdade. Não gosto de conhecer gente nova, arranjo desculpas quando me chamam para sair (mesmo adorando e aproveitando a companhia do punhado de amigos que tenho), odeio conversa mole que não leva à lugar algum, torço pra não encontrar gente que conheço na rua, se saio uma tarde já considero que é o suficiente de interação social por um bom tempo.

Eu sou o tipo de pessoa que gosta de estar só. Para deixar mais claro, eu sou o tipo de pessoa que não acha doloroso estar sozinho. Eu não considero passar uma ou duas horas de todos os dias correndo sozinho, sem falar com ninguém, e nem quatro horas na minha mesa, coisas difíceis ou entediantes. Eu tenho essa tendência desde que era jovem, quando, se dada a escolha, eu preferiria ler livros sozinhos ou me concentrar ouvindo música à estar com outra pessoa. Eu sempre procurava coisas que pudesse fazer sozinho. (Haruki Murakami)

Então esse é um dos motivos pelos quais acredito nunca ter sentido solidão. Eu sou daquele tipo de gente que fica em casa, lendo livros. Aliás, quando eu leio todo mundo assustado com o estilo de vida recluso de escritores como J.D. Salinger, Harper Lee e Raduan Nassar, fico pensando que isso só é mesmo um problema para as pessoas de fora, porque eles devem estar (devia estar, no caso do Salinger) muito bem, obrigado. E aí chegamos ao segundo item.

1) Imaginação

Meus livros favoritos são as duas Alices, do Lewis Carroll. Os motivos são inúmeros, mas acredito que o que mais me fascina nessas histórias (e especialmente na personagem principal) é a fuga de um mundo chato para um mundo surreal. Eu me identifico bastante com a Alice nesse sentido, adoro ler porque ali são me apresentadas histórias muito mais estimulantes que a nossa vida de todos os dias. Narrativas dão sentido à vida, é nisso que eu acredito. Uma história bem contada faz seu leitor vivenciar sensações e experiências que, de outra forma, ele não teria como. Acho que é por isso que desde cedo eu gosto de me refugiar na imaginação.

Um raciocínio lógico leva você de A a B. A imaginação leva você a qualquer lugar que você quiser. (Albert Einstein)

Por conta disso, acredito que levo uma vantagem até entre os outros introvertidos quando o quesito é não ser capaz de sentir solidão. A melhor parte é que a imaginação não tem limites e, na maioria das vezes, está sob o seu controle, então é impossível não encontrar nela algo que te dê prazer e te entretenha. Eu estou sempre acompanhada, vivendo dentro da minha cabeça, sonhando acordada. Sonhar acordado é lição de casa de todo escritor, então pelo menos eu tenho a desculpa de estar trabalhando.

Todos nós precisamos sonhar, é a única forma de sobreviver à realidade. E, às vezes, estar sozinho é a única forma de sobreviver dentro de uma sociedade que valoriza o ’em grupo’ cada vez mais. Solidão eu só sei o que é de nome, porque gosto da minha companhia e, quando me canso dela, tenho um milhão de amigos imaginários dentro da minha cabeça. Eu sei que, provavelmente, a maioria das pessoas não se sente dessa maneira (sei por causa dos olhos saltando para fora do rosto toda vez que falo sobre isso em uma conversa), mas acho que faria muito bem para o mundo se as pessoas aprendessem a ficar um tempo sozinhas, desligassem o som das vozes dos outros e começassem a ouvir com mais atenção seus próprios pensamentos.

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6 thoughts on “Eu, e só

  1. Paula says:

    eu não, eu me sinto sozinha quase o tempo todo, mesmo cercada de pessoas. =( talvez por colocar muita expectativa em cima de todo mundo… e as expectativas nunca corresponderem a realidade (bom, vc sabe qu enão entra nessa categoria, óbvio). Mas sei aproveitar minha própria companhia e não tenho problemas em ficar solitária quando quero. Tenho quando NÃO quero!XDDD hsuhsusus ÓIA JUDY!!11111

    • “talvez por colocar muita expectativa em cima de todo mundo”

      acho que você já se diagnosticou! hahaha pessoas são pessoas e fazem merda, erram, desapontam… ninguém é perfeito e ninguém vai entrar na nossa vida e arrumar tudo o que está de errado!

  2. Juliana Rabelo says:

    concordo com a Gabi =D por mais ‘frio” que possa parecer isso (juro, não é XD), a sua felicidade não depende dos outros mais do que de você mesmo ^^

    E eu definitivamente sou introvertida não-tímida XD huahuahuahuahuauhauha mas por mt tempo da vida eu acreditei que era tímida pq todo mundo me dizia isso….

  3. cara, eu não acho que a solidão é uma dor – digo, de uma forma geral a solidão não pode ser uma dor. talvez toda a coisa nos leve a uma discussão filosófica-de-bar, mas acho a solidão tão necessária quanto ao agito-doido-de-uma-festa.

    sei lá. de qualquer forma, só queria dizer que nós sempre temos conversas moles que não nos levam (objetivamente e formalmente) à lugar algum, ou seja, não odeie conversas moles! :)

    (and eu já quase desisti de te chamar para meus aniversários, churrascos na varanda ou coisas assim, mas continuo gostando de você! nhó!)

    • Hahaha você é uma das únicas pessoas que me entende, na verdade, nessa questão! Não é que eu não quero socializar porque não gosto da pessoa, mas porque não gosto de socializar! hahahah Cada um na sua e todo mundo respeitando o jeito de todo mundo!

      Eu não sei fazer conversa mole, um dia você me ensina! Não sei mesmo!

      • gente, wait… como não!? e (queimando seu filme em 5, 4, 3…) quando a gente fica falando de novelas e outros assuntos banais AND vendo casos de família!? hahaha

        digo, para mim, conversas banais (e deliciosas) são conversas moles também – embora eu saiba que talvez seja um outro tipo de “moleza” que você se refira.

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