Tudo bem não estar bem

Quando acontece alguma tragédia como a de hoje na escola americana, onde foram mortas (pelo que eu li) quase duas dezenas de crianças, voltam para a esfera pública algumas discussões. A primeira delas é sobre o controle de armas, que no caso dos EUA é algo bastante complicado, uma vez que a cultura deles é e sempre foi armamentista e eles levam muito a sério essa história de ‘eu tenho o direito de ter uma arma para me defender’. Aqui no Brasil a gente teve algo parecido, quando foi feito aquele referendo de pergunta confusa e a ‘revista’ Veja fez uma ‘reportagem’ falando um monte de merda (novidade… só que não!) e acabou convencendo as pessoas a votar a favor das armas.

Mas, a outra discussão me parece essencial e pela primeira vez vi algumas pessoas comentando: o estigma em torno de transtornos e doenças mentais, que acabam fazendo com que as pessoas que sofrem deles não procurem ajuda, pirem de vez e cometam esse tipo de atrocidade.

Porque é claro que, depois que algo assim acontece, todo mundo tenta achar uma explicação e acaba chegando em: era um louco. E claro que era um louco! Ninguém discute isso! Um louco assassino que destruiu a vida não só das crianças, como das famílias delas e provavelmente deixou mais um monte de gente traumatizada. E como é que se impede isso de acontecer? Bom, um começo seria não deixar que essas pessoas cheguem nesse estado de loucura.

Os estigmas são rótulos negativos usados para identificar pessoas que sofrem de doenças mentais e são barreiras que impedem os indivíduos e suas famílias de buscar ajuda, pelo medo de serem excluídos. (Luis Bethancourt)

É bem difícil carregar um transtorno mental hoje em dia. Eu sofro com transtorno de ansiedade generalizada há pelo menos 4 anos e sei como são ruins não só os sintomas e as consequências, mas também o julgamento o estigma em torno disso. Acho que são os únicos transtornos de saúde em que as pessoas te aconselham a não tomar remédios, o que me parece um pouco absurdo, porque são problemas de saúde. É saúde mental, tudo bem, mas só por isso não é saúde? E também tem aquelas pessoas que acham que é besteira e que você não quer melhorar, não se esforça e que se tentasse com mais vontade deixaria de ter esse problema.

Outra coisa ruim é o medo de falar sobre isso, parece que é tabu comentar que alguém tem ou deixa de ter um transtorno mental e, por causa disso, a maioria deles são praticamente desconhecidos pelas pessoas. No meu caso foi assim, quer dizer, eu nem sabia que ansiedade poderia ser um transtorno mental antes de ser diagnosticada. Eu achava que todo mundo se preocupava com tudo o tempo todo, achava que era normal ter ataques em que você acha que vai morrer naquele mesmo instante, que todo mundo tinha falta de ar, tontura, tremedeiras, dores pelo corpo, taquicardia e aquela constante tremedeira nas pálpebras. Foi só quando a coisa ficou realmente grave e eu comecei a ter ataques de pânico violentos que procurei ajuda (e procurei ajuda achando que era algo de saúde física e não mental).

Se você toma remédio psiquiátrico, é louco. Se você tem uma consulta psiquiátrica, é louco. Se você tem um transtorno mental, é frescura e a culpa é sua que não está se empenhando de verdade pra ficar bom. Não se pode falar que tem algum problema de saúde mental no serviço, na escola, entre os amigos menos chegados, porque senão você é automaticamente visto como maluco. É óbvio o porquê das pessoas não procurarem ajuda! Ninguém quer ser o louco, o excluído, o alvo de dedos sendo apontados! Então, as pessoas que tem problemas que seriam tratáveis, resolvem não falar pra ninguém e não ir ao médico, o que pode, dependendo do problema e de sua gravidade, pode representar um perigo não só para ela, mas para todos os outros ao seu redor. A situação saí do controle e a pessoa que poderia ser tratada se tivesse pedido ajuda acaba chegando num ponto de onde é impossível voltar e faz uma coisa dessas, ou então se mata, se vicia em drogas como forma de auto-medicação, vira aquele cara falando sozinho na rua abandonado pela família, etc. Tudo por causa do maldito estigma.

A grande maioria das pessoas com distúrbios mentais sofre sozinha, não procura ajuda e, em alguns casos, esse problema saí do controle e as consequências são inimagináveis. O mais triste é pensar que esses transtornos poderiam ter sido diagnosticados, tratados e prevenidos.

Advertisements
Tagged , , , , , , , ,

2 thoughts on “Tudo bem não estar bem

  1. Juliana Rabelo says:

    Então, eu falo mesmo das minhas crises de ansiedade, inclusive quando estão acontecendo XD A minha ansiedade é causada pelo medo de desagradar outras pessoas, então achei que se eu confiasse isso a elas, eu ia me sentir mais “segura”, sei lá…Daê eu falo mesmo, e quando tô numa crise, eu tbm falo XD De alguma forma, isso me ajuda a me acalmar um pouco, e me sinto amparada por quem está ao meu redor.

    Eu nunca achei que tomar remédio e fazer terapia é coisa de louco, mas infelizmente a maioria das pessoas tem essa ideia…Acho que meu pai é meio assim. Eu acho super necessário, e não só pra quem tem sintoma de alguma coisa. Todo mundo tem algum problema, por menor que seja, e é muito saudável lidar com isso.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: