Carpinteiros & Seymour em frases

Terminei de ler Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação do J.D. Salinger, completando a bibliografia dele. Quer dizer, faltam alguns contos, mas já li todos os livros dele publicados… não que isso seja uma grande realização, uma vez que ele só lançou quatro obras.

Eu adoro a escrita do Salinger, ele é um dos meus escritores favoritos, O apanhador no campo de centeio é um dos meus livros favoritos de todos os tempos, adorei Franny e Zooey Nove Estórias. Também adorei a primeira novela desse livro que acabei de ler, a Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira, mas não gostei da segunda. O que eu mais gosto no Salinger é como ele consegue transformar situações aparentemente comuns em algo complexo e profundo, e também da sua gigante capacidade de escrever diálogos, e nesse livro foi assim: tudo isso se concentrou na primeira história e estava completamente ausente na segunda. De qualquer forma, anotei algumas das minhas frases favoritas.

Então, por que eu continuava sentado no carro? Por que não tinha saltado, por exemplo, quando paramos no sinal vermelho? E, o que é ainda mais crucial, por que cargas-d’água tinha eu pulado para dentro do carro? Ocorro-me pelo menos uma dúzia de respostas para essas perguntas, todas elas, ainda que de forma vaga, suficientemente válidas. Mas acho que posso abrir mão delas e repetir apenas que estávamos no ano de 1942, que eu tinha 23 anos, que acabara de ser convocado e instruído sobre a conveniência de me manter junto ao rebanho… e que, acima de tudo, eu me sentia só. Há horas em que as pessoas simplesmente pulam para dentro de carros lotados e ficam lá sentadinhas.

Tenho cicatrizes nas mãos por ter tocado em certas pessoas. Uma vez, no parque, quando a Franny ainda era levada para lá no carrinho de bebê, passei a mão, por tempo demais, na penugem que cobria a cabeça dela. A outra vez aconteceu no cinema da rua 77, quando eu assistia com Zooey a um filme de horror. Ele tinha uns seis ou sete anos, se enfiou embaixo da poltrona para não ver uma cena assustadora. Pus a mão na cabeça dele. A Charlotte um dia se afastou correndo ao sairmos do estúdio, eu agarrei seu vestido para fazê-la parar, para mantê-la perto de mim. Um vestido de algodão amarelo que eu adorava por ser comprido demais para ela. Ainda tenho uma mancha amarelo-limão na palma da mão direita. Ah, meu Deus, se há algum termo clínico que me sirva, sou uma espécia de paranoico ao contrário. Suspeito que as pessoas estejam sempre conspirando para me fazer feliz.

Eu muito particularmente lhe peço, velho amigo (para dizer a verdade, quase lhe imploro), que aceite de mim este despretensioso buquê de recém-desabrochados parênteses: (((()))).

Você pode achar que o fato de sermos irmãos prejudica meu julgamento. Já me preocupo suficientemente com isso. Mas também sou apenas um leitor. Você é um escritor ou simplesmente um escritor de contos bem-sucedidos? Fico chateado em receber, de você, um conto bem-sucedido. De você eu quero as jóias da coroa.

Quando é que escrever, para você, foi uma profissão? Nunca foi outra coisa senão sua religião. Nunca. Estou algo superexcitado agora. E, já que é a sua religião, sabe o que vão te perguntar quando você morrer? Mas deixe que eu diga antes o que não vão te perguntar. Não vão te perguntar se você estava trabalhando numa obra maravilhosa e comovente quando morreu. Não vão te perguntar se era curta ou longa, alegre ou triste, publicada ou inédita. Não vão nem mesmo perguntar se essa era a obra que você teria escolhido para escrever caso soubesse que sua hora chegaria tão logo a terminasse – acho que só vão perguntar isso ao pobre do Sören K. Tenho a mais absoluta certeza que só vão te fazer duas perguntas. A maior parte das suas estrelas estavam brilhando? Você estava escrevendo direto do coração?

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