Pelo menos ele nunca caminhou

Terminei de ler o livro meio autobiográfico do Haruki Murakami, Do que eu falo quando eu falo de corrida, e adorei. Sério, um dos livros mais bacanas e ‘abre cabeça’ que li nos últimos tempos. Não são bem ensaios, definitivamente não são contos, são textos, pensamentos, sobre a vida dele como maratonista e escritor. Na maioria das vezes, ele intercala e compara as duas atividades de maneira brilhante.

Adorei como ele diz que a maioria das pessoas acha estranho que ele seja esportista, saudável, corredor, já que o clichê de escritor é o cara com a vida acabada, que fuma como chaminé e vive bêbado pelos cantos. Mas, para o Murakami, escrever romances é ir tão fundo na sua alma que é como tomar um veneno e, segundo ele, para aguentar esse veneno ele precisa estar com o corpo saudável.

Achei um livro bastante inspirador, especialmente porque me ensinou que pode funcionar ter objetivos a curto e longo prazo, e que tudo é uma questão de fazer com que seu corpo se acostume com o que você pretende fazer, e também que é impossível fugir da dor mas sofrer por conta dela é uma escolha sua. O maior orgulho do Murakami, no entanto, é fato de que, em todas as corridas que participou, por mais difícil e dolorido que fosse, ele nunca desistiu de correr e passou a andar. Era isso que ele queria escrever em seu epitáfio, que, apesar de tudo, pelo menos ele nunca caminhou. Também não quero caminhar, mas para isso preciso começar a correr logo.

Um corredor contou a respeito de um mantra que seu irmão mais velho, também corredor, lhe ensinara, e sobre o qual ele refletia desde que começara a correr. Ei-lo aqui: a dor é inevitável. Sofrer é opcional.

Se você pensa a respeito, é precisamente por serem diferentes umas das outras que as pessoas são capazes de criar seus próprios eus independentes. Tomem a mim como exemplo. É precisamente minha capacidade de detectar determinados aspectos de uma cena que outras pessoas não conseguem, de sentir de uma forma diferente dos outros e de escolher palavras que são diferentes das deles que me permite escrever histórias que sejam minhas e de mais ninguém. E por causa disso temos a extraordinária situação em que não poucas pessoas leem o que escrevi. Então o fato de que eu sou eu e nenhum outro é um dos meus maiores recursos. A mágoa emocional é o preço que a pessoa deve pagar a fim de ser independente.

Sou o tipo de sujeito que gostar de estar sozinho consigo mesmo. para dizer de um modo mais agradável, sou o tipo de pessoa que não acha um sofrimento ficar só. Não acho que passar uma ou duas horas correndo sozinho todos os dias, sem falar com ninguém, além de passar quatro ou cinco horas sozinho em minha mesa, seja difícil nem chato. Tenho essa tendência desde que era mais novo, quando, caso tivesse escolha, preferia ficar sozinho lendo um livro ou concentrado ouvindo música a estar na companhia de alguém. Sempre fui capaz de pensar em coisas para fazer quando estou sozinho.

Mick Jagger uma vez alardeou que “Prefiro morrer a continuar cantando Satisfaction quando estiver com quarenta e cinco anos”. Mas agora ele tem mais de sessenta e continha cantando Satisfaction. Algumas pessoas acham isso engraçado, talvez, mas eu não. Quando era novo, Mick Jagger não conseguia se imaginar com quarenta e cinco anos. Quando eu era novo, era igual. Como posso rir de Mick Jagger?

Acho que a maioria das pessoas não aprovaria a minha personalidade. Talvez existam alguns poucos – muito poucos, imagino – que se impressionem com ela, mas só muito raramente alguém a aprecia. Quem podia mostrar sentimentos amistosos, ou qualquer cosa nesse nível, em relação a uma pessoa que não se compromete; que, em vez disso, sempre que um problema surge, se tranca sozinha num armário? Mas será possível a um escritor profissional conquistar o apreço das pessoas? Não faço ideia. Talvez em algum lugar do mundo seja. É difícil generalizar. Eu, pelo menos, que escrevi romances durante vários anos, consigo apenas imaginar alguém que goste de mim em um nível pessoal. Ser objeto da desafeição de alguém, ser odiado e desprezado, não sei por que me parece mais natural. Não que eu fique aliviado quando isso acontece. Assim como também não me sinto feliz por não gostarem de mim.

Estabeleci como prioridade número um levar o tipo de vida que permite que eu me concentre na escrita, sem ter de socializar com todas as pessoas que estão em torno de mim. Eu sentia que o relacionamento indispensável que devia construir em minha vida não era com uma pessoa específica, mas com um número inespecífico de leitores. Na medida em que pudesse estabelecer uma vida diária de modo que cada obra fosse um aperfeiçoamento em relação à anterior, então muitos de meus leitores receberiam de bom grado fosse lá que vida eu escolhera para mim mesmo. Acaso não será esse meu dever como romancista, e minha prioridade máxima? Minha opinião não mudou com o passar dos anos. Não posso ver o rosto de meus leitores, então em certo sentido esse relacionamento humano é de um tipo conceitual,  mas tenho persistido em considerar esse relacionamento conceitual, invisível, como a coisa mais importante em minha vida.

Não comecei a correr porque alguém me pediu para me tornar um corredor. Assim como não me tornei um romancista porque alguém me pediu para ser um. Certo dia, do nada, quis escrever um romance. E um dia, do nada, comecei a correr – simplesmente porque eu quis. As pessoas talvez tentem me deter, e me convencer de que estou errado, mas não vou mudar.

Pelo menos ele nunca caminhou.

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2 thoughts on “Pelo menos ele nunca caminhou

  1. Juliana says:

    Concordo com ele…Quando me exercito, me sinto bem, e minha mente fica muito mais clara pra eu fazer o que eu tenho que fazer…E na corrida, é exatamente do jeito que ele falou…Você se concentra, fica lá correndo, e tem que pensarem alguma coisa. Eu já fiquei filosofando altas coisas enquanto corria XD E tem uma hora que você sofre, o corpo fraqueja, ma você continua correndo porque quer terminar. Aí você supera a dor, e simplesmente aproveita. E aí começa a viajar nos pensamentos =)

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