David Foster Wallace em ensaios

Estou lendo o livro Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, uma coletânea de ensaios do David Foster Wallace, e já me apaixonei pelo autor. Sério. Nunca li nenhuma ficção dele, mas conheço um pouco sua história porque sou fã do Jonathan Franzen, melhor amigo dele, e já ouvi ele falando do DFW e também já li um belo ensaio que ele escreveu sobre o suicídio do amigo (tá no livro Como ficar sozinho).

Não sei, acho que pelo fato dele ter se matado, eu imaginava que os textos do DFW seriam melancólicos e tristes, mas, pelo menos os que li até agora, são muito engraçados. Tristes em alguns momentos, mas muito mais de uma maneira “tão verdade que dói” que emocionais demais.

Aqui estão as minhas passagens favoritas dos dois primeiros ensaios.

Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo

Sobre uma feita agropecuária dentro de um parque de diversões no Meio-Oeste.

Uma das poucas coisas da infância no Meio-Oeste que ainda me fazem falta é essa convicção bizarra, iludida porém inabalável, de que tudo ao meu redor existia única e exclusivamente Para Mim. Serei eu o único a ter possuído essa sensação profunda e estranha quando criança? – de que tudo exterior a mim existia apenas na medida em que me afetava de alguma maneira? – de que todas as coisas erma de alguma maneira, por via de alguma atividade adulta obscura, especialmente dispostas ao meu favor? Alguém mais se identifica com essa memória? A criança deixa o quarto e agora tudo naquele quarto, assim que ela não está mais lá para ver, se dissolve numa espécie de vácuo de potencial ou então (minha teoria pessoal da infância) é levado embora por adultos escondidos e armazenado até que uma nova entrada da criança no quarto ponha tudo de volta em serviço ativo. Será que era insanidade? Era radicalmente egocêntrica, é claro, essa convicção, e consideravelmente paranoica. Fora a responsabilidade que implicava: se o mundo inteiro se dissolvia e se desfazia cada vez que eu piscava, o que aconteceria se meus olhos não abrissem?

Talvez o que me faça falta agora seja o fato de o egocentrismo radical e delusório de uma criança não lhe trazer conflitos nem dor. Cabe a ela o tipo de solipsismo majestosamente inocente de, digamos, o Deus do bispo Berkeley: as coisas não são nada até que  sua visão as extraia do vazio: sua estimulação é a própria existência no mundo. E talvez por isso uma criança pequena tema tanto o escuro: não tanto pela possível presença de coisas cheias de dentes escondidas no escuro, mas precisamente pela ausência de tudo que sua cegueira apagou. Para mim, ao menos, com o devido respeito aos sorrisos indulgentes dos meus pais, esse era o verdadeiro motivo por de trás da necessidade de uma luz noturna: ela mantinha o mundo nos eixos.

Não que seja profundo, mas me impressiona, em meio aos berros e resfôlegos do porco, o fato de que esses agropecuaristas não enxergam seus animais como bichos de estimação ou amigos. Apenas atuam no agronegócio do peso e da carne. Estão desconectados até mesmo aqui na Feira, nesta ocasião autoconscientemente Especial de conexão. E por que não, talvez? – mesmo na Feira, seus produtos continuam a babar, feder, ingerir os próprios excrementos e berrar, o trabalho continua sem parar. Posso imaginar o que os agropecuaristas pensam de nós enquanto falamos carinhosamente com os suínos: nós, Visitantes da Feira, não precisamos lidar com a tarefa de criar e alimentar nossa carne; nossa carne simplesmente se materializa na banquinha de cachorro-quente empanado, permitindo que separemos nossos apetites saudáveis de pelos, berros e olhos revirados. Nós, turistas, podemos nos dar ao luxo de cultivar nossos sentimentos tenros de defensores dos Direitos dos Animais com nossas panças cheias de bacon. Não sei quão aguçado é o senso de ironia desses fazendeiros, mas o meu foi afiado na Costa Oeste e me sinto meio que um panaca no Pavilhão Suíno.

Um Ronald inflável do tamanho de um carro alegórico, sentado e perturbadoramente semelhante a um Buda, reina no lado norte da tenda do McDonald’s. Uma família está tirando uma foto em frente ao Ronald inflável, arrumando as crianças numa pose calculada. Anotação no bloco: Por quê?

Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer

Sobre uma viagem num cruzeiro de luxo.

Existe algo de insuportavelmente triste num Cruzeiro de Luxo comercial. Como a maioria das coisas insuportavelmente tristes, parece incrivelmente esquivo e complexo em suas causas e simples em seu efeito: a bordo do Nadir – especialmente à noite, quando cessam as diversões organizadas, as gentilezas e o barulho animado do navio – eu senti desespero. Desespero é uma palavra que foi desgastada até se tornar banal, mas é uma palavra séria e estou usando-a com seriedade. Para mim, ela denota uma mistura simples – um anseio pela morte combinado com um sentimento esmagador da minha pequenez e da minha futilidade, que se apresenta como um medo da morte. Talvez seja algo próximo daquilo que as pessoas chamam de pavor ou angústia. Mas é bem outra coisa. É como desejar morrer para escapar da sensação insuportável de compreender que sou pequeno e fraco e egoísta e que sem a menor dúvida vou morrer. É querer se atirar do navio.

E esse tipo autoritário – quase paternal – de publicidade faz uma promessa muito especial, uma promessa diabolicamente sedutora que na verdade até chega a ser um pouco honesta, pois promete que um Cruzeiro de Luxo gira em torno de honrar expectativas. Não se promete que você pode experimentar um imenso prazer, mas que isso vai acontecer. Que eles vão garantir que isso aconteça. Que eles vão microgerenciar cada bocadinho de capa opção prazerosa de modo que nem mesmo a ação terrivelmente corrosiva de sua consciência, agência e pavor adultos possa mandar sua diversão à merda. Suas incômodas capacidades de escolha, erro, arrependimento, insatisfação e desespero serão removidas da equação. Os anúncios prometem que você será realmente capaz – finalmente, desta vez – de relaxar e se divertir, porque você não terá outra opção além de se divertir.

Seja aqui e cima ou lá embaixo, sou um turista americano e por conseguinte sou um ex officio  grande, corpulento, vermelho, barulhento, grosseiro, condescendente, egocêntrico, mimado, preocupado com a aparência, envergonhado, desesperado e ganancioso: a única espécie conhecia de bovino carnívoro no mundo inteiro.

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