Eu amava o Grande Irmão

Para lembrar do aniversário de morte de um dos meus escritores favoritos, George Orwell, coloco aqui um texto que escrevi na época da faculdade me inspirando na sua obra mais famosa, a distopia 1984.

Eu amava o Grande Irmão

Winston Smith quer escapar da vigilância constante. Desde o momento em que acorda, até a hora em que decide voltar a dormir, é atentamente observado pela “teletela”, uma câmera gigante que serve como olhos do Grande Irmão, entidade onisciente e onipresente que comanda o mundo inventado por George Orwell em seu mais famoso livro, 1984. Antes dele, Evgueny Zamiatin já havia escrito, em Nós, sobre uma sociedade onde as paredes são feitas de vidros e a vida das pessoas é observada minuto a minuto.

Nestas duas distopias, a tecnologia é usada para controlar a sociedade, e essa vigilância constante traz nada além de miséria coletiva. Há pouco tempo, tanto a “teletela” (e o Grande Irmão) quanto a casa de vidro foram usadas na ultima edição do reality show Big Brother Brasil, um programa que já teve inúmeras edições, mas continua campeão de audiência. O mais medo de Orwell e Zamiatin virou a nossa diversão.

Uma diversão, aliás, tão grande que até mesmo pacotes “Assista ao BBB 24 horas por dia!” podem ser comprados por assinantes de televisão paga. Você compra a oportunidade de assistir a uma pessoa dormir, comer, falar, viver. De um dia para o outro, as pessoas que estão dentro da tela se tornam celebridades pelo simples fato de estarem sob os olhares dos que estão do lado de fora. Ainda que não façam nada de extraordinário, os participantes do programa de televisão viram heróis, com direito a calorosos fãs que ficam com olhos marejados ao compartilhar momentos de tristeza e que aplaudem juntos cada vitória conquistada.

Se você perguntar para quem assiste a esse tipo de programa, provavelmente, vão reconhecer que, por mais que venda a realidade, tudo o que se passa em frente às câmeras é uma grande fantasia. Ainda assim, essas mesmas pessoas preferem trocar seu cotidiano pelo dos outros, não só porque é legal saber o que os outro fazem, mas porque é mais legal ainda manter essas pessoas sob controle. A mesma coisa acontece com revistas de celebridades, mesmo sabendo que mais da metade do que é publicado não é verdade, todos adoram saber o que está sendo falado e, depois, comentar com seus conhecidos. Saber quem é quem no mundo das celebridades, os namoros e as brigas, é uma forma de ter a vida sob controle, mesmo que esta vida em questão não seja a sua.

Orwell e Zamiatin, provavelmente, ficariam horrorizados com a materialização da vitrine que tanto temiam. Mas o que eles imaginaram, talvez ingenuamente, era que a vigilância serviria simplesmente para comando do Estado sobre a sociedade e que, em algum momento, alguém, cansado dos olhos alheios, se colocaria contra isso. A realidade do século XXI é um pouco diferente: a sociedade, para tentar retomar algum controle, brincar de vigiar a si mesma. A miséria antecipada pelos escritores virou espetáculo que enche o vazio da rotina pré-programada. Não pode existir nenhum Winston Smith, melancólico e disposto a mudar sua realidade, porque todos eles estão sentados na frente de suas próprias “teletelas” vigiando ao mesmo tempo em que são vigiados. E gostando. Nós amamos o Grande Irmão.

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One thought on “Eu amava o Grande Irmão

  1. […] Ps: eu coloquei no meu blog um texto que escrevi na época da faculdade inspirada pelo livro 1984, caso alguém queria ler: Eu amava o Grande Irmão. […]

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