Vivendo na zona do desconforto

O Jonathan Franzen é um dos meus escritores favoritos desde que eu li aquela que considero sua obra-prima, As Correções, um dos meus livros favoritos da vida. Antes desse, eu já tinha lido o último livro dele, Liberdade e, depois, fui atrás de tudo o que ele já tinha escrito, lendo também o seu segundo romance, Tremor, e o livro de ensaios Como ficar sozinho. Agora, pra completar as obras dele lançadas no Brasil, comecei a ler A zona do desconforto, um livro de não-ficção em que ele fala de sua família, infância e juventude.

Até então eu só li o primeiro capítulo, mas essas poucas páginas me fizeram recordar o porquê de eu amar tanto esse escritor. É tão bonito quando isso acontece, quando você encontra alguém que fala tudo aquilo que você já pensava, mas não tinha condições de expressar. Me identifico muito com o Franzen, e talvez seja esse o motivo das obras dele me serem tão queridas, e queria muito ter chance de encontrá-lo um dia (por que ele não veio pra SP depois da flip??!!!) e agradecer. Ao mesmo tempo, percebo esse sentimento que tenho quando leio o que ele escreve (e de alguns outros escritores também, claro!) é o que mais me dá mais vontade de escrever e melhorar; eu quero, um dia, ser capaz de provocar em alguém o que ele provoca em mim.

Algumas das minhas citações favoritas desse primeiro capítulo:

Eu vivia encasulado dentro de casulos que, por sua vez, viviam encasulados. Fui o filho temporão a quem meu pai, que todas as noites da semana lia para mim, confessou seu amor pelo burro depressivo Bisonho nas obras de A. A. Milne, e para quem minha mãe, na hora de dormir, cantava uma música de ninar exclusiva que compusera para comemorar meu nascimento. Meus pais eram adversários e meus irmãos eram rivais, e cada um deles se queixava de todos os outros para mim, mas todos concordavam em me achar uma gracinha, e não havia nada neles que eu pudesse não amar.

Minha mãe teria ficado chocada se soubesse o quanto menos aceitamos pela casa – e teria vivenciado aquela desvalorização como um golpe de misericórdia em suas esperanças, uma rejeição de sua obra criativa, uma indicação indesejada de sua mediocridade. Mas não foi essa a pior afronta que cometi à sua memória. Agora ela estava morta, afinal. Estava a salvo, fora do alcance, não poderia atingi-la. O que continuava vivo – em mim – era o desconforto de constatar o quanto eu finalmente me desprendera daquele romance em que no passado vivia com tanta satisfação, e como me importei pouco, no fim das contas, com o preço da venda da casa.

Eu tinha sido o filho temporão e feliz, e agora tudo o que eu queria era me ver longe deles. Minha mãe me parecia horrendamente conformista e irrecuperavelmente obcecada com o dinheiro e as aparências; meu pai me parecia alérgico a qualquer tipo de diversão. Eu não queria as mesmas coisas que eles. Eu não dava valor ao que eles valorizavam. E estávamos todos igualmente infelizes naquele carrossel, e éramos todos igualmente incapazes de explicar o que acontecera conosco.

PS:

Ps: Jonathan Franzen ainda é um tiozão bonitão, mas quando novo era de transformar qualquer leitora em Maria-Caneta!!!!

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