Do que são feitas as estórias

Eu não só amo escrever, mas eu também estudar literatura e narrativas em geral. Eu amo histórias, acho que inventar contos que servem como metáforas ou sentidos para a nossa vida é a maior realização humana. O tipo de experiência estética e emocional que eu tenho lendo determinadas obras é algo que eu não consigo descrever e que nunca consegui encontrar em lugar algum, eu posso dizer com 100% de certeza que a literatura salva a minha vida todos os dias e é por isso, por devoção e paixão, que sonho em escrever minhas próprias histórias.

Hoje eu terminei de ler o livro Story, do Robert Mckee, que é focado em roteiros, mas que fala muitas coisas essenciais para histórias em geral, contadas em qualquer mídia. Desde ideias, estrutura, personagens, ritmo, ele trata de todos esses assuntos com uma propriedade inquestionável e uma postura que não dita regras, mas apenas diz o que já foi feito e o porquê disso funcionar ou não. Quando somos novos, achamos que vamos reinventar a roda sem nem mesmo termos aprendido a fazê-la girar direito, mas aí crescemos e percebemos que as coisas não são bem assim. Ninguém quer ficar engessado quando faz arte, claro que não, porque arte é justamente uma transposição de sentimentos e sensações que não podem ser enquadradas. Mas a técnica liberta o talento e a criatividade. Foi isso que aprendi tanto lendo livros de crítica literária quanto em cursos de escrita criativa.

Mais ainda: o que você está querendo contar vem em primeiro lugar. Antes de seu ego, antes das suas ousadias, antes das suas vaidades. Você escreve por amor à história e não por amor ao nosso ego. E foi essa lição que eu também tirei, entre tantas outras, da obra do Robert Mckee. Recomendo muito para quem quer escrever qualquer coisa (roteiros, contos, quadrinhos, romances) e também para quem se interessa por narrativas e quer aprender mais sobre como elas funcionam e quais seus efeitos.

A estória não é uma fuga da realidade, mas um veículo que nos carrega em nossa busca pela realidade, é a nossa melhor tentativa para descobrir algum sentido na anarquia da existência.

O amor pela estória – a crença de que sua visão pode ser expressa apenas através da estória, de que as personagens podem ser mais “reais” que as pessoas, que o mundo ficcional é mais profundo que o concreto. O amor pelo dramático – a fascinação pelas surpresas súbitas e revelações que trazem mudanças imensas à vida. O amor pela verdade – a crença de que a mentira aleija o artista, de que toda verdade na vida deve ser questionada, de acordo com os motivos secretos de cada um. O amor pela humanidade – uma disposição para sentir empatia pelas almas que sofrem, para arrastar-se dentro de suas peles e ver o mundo através de seus olhos. O amor pela sensação – o desejo de deliciar não apenas os sentidos do corpo, mas também os da alma. O amor pelo sonhar – o prazer em passear por sua imaginação só para ver onde ela vai dar. O amor pelo humor – o júbilo pela graça salvadora que restaura o equilíbrio da vida. O amor pela linguagem – encanto pelo som e o sentido, sintaxe e semântica. O amor pela dualidade – a percepção das contradições secretas da vida, uma saudável desconfiança de que as coisas não são o que parecem. O amor pela perfeição – a paixão por escrever e reescrever à procura do momento perfeito. O amor pela singularidade – o prazer pela audácia e uma calma absoluta quando ela encontra o ridículo. O amor pela beleza – um sentido inato que estima a boa escrita -, odeia a escrita ruim e sabe a diferença. O amor próprio – uma força que não precisa de autoafirmação constante, que nunca duvida de de que você seja, de fato, um escritor. Você deve amar escrever e suportar a solidão.

Quando uma ideia se junta a uma carga emocional, se torna o que há de mais poderoso, mais profundo, mais memorável. Você pode esquecer o dia que viu um corpo na rua, mas a morte de Hamlet lhe assombra para sempre. A vida por si própria, sem a arte para moldá-la, deixa-o na confusão e no caos, mas a emoção estética harmoniza o que você sabe com o que sente, para dar-lhe uma consciência elevada e uma certeza de seu lugar na realidade. Resumidamente, uma estória bem contada lhe dá o que você não consegue arrancar da vida: experiência emocional significativa. Na vida, experiências tornam-se significativas quando refletidas ao longo do tempo. Na arte, são significativas agora, no instante em que ocorrem.

Mas antes de dar outro passo, pergunte a si mesmo: essa é a verdade? Eu acredito no significado da minha estória? Se a resposta é não, jogue isso fora e comece de novo. Se sim, faça tudo o que for possível para lançar seu trabalho ao mundo. Pois apesar de um artista poder, em sua vida privada, mentir para os outros e até mesmo para si mesmo, quando cria, diz a verdade; e em um mundo de mentiras e mentirosos, uma obra de arte honesta é sempre um ato de responsabilidade social.

Considere Hamlet, o personagem mais completo já escrito. Hamlet não é tridimensional, e sim decadimensional, dodecadimensional, virtualmente infinitodimensional. Ele parece religioso, até que comete uma blasfêmia. Com Ofélia, é carinhoso e querido em um primeiro momento, e depois insensível, até mesmo sádico. Ele é corajoso, depois covarde. Às vezes, é calmo e precavido, depois impulsivo e precipitado, como quando apunhala alguém atrás de uma cortina sem nem saber de quem se trata. Hamlet é cruel e compassivo, orgulhoso e tem pena de si mesmo, é sagaz e triste, esgotado e dinâmico, lúcido e confuso, são e louco. Ele é de uma profanação inocente, de uma inocência profana, uma contradição viva de quase todas as qualidades humanas que possamos imaginar.

Todos dividimos as mesmas experiências humanas cruciais. Todos sofremos, nos divertimos, sonhamos e esperamos conseguir tirar de nossos dias algo de valor. Como um escritor, pode estar certo de todas aquelas pessoas por quem passa pela rua têm os mesmos pensamentos e sentimentos fundamentais humanos que você. É por isso que, quando você pergunta para si mesmo, “se eu fosse esse personagem, nessas circunstâncias, o que faria?”, a resposta honesta é sempre correta. Você faria a coisa humana. Portanto, quanto mais penetrar nos mistérios de sua própria humanidade, quanto mais entender de si mesmo, mais hábil será para compreender os outros.

Quando observamos o cortejo de personagens que marcharam da imaginação de contadores de estórias como Homero, Shakespeare, Dickens, Austen, Hemingway, Williams, Wilder, Bergman, Goldman e todos os outros mestres – cada personagem fascinante, único, sublimemente humano, e existem muitos personagens assim – e nos dermos conta de que todos nasceram de uma mesma humanidade… é espantoso.

Escreva todo dia, linha por linha, página por página, hora por hora. Mantenha Story a seu alcance. Use o que você aprendeu tendo-o como guia, até que o comando de seus princípios se torne tão natural quando seu talento nato. Faça isso, apesar do medo. Pois, sobre todas as coisas, além da habilidade e da imaginação, o que o mundo lhe pede é coragem, coragem para arriscar a rejeição, o ridículo e o fracasso. Enquanto você segue a busca por estórias contadas com significância e beleza, estude conscientemente, mas escreva corajosamente. Então, como o herói da fábula, sua dança vai estontear o mundo.

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