O Garoto Triplamente Invisível

Terminei de ler ontem Menino de lugar nenhum (Black Swan Green), do David Mitchell. É uma obra daquelas chamadas de ‘coming of age’, ou seja, uma história sobre crescer. Andei lendo muitas destas nos últimos tempos como pesquisa para o meu próprio conto, e essa me chamou a atenção por trazer como narrador e protagonista um menino de treze anos, Jason Taylor, que não se encaixa muito bem entre seus pares por conta de sua extrema sensibilidade (ele escreve poemas escondido) e ansiedade (tem um problema de fala que dificulta sua comunicação com os outros).

Talvez ser feliz dependa do sofrimento dos outros. E isso vale pra todo mundo. Depois de amanhã cedo, as pessoas vão olhar para mim e pensar: Bem, minha vida pode ser um pântano de merda, mas pelo menos eu não sou o Jason Taylor. Pelo menos eu consigo falar.

Verde é feito de amarelo, azul e nada mais. Mas, quando você olha pro verde, não tem como saber onde foram parar o amarelo e o azul. Isso tem alguma coisa a ver com o pai de Moran. Isso tem alguma coisa a ver com todo mundo e com todas as coisas. Só que muitas coisas teriam dado errado se eu tentasse dizer isso pro Moran.

Alguma coisa silenciosa se quebrou sem cair.

(Muitas vezes eu acho que garotos não se tornam homens. Garotos são enfiados dentro de uma máscara de homens feita de papel machê. Às vezes da pra ver que o garoto continua ali.)

Quando você mostra pra alguém uma coisa que escreveu, está oferecendo uma estaca pontiaguda, deitando no caixão e dizendo “Quando você quiser”.

– Você só quebrou um relógio! Não quebrou um um futuro. Nem uma vida. Nem uma coluna.

– Você não conhece meus pais – Eu parecia zangado.

– A questão é: “E você me conhece?”

– Claro que sim. A gente mora na mesma casa.

– Assim você parte meu coração, Jason, Ah, você parte meu coração. Sério.

Pessoas são ninhos de carências. Carências estúpidas, carências ajudas, carências sem fundo, carências superficiais, carências de coisas abstratas, carências de coisas concretas. As propagandas sabem disso. As lojas sabem disso. Especialmente em centros comerciais, onde as lojas são ensurdecedoras. Eu tenho o que você quer! Eu tenho o que você quer! Eu  tenho o que você quer! Mas, caminhando pelo Regent, percebi uma nova carência, normalmente tão próxima que a gente nunca se dá conta. Você e sua mãe precisam gostar um do outro. Não amar, mas gostar.

Garotos que são azucrinados agem como se fossem invisíveis para reduzir as probabilidades de serem notados e azucrinados. Pessoas que travam agem como se fossem invisíveis para reduzir o risco de serem obrigadas a falar algo que não conseguem. Garotos com pais que vivem discutindo agem como se fossem invisíveis para não darem início a outra briga. Sou Jason Taylor, o Garoto Triplamente Invisível. Nem mesmo eu tenho visto o verdadeiro Jason Taylor ultimamente, a não ser quando estou escrevendo um poema, ou às vezes no espelho, ou logo antes de cair no sono.

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