Algo sinistro vem por aí

Eu adoro o Ray Bradbury, ele é um dos meus escritores favoritos de todos os tempo e eu realmente fiquei chateada com a sua morte no ano passado, mas o bom de um artista desde nível é que ele se faz imortal através de sua obra. Hoje terminei de ler Algo sinistro vem por aí, um romance dele que mistura fantasia e horror com temas universais, como o envelhecimento, o bem e o mal, a tentação e a morte.

É Ray Bradbury, então eu sabia que iria amar antes mesmo de começar a ler. O que me deixou mais ainda feliz foi o fato dele ter feito o que eu quero fazer: contar uma história sobre crescer com elementos fantásticos que servem como uma alegoria, uma metáfora do que acontece dentro dos personagens. Amei e recomendo muito.

Emoldurado pela porta de entrada, Will viu o único teatro com o qual se importava naquele momento, o palco familiar onde seu pai estava sentado (Já em casa! Jim e ele deviam ter percorrido o caminho mais longo!), segurando um livro, mas lendo os espaços vazios. Em uma cadeira, junto à lareira, sua mãe tricotava e cantarolava como uma chaleira.

Will queria estar perto e longe deles, via-os próximos e também distantes. De repente, eles pareceram espantosamente pequenos numa sala grande demais, em uma cidade grande demais e num mundo demasiadamente imenso. Neste lugar sem trancas, eles pareciam à merce de qualquer coisa que pudesse emergir da noite.

“Inclusive eu”, pensou Will, “inclusive eu”.

E, de repente, percebeu que os amava ainda mais em sua pequenez do que os amara quando pareciam grandes.

Bem longe, lá no prado, sombras tremulavam no Labirinto de Espelhos, como se partes da vida de alguém que ainda não havia nascido estivessem aprisionadas aguardando para serem vividas.

Então, no meio da multidão, foi até o parque de diversões, ficando fora das tendas, fora dos brinquedos, observando, vendo o sol se aproximar do horizonte e, bem na hora do crepúsculo, observou as águas de vidro frio do Labirinto de Espelhos, vendo apenas o suficiente da beira da praia para afastar-se antes de se afogar. Encharcado, gelado até os ossos, deixou que a multidão o protegesse e o levasse de volta para a cidade antes que ficasse muito escuro, de volta para a biblioteca e para os livros mais importantes… que ele havia arrumado para formarem um grande relógio literário em cima da mesa, como alguém aprendendo a contar um novo tempo. E, assim, caminhou em volta do imenso relógio, olhando para as páginas amareladas como se elas fossem mariposas mortas pregadas na madeira.

Em resumo, quem somos nós? Nós somos as criaturas que sabem demais. E isso nos deixa com uma carga, um pedo com o qual só podemos escolher entre rir ou chorar. Nenhum outro animal faz isso. Nós fazemos as duas coisas, dependendo da necessidade ou da estação. De alguma forma, eu acho que aquele parque observa, para ver se estamos rindo ou chorando, como e por quê, e avança sobre nós quando sente que estamos maduros.

Nós lutamos juntos contra a noite. E começamos a lutar por pequenas causas. Por que adoramos aquele menino num campo de verão, enfrentando o céu com sua pipa? Porque os nossos dedos queimam com a linha quente chamuscando nossas mãos. Por que amamos aquela menina que vemos da janela de um trem, curvada sobre um poço na roça? Porque nossa língua se lembra do sabor da água fria em algum meio-dia perdido no passado. Por que choramos ao ver estranhos mortos à beia de uma estrada? Porque eles nos lembram amigos que não vemos há muitos anos. Por que rimos quando palhaços são atingidos por tortas? Porque provamos seu recheio, saboreamos a vida.

Todo mal que nutrimos, eles pegam emprestado e duplicam. Eles são um bilhão de vezes mais ávidos pela tristeza, pela desgraça e pelo sofrimento do que o homem médio. Nós temperamos nossas vidas com os pecados de outras pessoas. Nossa carne, para nós, nos parece doce. Mas o parque de diversões se delicia com o medo e com a dor. Esse é o combustível, o vapor que move o carrossel, a matéria-prima do terror, a agonia excruciante da culpa, o gripo pelas ferias reais ou imaginárias. O parque suga esse combustível e o inflama, e, então, avança resfolegando.

O mal só tem o poder que damos a ele. E eu não lhe dou nada. Eu tiro. Definhe, definhe, definhe.

Será que a Morte é importante? Não. Tudo o que acontece antes da Morte é o que conta.

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