Revisitando o Blur, Parte II, Modern Life is Rubbish : “Nos seguramos para o amanhã”

‘Modern Life Is Rubbish’ está, junto com ‘Parklife’, em um local especial do meu coração, então não dá pra esperar qualquer tipo de imparcialidade aqui, já vou avisando. Primeiro que ganha o título de melhor álbum de toda a discografia deles e, além de muito bom, o nome é um resumo da história que encontramos no disco.

Aqui foi quando o Blur se revoltou com a gravadora, com os EUA e com o grunge. Resolveram que iam ser o mais britânicos possível e que iam tocar música cheia de influências inglesas, falando sobre a Inglaterra e se apresentar de terninhos e, se fosse possível, imagino que tomariam chá durante os shows também.

O primeiro single, For Tomorrow, já diz tudo. Desde o clipe, até a letra da música (falando de Londres) e o todo o visual da banda. É uma das músicas mais bonitas de toda a carreira deles, mostra uma evolução gigantesca deles como músicos e do Damon como letrista também. É uma das minhas favoritas até hoje, acho que mistura muito bem uma alegria momentânea com uma melancolia constante, eu não sei explicar direito, mas é uma canção muito positiva e muito triste ao mesmo tempo. Sempre me emociono quando escuto.

For Tomorrow

Foi aqui que o Blur começou a cantar sobre personagens, usando-os como uma forma de dar cara e personalidade para a Inglaterra e seu modo de vida. Também descobriram que podiam fazer humor nas suas músicas, não se levar a sério… ao mesmo tempo em que eles estavam começando algo que viraria um movimento musical inteiro no país. Acho que foi a biografia do Alex onde eu li que nesta época entraram os executivos da gravadora no estúdio e escutou o que eles estavam fazendo e disse que era um suicídio comercial, porque música britânica não era bem vista no momento em que a banda mais famosa e adorada do mundo era o Nirvana. Dessa vez, porém, o Blur não quis saber da opinião deles e muito menos do que estava acontecendo nos EUA. Eles estavam, na verdade, fazendo de propósito: indo contra tudo o que era ‘americano’ e escolhendo bandas tradicionalmente britânicas como The Kinks, The Who e The Jam como influência para suas canções.

Sunday Sunday

Chemical World

Popscene

Os outros singles de Modern Life is Rubbish foram esses aí de cima e, na verdade, Popscene foi uma música lançada entre o Leisure e o Modern Life is Rubbish que acabou entrando em algumas versões do disco. Eu gosto muito dessas três músicas, especialmente Popscene porque de certa forma mostra como a banda estava se rebelando contra o que era ‘pop’ e ia fazer o que eles quisessem de agora em diante. E faz de um jeito divertido, engraçado, sarcástico, que acabou virando a marca deles. Sunday Sunday é uma música claramente homenageando e ao mesmo tempo tirando sarro do modo de vida inglês, é divertida e engraçada (viria a fazer uma tríade bacana com Parklife e Country House, dos próximos trabalhos da banda). Chemical World tem uma atmosfera mais de sonho que lembra um pouco algumas canções do Leisure, e uma letra bem bacana… foi composta porque a gravadora falou que o cd não tinha nenhuma música que serviria de single nos EUA.

Jim para e sai do carro, vai para uma casa no Emperor’s Gate
Atravessa a porta e vai para seu quarto, então ele liga a TV
Desliga e faz um chá, diz: “A vida moderna é um lixo”
(Nos seguramos para o amanhã)
Então Susan entra pela sala
Ela é uma garota safada com um sorriso amável
E diz: “Vamos dirigir até Primrose Hill,
Está ventando e a vista é tão bonita,
O gelo de Londres pode congelar seus dedões,
Como os de qualquer um… eu suponho!”
(Nos seguramos para o amanhã)

Entre todas as músicas do álbum, que é bem grande aliás, se destacam pra mim (tirando as que já comentei): Advert, pesada e rápida, falando sobre precisar de férias e como propagandas são prejudiciais à saúde; Star Shaped, eu realmente amo essa música, é uma das que mais gosto deles, adoro a guitarra nessa música desde a primeira nota até a última, e também como a letra não tem medo algum de fazer gracinhas e ser boba; Blue Jeans, mais lenta e séria que as outras, outra das minhas favoritas porque mostra o lado mais emocional e fala sobre ser quem você é ser aceito de uma forma original e bem inteligente: usando imagens como calça jeans e sapatos sociais; Colin Zeal, essa é uma das primeiras (de muitas) músicas do Blur que fala sobre um personagem e, além do fato da melodia ser ótima e ter um dos melhores refrões deles, acho que um dos motivos de eu gostar tanto dessa banda é que o Damon sabe construir personagens inteiros com algumas frases e, mais, esses personagens representam sempre a sociedade e a cultura daquele tempo; Oily Water, de novo, a guitarra nessa música é espetacular e, além disso, acho que é uma das que eles mais ousaram e experimentaram no álbum, sem contar que o quão legal é o Damon cantando num megafone?; Intermission, totalmente instrumental, começa com um piano e a velocidade vai aumentando a medida que outros instrumentos vão sendo inseridos até virar um caos total e, depois, voltar a ficar tranquila… acho que mostra o quanto eles estavam se importando em suprir as expectativas comerciais da gravadora, por isso coloco aqui.

Eu escrevi no texto anterior que o Blur procurava a sua voz no Leisure, bom… eles realmente a encontraram no Modern Life is Rubbish. Pra mim, é um clássico subvalorizado que ficou um pouco apagado porque seria com o trabalho seguinte, Parklife, que o Blur realmente ganharia reconhecimento. Mas, voltando e ouvindo como se deve, esse disco está lotado de canções que pegam como base o rock inglês clássico e dá uma roupagem própria, se encaixando na época em que foi feito e tecendo comentários sociais inteligentes que soam verdadeiros até hoje. Bom, pelo menos pra mim, a vida moderna continua a ser um lixo.

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