Revisitando o Blur, Parte III, Parklife : Sempre deveria ser alguém que você ama de verdade

‘Parklife’ não é tido como o mais importante álbum do Blur por nada, é realmente uma excelente obra que mostrou a voz e a mensagem de uma banda em um de seus picos de criatividade. Foi lançado pouquíssimo tempo depois de ‘Modern Life is Rubbish’ e, como este, é composto por músicas fortemente influenciadas pelo rock inglês e que falam do cotidiano da Inglaterra. Diz que ia se chamar ‘London’ num primeiro momento e a intenção era formar uma coleção de músicas que mostrassem o modo de vida britânico durante os anos 90. Na verdade, o que eles fizeram aqui foi aprofundar o que tinham feito no ‘Modern Life Is Rubbish’, mas eu acho que ‘Parklife’ é muito melhor equilibrado e conciso, no sentido de que, todas as músicas, por mais diferentes que soem entre si, são sem sombra de dúvida parte daquela obra maior. Sinto que foi como se eles tivessem encontrado sua voz com o ‘Modern Life is Rubbish’ e, no ‘Parklife’, eles a usaram para dizer algo que consideravam muito importante.

É tudo mais polido, as músicas são mais elaboradas, eles experimentaram muito mais em todos os sentidos. Já li um crítico dizer que Parklife é como conhecer alguém e ter um primeiro encontro perfeito com essa pessoa: é inteligente, divertido, engraçado, doce, emocional, pode te faz rir, pode te fazer chorar, faz comentários sociais, faz comentários pessoais. E aí, quando termina, você fica com vontade de voltar para o início e viver aquilo tudo de novo.

A questão de uma banda como o Blur é que, ao contrário de outras, eles nunca se contentaram com um tipo de som. Eles se reinventaram durante toda a carreira, só ficaram mais ou menos na mesma durante essa chamada ‘Trilogia Britânica’ formada pelo ‘Modern Life is Rubbish’, ‘Parklife’ e ‘The Great Escape’. E, durante essa fase, acho que não tem como negar que eles foram mais corajosos, criativos e tiveram mais sucesso, em vários sentidos, com o Parklife.

O primeiro single foi a conhecida Girls & Boys, que já vi sendo descrita como a canção pop perfeita e que sobrevive até hoje como uma das mais famosas músicas deles, só olhar o estado que fica a plateia nos shows atuais quando eles a tocam. Eu gosto muito, acho divertida e detalhada, o baixo é incrível e também adoro como a letra desafia esteriótipos de gêneros e sexualidade, chegando à conclusão que “sempre deveria ser alguém que você ama de verdade”. O clipe é um exagero de croma de dar vergonha, mas não consigo não gostar porque toda a década de noventa está impressa ali. Completamente.

Girls & Boys

O single seguinte, To The End é uma das canções a explorar o lado mais tenro e emocional do Blur. Que eles fazem muito bem nesse álbum, na verdade. Engraçado é que, quando penso em ‘Parklife’, me vem na cabeça músicas agitadas sobre personagens esquisitos e comentários sociais inteligentes. Mas olhando a tracklist do disco, são várias as canções que fogem disso e mostram um blur muito mais emocional que cerebral. To The End é uma delas, elegante e épica, meio gospel, traz uma sensação de amor explosivo que consome todo o resto ao seu redor; Badhead é uma das minhas favoritas, além da guitarra genial do Graham, eu acho que é uma das melhores letras do Damon e uma das que mais me identifico, pelo menos pra mim fala muito mais sobre se sentir abandonado e totalmente desanimado do que sobre a ressaca do título; Clover Over Dover é brilhante em todos os sentidos e meio que te deixa passando mal depois que você percebe que a música fala de suicídio, pelo menos eu fiquei, quer dizer: ‘não me enterre, eu não valho nada’ junto com aqueles ‘ah-ah’ e a guitarra traçando uma linha dolorosa durante toda a melodia… machuca!

Estou nos precipícios brancos de Dover
Pensando e repensando naquilo
Mas se eu pular acaba tudo
Um conto para te advertir

To The End

Claro que os personagens estão de volta, melhores do que nunca. Tracy Jacks e Jubilee são brilhantes! A primeira fala sobre esse cara que está envelhecendo e entrando numa crise de meia idade, acaba indo correr pelado numa praia, sendo preso pela polícia e colocando fogo na própria casa. Tudo isso com uma melodia divertida que torna toda a história ainda mais absurda, eu gosto especialmente da hora em que entram violinos aleatórios mas que funcionam perfeitamente. Aliás, essa é uma das melhores partes do Parklife, elementos inesperados nas músicas que se equilibram de maneira perfeita. Jubilee é um sobre um garoto preguiçoso que assiste muita televisão e está deixando seu pai nervoso porque não consegue um emprego, não consegue amigos, não consegue uma namorada. É uma música mais pesada, rápida, novamente eu adoro a guitarra (eu amo o Graham, acho ele um dos guitarristas mais talentosos) e, de novo, a música é invadida no meio por sons de videogames que deixam tudo mais sarcástico e engraçadinho. E ainda tem Magic America, sobre Bill Barratt que sonha em ir morar na ‘América Mágica’, ou seja, mais um jeito de o Blur fazer gracinhas com os EUA e essa vontade louca que todo mundo tem de ir pra lá achando que é a terra prometida (vou parecer disco riscado, mas prestem atenção na guitarra dessa música, pelo amor…). Eu sou totalmente a favor do Damon escrever um livro, sério, porque nunca vi um compositor ser capaz de criar personagens tão verossímeis com tão poucas frases. Genial.

Bill Barrat tem um sonho simples
Ele chama isso de seu plano B
Prédios no céu e o ar é sem açúcar
E todo mundo é muito amigável

Plano B chegou em um feriado
Ele pegou um táxi para os shoppings
Comprou e comeu até que não conseguisse mais
Então encontrou amor no canal 44

Mais ou menos na mesma levada, essa história de divertido, inteligente e engraçadinho, está a música título do album. Parklife. Segundo o Damon, essa música foi inspirada pelas observações que ele fez no Hyde Park, em Londres, e todos os interessantes personagens que passavam por ali. A versão demo tem o Damon no vocal principal, mas ele mesmo não gostou do resultado e acabou chamando o ator Phil Daniels pra cantar no álbum, o que deixou a música mais parecida com essas canções sobre ‘personagens’, na minha opinião. É como se um dos personagens do Damon viesse cantar a música ao invés de ser só alvo de comentários. Eu amo, simplesmente amo. É uma das minhas músicas favoritas da banda. É bem simples na melodia, mas a letra completamente lotada de palavras (até difícil de acompanhar), e o refrão é contagiante como deve ser de um single perfeito. O clipe só ajuda a passar a mensagem, que é uma pura tiração de sarro dos costumes ingleses, completamente auto-depreciativo, como funciona o humor deles mesmo.

Parklife

Bank Holiday é mais uma descrevendo costumes ingleses, muito mais pesada e rápida, lembra um pouco as músicas anteriores deles Popscene e Advert. London Loves é uma homenagem ligeiramente sarcástica pra a cidade, quer dizer… ao mesmo tempo em que é uma música pra contar como eles amam Londres, repetem que a cidade gosta quando as pessoas se despedaçam. The Debt Colector, Far Out, Trouble In The Message Center e Lot 105 mostram um Blur mais peculiar, experimental e menos preocupado em fazer músicas ‘pops’ e singles.

Todos dizemos:
“Não quero ficar sozinho”
Nos vestimos as mesmas roupas
Porque sentimos as mesmas coisas
E beijamos com lábios secos
Quando dizemos boa noite
Fim de um século…
Não é nada especial

E aí temos End Of A Century, o último single do disco, que me faz lembrar de For Tomorrow por ser delicada, doce e ter uma linda letra, uma das melhores na minha opinião, aquela frase “nós usamos as mesmas roupas porque nos sentimos do mesmo jeito” sempre me emociona, eu nem sei o porquê. Mas eu acho que esse é um dos momentos em que o Blur deixou de ser cerebral e deixou se levar mais pela emoção. E falando em emoção, tenho que fechar comentando sobre This Is A Low que é uma obra prima sobre a Inglaterra que o Damon escreveu quando estava numa turnê furada pelos EUA. É maravilhosa. Essa é uma das únicas coisas que consigo falar sobre essa música. É pura emoção do começo até o fim. Todos os instrumentos soam melancólicos e a voz do Damon parece chorosa em alguns versos. Acho que se saudade fosse uma canção, seria essa música. A letra é perfeita também, descrevendo locais da Inglaterra só para, no refrão, explicar que, mesmo estando em um abismo, essa queda não vai te machucar. Acho que não é só o Damon que chora cantando essa música (e ele chora mesmo), eu acho que só não se emociona com This is a Low quem não tem coração.

End Of A Century

Finalizando, foi com esse disco que eles ficaram famosos e que ganharam um zilhão de prêmios e viraram a maior banda do Reino Unido. Não é pra menos, porque ‘Parklife’ é do tamanho, senão maior, que o hype em torno dele. É daqueles álbuns 5 em 5 estrelas, sabe? Eu gosto de cada uma das músicas, acho que elas funcionam juntas como deve ser num álbum e todas as melodias e letras são originais, criativas e interessantes. Sem contar que eles tinham algo a dizer. É engraçado, normalmente procuramos por escritores ou humoristas quando queremos ouvir comentários sociais sobre nosso cotidiano, mas o que o Blur fez nesse álbum foi exatamente isso, usando música. Escutar ‘Parklife’ é descobrir Londres dos anos 90, ao mesmo tempo em que, por conta da qualidade e do talento dos músicos, as canções não soam datadas ou velhas.

Ouvindo de uma vez só o ‘Parklife’ inteiro, o que me impressiona é como eles foram capazes de juntar baladas, disco, punk, experimentações estranhas, gospel… tudo num lugar só e fazer funcionar como um trabalho conciso. ‘Parklife’ é uma aventura com gostos completamente diferentes, mas que misturados formam um conjunto simplesmente delicioso.

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