Revisitando o Blur, Parte IV, The Great Escape: Eu nunca te vejo, nós nunca estamos juntos

A última parte da Trilogia Britânica do Blur, e também a que mais causa comentários diferentes. Isso porque, na época em que foi lançado esse cd, o Blur estava em plena guerra contra o Oasis e acabou que o Oasis ficou conhecido no mundo inteiro e o Blur nem tanto, por isso o álbum foi classificado como um fracasso. Além disso, o próprio Damon disse que não acha esse trabalho um dos melhores que já fez e que preferia ter usado as músicas e ideias para um musical. Poderia funcionar, na verdade, porque The Great Escape é um ‘concept album’, um daqueles discos que tem uma história em comum unindo todas as músicas. Nesse caso, todas as canções falam sobre dois temas maiores: o cotidiano da classe mais rica da Inglaterra e, mais subjetivamente, a solidão. A mensagem é que você trabalha a sua vida inteira para juntar dinheiro só para, justamente conseguiu isso, perceber que a sua felicidade não estava ali.

Tudo bem que poderia se dizer os primeiros álbuns da Trilogia Britânica também fazem algo parecido, especialmente porque Modern Life is Rubbish fala da classe pobre e Parklife da classe média inglesa, mas no The Great Escape isso é mais exagerado e muito mais explícito… o que pode ter servido para muitas pessoas terem dito que esse álbum se parecia com uma caricatura do Blur. De certa forma, parece uma caricatura, porque o humor, os personagens e os temas são ainda mais fortes que nos trabalhos anteriores, mas eu acho que funciona bem. Ao contrário de muita gente, eu gosto bastante do The Great Escape.

Os subúrbios estão dormindo
Mas ela está se vestindo esta noite
Ela gosta de um homem em uniforme
Ele gosta de usá-lo apertado
Eles estão no sofá do amante
Eles estão no pátio
E quando a diversão acaba
Se assistem em vídeo

Os vizinhos podem estar olhando
Mas eles não estão ligando

Como The Great Escape tem essa peculiaridade, resolvi escrever sobre as músicas na ordem em que elas aparecem e focar bastante na mensagem e nas letras, para a história fazer mais sentido:

Stereotypes é a primeira canção do álbum, melodicamente lembra o Blur das músicas mais pesadas misturado com o Blur das músicas engraçadinhas, o que pra mim dá uma boa mistura. Gosto bastante da guitarra dessa música (Graham sempre é ótimo) e também da letra. Que fala sobre sobre os subúrbios usando como ponto de vista a vida de uma mulher cujo marido está fora (outra coisa frequente nesse álbum inteiro: histórias de amor e desamor em que as duas pessoas, por algum motivo, nunca conseguem se encontrar).

Ele tem a glória da manhã e a vida é outra história
Tudo está indo normalmente
Tocado por sua própria mortalidade
Ele está lendo Balzac, e tomando Prozac
É uma ajudinha que te faz se sentir maravilhosamente anestesiado

Oh, é o remédio do século

A próxima é Country House,que escolhida como primeiro single, e que ganhou a batalha de vendas quando foi colocada em disputa contra o Oasis e acabou ficando marcada por isso. O Damon disse que essa música foi inspirada por antigo agente do Blur, que largou o trabalho foi morar no interior. De qualquer forma, a música fala de um homem rico que quer escapar da cidade e compra uma grande casa no interior. Pra mim, Country House fecha um diálogo perfeito que começou com Sunday SundayParklife, e me lembra bastante essas duas músicas. Também fala de um cotidiano (dessa vez de alguém rico) e tem uma energia de festa e brincadeira extremamente sarcástica quando se presta atenção na letra. Ao mesmo tempo, a música também toca naquele outro tema desse álbum, a solidão, quando para lá para o final e faz um sincero e emotivo desabafo: “eu estou tão triste e não sei o porquê”.

Continuando a saga, enquanto as duas primeiras músicas são de festa e uma celebração da vida de luxo, ainda que completamente sarcásticas e já um tanto melancólicas, a terceira é quase uma ressaca. Best Days não só é uma das minhas favoritas desse cd, como uma das minhas favoritas do Blur. Pra quem fala que The Great Escape perdeu o coração por ter ‘tentado ser inteligente-engraçadinho demais’, bom, essa música é um bom exemplo de que isso não é verdade. Basicamente, a música pergunta se é só isso que tem para nós nessa vida. É uma das mais lentas do cd e provavelmente a que mais dá dor no coração… quer dizer, o refrão fala que outras pessoas vão rir de você se você disser que esses são os melhores dias de sua vida. Eu acho muito tocante.

Charmless Man é uma música de personagem, que fala sobre um homem de negócios que foi criado em berço de ouro e aparentemente tem uma vida perfeita, mas que não suporta os seus colegas de trabalho e não é suportado por eles, e basicamente tenta agradar e ser gostado por todos a todo momento. É bem pop e talvez a música mais grudenta do Blur; ainda conta com o famoso ‘Na-na-na-na!”. Fade Away é uma música que fala sobre esse casal, que se encontraram e se casaram e mudaram para uma vizinhança com pessoas da mesma classe social, e trabalham longas horas todos os dias, o que acaba fazendo com que eles se desencontrem: quando ele chega, ela saí. E, então, eles percebem que não faz sentido planejar nenhum futuro, porque tudo o que eles fazem é desaparecer. Acho que essa é a música que melhor resume o conceito todo de The Great Escape. A música, como muitas do Blur, tem um ritmo animado e um tom extremamente irônico e, ao mesmo tempo, triste.

Topman é sobre o milionário, o chefe, o presidente das empresas. E, agora que estou escrevendo, posso ver porque as pessoas torceram o nariz para esse álbum do Blur: acontece que praticamente todas as músicas fazem graça de uma forma estupidamente inteligente, deixando tudo bastante cerebral, o que pode parecer pouco orgânico e um tanto forçado. Mas eu acho que se você enxergar isso no contexto de um álbum conceitual, faz sentido. Porque eles realmente conseguem formar uma pintura inteira, um universo, quando se junta todas as peças do quebra cabeça. Essa música é mais dançante e tem barulhos e sons estranhos fazendo gracinha, enquanto a letra cita marcas de roupas e cigarros para criar esse personagem. Mesmo que algumas pessoas achem que o Damon exagerou nas canções de personagens, eu não consigo, como aspirante a escritora de ficção, deixar de me espantar em como ele consegue criar personagens completos em alguns versos. É realmente uma habilidade impressionante. Você forma uma imagem inteira na sua cabeça ao juntar os sons com as frases que estão sendo cantadas. Nessa música, em especial, isso fica bastante claro.

The Universal é uma das minhas músicas favoritas de todos os tempos. Eu acho que ela tem uma atmosfera épica, por conta das cortas e dos vocais, ao mesmo tempo em que parece extremamente íntima também. Me dá uma sensação estranha ouvir essa música, talvez por conta do clipe inspirado em Laranja Mecânica, não sei. Mas, de qualquer forma, a música fala sobre pessoas presas num universo, numa rotina e numa vida onde são constantemente vigiadas, e elas querem se libertar, mas me soa mais como uma vontade inconsciente. Como até foi interpretado no clipe: as pessoas nem ao menos percebem que estão nesse local. Eu adoro essa música, acho linda demais e uma das melhores de toda a carreira deles.

De volta às músicas de personagens: Mr. Robinsons’ Quango fala sobre um cara muito rico que usa suspensórios, tem herpes e belisca a bunda de sua secretária. É a música mais estranha de todo o álbum, muda de ritmo umas três vezes e termina com o Damon gritando “eu sou um menino safado!” e uma marchinha meio assustadora.

Ele pensou em carros
E onde, onde dirigí-los
E com quem iria dirigí-los
Mas não havia ninguém
A próxima música, He Thought Of Cars, faz uma mistura bem bacana da descrição de um cotidiano com o sentimento de solidão e completo desligamento do mundo. A guitarra bem rasgada soa como um lamento, assim como a voz do Damon, completamente desanimada e desconectada. Os versos contam o que acontece no mundo (Moscou ainda está vermelho; Há pânico no aeroporto de Londres; Columbia está em alta velocidade; América atirou e se foi) e no cotidiano mais próximo das pessoas (Todos querem ir no azul, mas tem uma fila de dez anos), só pra no refrão despedaçar tudo isso mostrando que não adianta nada ter o mundo todo se você está sozinho. It Could Be You é uma canção sobre ganhar na loteria e ficar rico… bem, na verdade é sobre a chance de ganhar na loteria). Tem uma linguagem de propaganda (Poderia ser você!), fala sobre aquela fantasia que todo mundo tem de que você finalmente vai ser feliz no momento em que ganhar um montão de dinheiro e como esse sonho é alimentado porque “se o seu número da sorte não for sorteado hoje, sempre tem outro amanhã e… poderia ser você!).
Ernold Same acordou do sonho de sempre e sentou na cama de sempre no horário de sempre
Olhou no espelho de sempre e fez a expressão de sempre
E se sentiu do jeito de sempre
Depois Ernold Same pegou o trem de sempre na estação de sempre
Sentou no banco de sempre com a mesma mancha nojenta de sempre ao lado o ‘quem é esse’ de sempre
No caminho para o lugar de sempre para fazer a coisa de sempre de novo e de novo e de novo
Pobre velho Ernold Same
Oh Ernold Same, o mundo dele é o de sempre
Hoje sempre vai ser amanhã
Pobre Ernold Same, ele está sentido isso de novo
Nada vai mudar amanhã
Ernold Same é rapida e tem ritmo de marchinha. Fala de um personagem, o tal Ernold Same, que acorda e faz a mesma coisa todos os dias e não tem como escapar disso, então não existe amanhã pra ele, é sempre hoje e sempre a mesma coisa. Talvez seja a narração estranha desanimada ou a repetição, mas essa música sempre me pareceu um pouquinho creepy. Globe Alone volta a falar de marcas, artistas famosos e propagandas. O refrão volta a ideia de solidão, mostrando que, apesar de ter tudo o que ele quer, o personagem da música se encontra sempre só.
Dan Abnormal é uma das minhas músicas favoritas também. É sobre um personagem, mas o nome dele é um anagrama de Damon Albarn, o que deixa ainda mais divertido. Adoro a guitarra nessa música e a parte em que fala de jogos de videogames e começa a fazer sons de jogos. A música é sobre um cara, Dan Abnormal, que não é nem um pouco normal, mas que isso é porque o mundo em volta dele o deixou assim. A música volta a falar de coisas como televisão, McDonalds e videogames, responsáveis por fazer o Dan ser como é. A canção seguinte é Entertain Me, e preste atenção no baixo dessa música, porque é maravilhoso, ao mesmo que a guitarra é bem bizarra e quase desesperada. Acho que combina com a música, porque aqui é o momento da história de The Great Escape, em que acontece a epifania de que o tédio da vida mundana e essa necessidade de juntar a maior quantidade de dinheiro que puder não pode ser a vida, e aí vem o pedido do refrão: “me divirta!”.

Eu bebo nas madrugadas
Me ajuda a relaxar
Eu não consigo dormir sem beber
Nós bebemos juntos

A última canção fecha a história de uma maneira bem positiva, eu acho. Depois de descobrir que a vida é pra ser aproveitada com diversão, a solidão (que no começo era algo sutil e quase negado) se torna o maior problema em Yuko and Hiro. “Eu nunca te vejo, nós nunca estamos juntos, eu te amo para sempre” fala no refrão, tomando consciência de que não adianta ter uma casa no campo, ser o chefe, ter roupas e coisas de marca, trabalhar que nem louco e juntar dinheiro, se no final você está completamente sozinho. E acho bem bonito que o fim da história seja a frase: “de segunda à sábado eu vou para o meu trabalho, mas no domingo nós estamos juntos”, isso deu o fechamento positivo. É como se, sim, nós temos que nos sujeitar a uma vida chata, mas ainda assim é possível encontrar nela uma maneira de aproveitar o que realmente importa.
No fim da história, o nome do álbum faz sentido: “A grande fuga”. É a fuga da vida sem sentido para encontrar uma vida que você aproveite e goste de verdade. Eu não sei porque esse álbum virou um dos mais mal falados do Blur, sinceramente. Acho que, além de ser extremamente inteligente e ter ótimas músicas, é muito divertido de ouvir. Mas acho que todo o contexto em que ele foi lançado ajudou a criar essa má fama. De qualquer forma, eu recomendo ouvir de cabeça aberta e prestando atenção na mensagem, porque, apesar da aura irônica e engraçadinha, as músicas tem uma mensagem muito bonita e universal. Todo mundo, em algum ponto, precisa realizar uma grande fuga de onde está para descobrir onde quer ir de verdade.
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2 thoughts on “Revisitando o Blur, Parte IV, The Great Escape: Eu nunca te vejo, nós nunca estamos juntos

  1. Rodrigo says:

    Gosto do Blur desde 94 fabulosa sua crítica do The Great Escape tenho um álbum duplo deles que foi lançado no Japão com remixes e algumas músicas ao vivo é algo mais eletrônico feito por músicos renomados da era eletrônica daquela época. Um bom documentário para análise também é o No Distance Left To Run.
    Abraço
    Parabéns

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