Lágrimas ficcionais e finais adequados

Eis aqui a minha teoria. Nós escritores estamos aí para o seguinte: construímos tensões sobre o riso, então dê permissão e o riso vem. Construímos tensões sobre a dor e, por fim, diga, chore e torça para ver seu público em lágrimas. Construímos tensões sobre a violência, acenda o pavio e corra. Construímos estranhas tensões de amor, em que tantas outras tensões se misturam para ser modificadas e transcendidas, e permita a fruição delas na mente do público. Construímos tensões, especialmente hoje, sobre doenças e então, se formos bons o suficiente, suficientemente talentosos, elas permitem que o nosso público fique doente. (Ray Bradbury)

Esses dias eu estava pensando em como o nosso estado de espírito influencia os rumos das narrativas que inventamos. Porque o romance que estou escrevendo há alguns anos começou a ser planejado em uma época que eu estava me sentindo muito mal, com crises fortíssimas de ansiedade e me recuperando de uns acontecimentos trágicos, e eu não conseguia ver nenhuma possibilidade de terminar a história com um final feliz. Simplesmente não era uma opção.

Hoje, estou reescrevendo essa mesma história e não me parece uma opção deixar o final como estava antes. Não só porque foi basicamente escrito de uma vez e sem muita elaboração (como todo rascunho), mas também porque eu acho que, atualmente, estou mais esperançosa e acabei criando um carinho por finais felizes. Quer dizer, não um final de novela (com baby boom, vilões morrendo e felizes para sempre), mas algo que ligeiramente mais positivo e otimista. Talvez, quando eu reescrever de novo, queria terminar de outro jeito… talvez eu dê 10 finais diferentes para o mesmo romance, não sei. Acho que preciso me distanciar um pouco e ver qual o melhor jeito, o problema é que essa decisão do ‘melhor’ parece estar muito grudada em como estou me sentindo no momento e do que estou precisando. Vamos ver no que isso vai dar…

O ponto é que, desde pequena, eu tenho reações muito viscerais à ficção. Eu odeio, amo, me apaixono e sofro de verdade, ao ponto de já ter passado mal por causa disso. E, claro, o meu objetivo é provocar esse tipo de reação em ao menos uma pessoa. Talvez por isso meus textos já tenham sido chamados de ‘tocantes’ várias vezes, porque o meu objetivo principal (ainda que eu nunca tenha isso em mente quando escrevo) é usar uma mentira para provocar reações verdadeiras no meu leitor. Eu acho que isso é o que todas as boas obras de ficção tem em comum, e o que todo bom escritor sabe fazer. Porque é um mentira. Toda ficção é uma mentira. Mas isso não quer dizer que os sentimentos que elas provocam não sejam verdadeiros.

Porque, por favor, compreenda que, se você me envenenar, devo ficar doente. Parece-me que as pessoas que escrevem o filme doente, o romance doente, a pela doente se esqueceram de que o veneno pode destruir mentes, assim como destruir a carne. Mutos vidros de veneno vêm com instruções para vômito em seu rótulo. Por causa da negligência, ignorância ou inabilidade, os novos Bórgias intelectuais entopem nossa garganta com bola de cabelo e nos negam a convulsão que pode nos fazer sentir bem.

Essas pessoas se esqueceram, embora sempre soubessem, do conhecimento antigo de que apenas ficando realmente doente é que alguém pode recuperar a saúde. Até os animais sabem quando é bom e apropriado vomitar. Ensine-me como ficar doente então, no momento e no lugar certos, e assim poderei andar de novo pelos campos e, como os cães sábios e felizes, saber o bastante para mastigar erva-doce. (Ray Bradbury)

O que eu andei pensando, na verdade, é que quando você tem o poder de manipular as sensações das pessoas desse jeito, também tem a responsabilidade de fazer isso com algum propósito que o valha a pena. Outro dia eu li uma frase de um escritor que não me lembro que falava que toda a morte ficcional precisa fazer sentido, e eu acredito nisso de verdade. Claro, tudo o que acontece na história precisa fazer sentido (a vida não faz sentido, mas a ficção precisa), mas a morte é uma das coisas que mais precisam ser pensadas e usadas com responsabilidade. Porque, se você fez o seu trabalho direito e tem uma obra capaz de transportar seu leitor para dentro daquela mentira e fazer com que ele sinta de verdade, o que vem junto da morte é algo muito pesado. Precisa fazer sentido porque você não pode simplesmente jogar aquilo na pessoa e falar que ‘a vida é assim’. Na vida real, pessoas morrem todos os dias e não existe maneira de arranjar um sentido para isso, mas a ficção serve para, entre outras coisas, nos curar da realidade.

Então, eu acho que sempre devemos ter em mente que, se nosso trabalho for bem feito, vamos fazer as pessoas sentirem. E isso é algo muito poderoso, provocar lágrimas e sorrisos, que deve ser usado com cuidado e responsabilidade.

Não estou pedindo finais felizes. Estou pedindo apenas finais adequados, baseados na avaliação correta da energia contida e da denotação oferecida. (Ray Bradbury)

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