Deixe seu ego do lado de fora ao entrar

Uma das coisas mais importantes que eu aprendi nesse tempo tentando me tornar uma escritora é que você, como escritor, é o que menos importa na hora de contar uma história.

Pode parecer estranho, mas é a mais pura verdade. O que eu quero dizer com isso é que, muitas vezes, nos deixamos levar por desejos e vontades, colocando o nosso ego na frente da história que estamos tentando contar. Uma vez eu vi um roteirista falar que a primeira coisa que um escritor precisa fazer é ‘amar seus personagens mais do que ama a si mesmo’, e eu acredito piamente nisso. Para contar uma história sobre um personagem, é preciso amá-lo mais do que você se ama, ou então acaba caindo na armadilha de ‘contar uma história sobre você contando uma história sobre esse personagem’.

Claro que todo mundo quer ser reconhecido pelo seu trabalho, e todo mundo quer que as pessoas te achem um bom profissional, mas não dá pra ficar pensando nisso na hora de escrever. Você precisa renunciar a si mesmo naquele momento, e pensar só na história e nos personagens (personagens são a história, no meu modo de ver), e o que é bom para eles e o que funciona para eles.

É por isso que eu tenho alguns problemas com textos cheios de floreios e truques. Porque eu consigo ver o escritor tentando aparecer mais que o personagem. Você quer mostrar seu vocabulário, sua habilidade, seu conhecimento, e acaba esquecendo de se perguntar se tudo isso está sendo usado para ajudar a transmitir a história que está tentando contar. Parece idiota e óbvio dizer que todas as palavras que entram (e que saem, especialmente) de um texto devem ser escolhidas de acordo com a função que estão exercendo no objetivo de contar a história daquele personagem, mas é tão fácil se perder.

Eu tento usar técnicas e formas novas algumas vezes, a maioria delas em rascunhos. Brincar com tempos, narrador, palavras, etc. Mas na hora de reescrever e decidir, eu me obrigo a pensar onde é que eu estou ali e o que é que eu estou querendo dizer. Se eu estiver querendo aparecer mais que os personagens, então isso está errado. Eu lembro de ter lido uma vez o Jonathan Franzen dizer que o escritor deve ser invisível, e muita gente comentou sobre isso (assim como comentam tudo que ele fala). O que eu tiro dessa frase é que você precisa se colocar em função da história e não o contrário. É tão fácil perceber quando um personagem fala ou faz algo não por ele mesmo, mas porque aquela ação é conveniente para o autor. É muito fácil, até mesmo para quem não tem um pingo de conhecimento de técnicas narrativas. Simplesmente porque não é autêntico, soa como trapaça, é um truque barato. E aí paramos de nos importar.

Para que as pessoas se importem com um personagem de ficção, eu acredito, o autor precisa se importar primeiro. E, sim, precisa amar cada um dos personagens muito mais do que ama a si mesmo. Colocá-los em primeiro lugar e seguir as suas pegadas, ao invés de desenhar o caminho mais conveniente e, como um ventríloquo, puxar fios para obrigá-los a seguir por ali.

Advertisements
Tagged , , , , , , , ,

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: