Eremitas Unidos

Eu até tentei não comentar nada sobre a entrevista do Raphael Draccon, em que ele basicamente diz que hoje em dias os escritores precisam ser popstars e ter vidas tão interessantes quanto suas obras. Eu não ia comentar porque todo mundo já disse muito sobre isso, mas acontece que passou algum tempo e ainda sinto a necessidade de escrever sobre o assunto.

Eu sou uma escritora e eu sou reclusa. Não gosto de sair muito, me sinto mal, me esgoto, preciso voltar pra casa, fico ansiando no dia anterior e tentando arranjar desculpas pra não ir. A maioria dos meus amigos entende e até acha graça nisso, não insistem e nunca me arrastam para algum lugar cheio de gente que eu não conheço ou algum outro ambiente em que eu vá me sentir mal. Claro, sempre tem aquelas perguntas “por que você não sai mais?”, “mas você vai ficar sozinha?”, “não cansa de ficar em casa?”, mas, enfim, vamos lidando com isso. Eu sei que essa introspecção, reclusão, não é de todo incomum entre escritores. Só pra falar dos mais famosos: Salinger, Pychon, Dickson, Watterston, Harper Lee, Raduan Nassar são alguns dos autores conhecidos por sua escolha pela solidão. Entre as pessoas que eu conheço que escrevem, também encontro esse perfil.

Não acho que é difícil saber o porquê, quer dizer, um escritor é alguém que vive muita parte do seu tempo dentro de sua própria cabeça inventando mundos e pessoas que não existem na vida real. Depois passam isso para o papel, transformando as ideias em textos que precisam ser reescritos diversas vezes até ficarem bons. É algo que leva tempo, e é algo que precisa da solidão. A solidão é um combustível para a escrita. Dizer que um escritor recluso não funciona mais hoje em dia é esquecer que literatura não é o autor, e sim a obra que ele está criando!

Vão existir escritores reclusos enquanto existirem livros, porque é a solidão é parte de todo o processo de escrever um livro. Talvez alguns escritores gostem de conversar pela internet com leitores, talvez gostem de dar palestras, fazer leituras, encontros, mas talvez eles não gostem de nada disso. O que eu quero dizer é que não importa. O que importa é que a obra seja o ator principal nessa história. O escritor não é um popstar, o livro dele é que deve ser. É, de novo, voltar naquela mesma história de que, na maioria das vezes, é preciso deixar o ego na porta antes de entrar.

Muito se fala sobre leitores que julgam os livros pelas capas, mas essa história de editor que julga livro pela personalidade ou impacto da história de vida do escritor me assusta muito mais.

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