2013 em livros – Geral

Terminando minhas listas de livros favoritos de 2013, fiz um apanhado de todas as outras e escolhi os meus 5 favoritos entre todas as categorias. Não foi fácil!

5. Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, David Foster Wallace

Nunca tinha lido nada do David Foster Wallace, apesar de já ter ouvido falar muito sobre ele e lido muita coisa que o Jonathan Franzen escreveu sobre ele. Aí peguei esse livro de ensaios e tomei um susto. Poucos escritores que conheço tem a habilidade de ‘moldar’ as palavras da forma que ele tem, poucos escritores conseguem fazer você enxergar, ouvir, sentir o cheiro, com uma só frase. Uma viagem de barco, lagostas, uma feira agrícola, tudo se torna interessante, divertido, tocante e profundo quando visto pelos olhos de David Foster Wallace. Recomendo mesmo para quem não é muito fã de ensaios, porque o que se encontram aqui são histórias bem contadas. E é tão difícil encontrar isso, ainda que ele faça parecer a coisa mais simples do mundo.

Um Ronald inflável do tamanho de um carro alegórico, sentado e perturbadoramente semelhante a um Buda, reina no lado norte da tenda do McDonald’s. Uma família está tirando uma foto em frente ao Ronald inflável, arrumando as crianças numa pose calculada. Anotação no bloco: Por quê?

4. J.D. Salinger: Uma vida, Kenneth Slawnski

Outra obra que eu recomendaria mesmo para quem não gosta de biografias. Salinger é um dos meus escritores favoritos e eu comecei a ler na intenção de descobrir um pouco mais sobre a história dele, acabou que encontrei um livro extremamente detalhado, analítico e, especialmente, bem escrito. Não consegui largar até terminar, e aquelas partes que normalmente me entediam em biografias (normalmente a parte que não fala dos bastidores da obra da pessoa, mas de coisas corriqueiras), são mostradas de maneira interessante e envolvente. Senti, depois de ler, que conheci muito mais de Salinger e, por consequência, de sua obra.

Seu respeito pelos leitores e sua fé em que iriam sentir a inspiração de sua mensagem haviam uma vez mais salvo sua carreira. Com o mundo à sua volta se distanciando cada vez mais, a própria família se afastando e os amigos minguando, foi o leitor médio que veio em seu auxílio: os observadores de pássaros, os amados leitores silenciosos de Faulkner. Quanto ao resto, a atitude de Salinger era clara: danem-se todos.

3. Murilo Rubião: Obra completa, Murilo Rubião

Brasileiros, esse povo estranho que não lê a própria literatura, deixou passar esse gênio do realismo fantástico. Eu não conhecia Murilo Rubião até esse ano, e o que ele me apresentou junto consigo mesmo foram universos ricos, com um humor triste (se é que isso é possível), e tão fantásticos quanto seu talento como contista. Ele publicou pouco, mas foi o necessário para mostrar que deveria estar no nosso panteão de clássicos junto com Machado, Clarice, Guimarães. O Brasil, incrivelmente, não tem uma tradição de realismo fantástico/maravilhoso como o resto da América Latina, mas esse autor foi um pioneiro do gênero e o que escreveu, mostrou uma originalidade impressionante. Por favor, leiam Murilo Rubião! Leiam Murilo Rubião!

Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E o aplauso dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.

2. 1Q84, Haruki Murakami

É um só romance dividido em três partes, por isso, apesar de ter lido a primeira parte em 2012, estou contando o geral como 2013. Eu adoro o Murakami, sou fã de toda a obra dele, e aqui ele ousou bastante, primeiro por causa do tamanho e também pelo gigante universo, a quantidade de temas e a proporção épica. Normalmente eu sou a favor de cortar e cortar, livros grandes sem necessidade me incomodam, mas aqui funcionou. Ele construiu uma história misturando o fantástico com o japão de 1984, criando em 1Q84 uma mistura de Alice no País das Maravilhas e Orwell com temas relevantes como religião, violência contra a mulher, abuso familiar. Tudo isso sem perder o que faz do Murakami o escritor que ele é. Eu amei. Ansiei por cada um dos volumes e, quando terminei a última página do terceiro, fiquei triste de ter que abandonar aquele lugar, aqueles personagens e aqueles temas que acabaram vivendo comigo por 1 ano e meio. Mas é preciso sair, como disse o próprio Murakami neste livro, antes que se acabe preso para sempre na cidade dos gatos.

Mesmo que contasse, ninguém acreditaria nela. Quando ela falava o que pensava, as pessoas ao redor costumavam repreendê-la, dizendo que ela não sabia distinguir a realidade da imaginação. O modo de ela pensar e de sentir parecia ser bem diferente do de outras pessoas. Ela não conseguia entender o que havia de errado com ela.

1. A Antologia da Literatura Fantástica, Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo

Olhe os nomes dos organizadores dessa antologia. Pois é. Já dá pra ter uma ideia que o que se tem aqui dentro é uma aula do que é, foi e pode ser a literatura fantástica. Desde de contos antigos chineses até clássicos de Cortázar e do próprio Borges, essa antologia foi, sem a menor sombra de dúvida, o melhor livro que li este ano. Listas de livros favoritos são sempre aquela coisa: cada vez que você faz, ela sai diferente; mas aqui eu não tive dúvidas. É extremamente diversa, mas sempre mantendo o nível de qualidade (algo difícil em antologias), além de ser o exemplo perfeito para explicar o porquê da literatura fantástica ser ainda mais real que a realista. Olhando o insólito, o bizarro, o estranho, é que enxergamos o nosso mundo e a nossa época. É através de algo fantástico que conseguimos enxergar de fora e perceber que, no final das contas, o nosso próprio mundo também tem as suas bizarrices inexplicáveis.

Uma mulher está sentada sozinha. Sabe que não há mais ninguém no mundo: todos os outros seres estão mortos. Batem à porta. (Thomas Bailey Aldrich, Sozinha com sua alma)

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