Exercício 1

Estou fazendo junto com um amigo os exercícios de escrita do livro ‘A Arte da Ficção’, do John Gardner. Vou colocar aqui o resultado, mas a maioria ficará só em rascunho e a ideia é fazer trechos e não histórias inteiras, então não sei bem a quem isso vai interessar. De qualquer jeito, serve como motivação.

1. Escreva um parágrafo logo antes da descoberta de um corpo. Você poderá, talvez, descrever como o personagem acercou-se do cadáver que vai encontrar, ou o local, ou as duas coisas. O propósito do exercício é desenvolver a técnica de simultaneamente (1) atrair o leitor para o parágrafo que virá a seguir, dando-lhe o desejo de saltar algumas linhas para ler adiante, e (2) ao mesmo tempo prendendo-o onde está devido à narrativa interessante. Se não houver capacidade de escrever tais parágrafos de foreplay, jamais se aprende a criar um verdeiro suspense.

O corpo inteiro não tinha parado de tremer, mas as mãos continuavam firmes. Pareciam estar descoladas dos braços, concentradas naquela missão apesar de toda a confusão na cabeça e das pernas bambas. A comida congelada na mesa de centro, as almofadas espalhadas pelo chão e a televisão repetindo as mesmas notícias da manhã, da tarde, da noite. O relógio apontava três e pouco madrugada, ele não conseguia ver direito com as luzes apagadas. O coração fazia dum-dum-dum-dum, duas batidas no tempo de uma. Ele sabia o que tinha que fazer: se apoiar nos joelhos, agarrar o sofá e levantar o corpo. Ver quem estava ali, quem não tinha tido nem tempo de se espantar.

O barulho da fechadura sendo aberta com violência, a maçaneta girando, passos molhados. Mas não foi um trovão, foi um tiro. Ele disparou num impulso quando seus medos noturnos tomaram forma naquela visita inesperada na madrugada, ainda bem que tinha a arma perto, sabia que ia precisar mesmo sabendo também que a chance maior era a de que estivesse criando fantasmas. Mas fez barulho ao ser atingido, a bala rasgando a carne. Não era um fantasma porque fez barulho ao cair no chão. Bum. De relance, ele viu o sangue que respingou na parede. Um ladrão? Um psicopata assassino invadindo casas de noite a procura de meninos medrosos e solitários, se enchendo de pizza na frente da TV e tremendo a cada barulho que vinha do lado de fora? Ou então aquela possibilidade que passou pela sua cabeça no momento que os dedos puxaram o gatilho. O pai achou perigoso demais viajar durante a chuva. Podia ser, mas não podia ser.

Ele largou a arma no sofá, afastando-a de seus dedos na intenção de se convencer de que ela nunca esteve agarra a eles. Tentando parar aqueles tremores involuntários, ele se apoiou no sofá e ergueu o corpo. Engoliu seco, fundo, doído. E ele viu.

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2 thoughts on “Exercício 1

  1. Juliana says:

    GABI! Conserta aí:

    “que os dedos puxaram o gatinho”

    Quando li “gatinho” eu ri e perdeu o clima HUAUHAHUAHUAUHAUHAUHA XD

    (tbm tem “agarra a eles”, mas depois do gatinho nem teve tanto impacto XD)

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