Carta de um amado ansioso

Ansiedade é uma porcaria. Eu tenho enfrentado um dos distúrbios causados por ela há mais de 5 anos e cada vez que eu acho que andei uma boa distância em direção ao meu bem estar, acabo dando alguns passos para trás logo em seguida. É um processo difícil, lento e doloroso, esse de viver com um distúrbio de ansiedade. Eu decidi falar mais sobre isso aqui porque escrever sempre foi algo que usei para me entender e me curar, mas expor esse tipo de coisa é complicado porque existe aquele maldito estigma grudado em qualquer distúrbio mental. Você é louco, você não se esforça o bastante, você escolheu ficar assim, você só quer chamar atenção. Muita, muita besteira que ninguém falaria para alguém que tivesse um problema em qualquer outra parte do corpo, mas como é na mente, as pessoas acham que não existe de verdade.

Esse tópico, aliás, é algo que me interessa muito porque a reação das pessoas que não sofrem e nunca sofreram com um transtorno mental é um dos fatores que impede ou atrasa o tratamento das pessoas que estão claramente precisando de ajuda. Mas ninguém quer ser o louco, ninguém quer ouvir que é ‘frescura’ e que ‘você está nesse estado porque não tem força de vontade’.

Eu sofro de transtorno de ansiedade generalizada, que é basicamente uma ansiedade patológica crônica. Não é o que você sente antes de uma prova decisiva ou uma entrevista de emprego, é umas mil vezes pior que isso. É paralisante, como se as menores coisas da vida (conversar com alguém, dar um telefone, ir até algum lugar, mandar um e-mail) fossem todas batalhas horríveis que só de pensar já te amputam dos braços e pernas, troncos. Você vira só um par de pulmões que mal funcionam (ansiedade dá falta de ar constante), um coração amarrado numa bomba que parece próxima de explodir e uma cabeça sendo apertada por uma chave de fenda feita com tudo o que vai, pode e poderia acontecer na sua vida. Ou algo assim.

É difícil de explicar pra quem nunca experimentou algo assim (e eu realmente não desejo isso pra ninguém). Encontrei uma carta-modelo escrita pelo psicólogo Shawn T. Smith, do ponto de vista de alguém como eu, que sofre de algum transtorno de ansiedade, para seus familiares e amigos. Fiz uma tradução livre porque achei que seria um bom começo para esses textos que pretendo escrever sobre o assunto:

Queridos familiares, amigos, amados

Você sabe que eu tenho sofrido de ansiedade já faz algum tempo. Você sabe sabe disso porque já me viu entrar em crises de preocupação ou pânico. Eu sei que a minha ansiedade faz com que eu não dê a atenção devida ao nosso relacionamento e que, mais cedo ou mais tarde, meu comportamento vai começar a te incomodar. Eu também sei que você se preocupa comigo. Ninguém quer ver alguém que gosta sofrer. Eu tento esconder o meu sofrimento, mas eu sei que você vê.

Tentando me ajudar, você sempre me fala para relaxar, me acalmar, parar de me preocupar, respirar fundo, etc. Saiba que o que eu vou falar agora é com total consciência e apreciação dos seus motivos: pare. Me dizer que devo me acalmar não está ajudando. Na verdade, faz piorar tudo.

Vamos reconhecer o óbvio: se eu pudesse parar a minha ansiedade, já o teria feito. Pode ser difícil para entender porque provavelmente parece que eu escolhi me preocupar e entrar em pânico. Eu não escolhi. No meu mundo, fazer essas coisas simplesmente um pouco menos doloroso do que não fazer. É difícil explicar, mas a ansiedade coloca a pessoa nessa posição.

Eu sei que você quer me ver livre da ansiedade, então vou te dizer o que você pode fazer: quando eu estou no meio de uma crise, me imagine na areia movediça. Quanto mais a pessoa luta contra a areia movediça, mais ela fica presa lá dentro. Ansiedade pode ser assim. Às vezes, quanto mais eu tenho escapar, mais ela piora. Dizer que eu devo relaxar é dizer para que a pessoa na areia movediça deve se mexer mais. Apesar das intenções, não funciona.

Minha ansiedade é algo que dá vergonha, e eu odeio que você tenha que lidar com isso. Mas eu sei que você quer me ajudar, então quando me encontrar no meio de uma crise, me diga que você reconhece o meu sofrimento mesmo que não consiga entendê-lo. Me diga que você sabe que vai passar e que você vai estar ali comigo. Mais que tudo, saiba que você não é responsável por fazer a minha ansiedade ir embora.

A ironia nessa situação é que a minha ansiedade claramente te faz ficar desconfortável e o que eu queria mesmo é pedir que você simplesmente não se preocupasse com a minha ansiedade. Eu queria que isso não te afetasse. Mas eu sei que você não consegue evitar sua reação, assim como eu não consigo evitar minha ansiedade. Parece que nós teremos que trabalhar nisso juntos.

Eu prometo que lidarei com a minha ansiedade da melhor forma que puder. Tudo o que eu peço em retorno é que você saiba que não é seu trabalho me salvar disso tudo.

Sinceramente,

Seu amado ansioso

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