O (não) profeta cibernético

Escritor visionário, tudo bem. Profeta, não é verdade. Uma das coisas que me fez gostar do Bruce Sterling imediatamente quando o conheci, em 1991, foi que ele disse logo que nos cumprimentamos: “Nós temos um ótimo emprego! Somos charlatões e ainda somos pagos por isso. Inventamos um monte de merda e as pessoas acreditam.”

Um dos meus autores favoritos de todos os tempos é o William Gibson. Como a maioria das pessoas, imagino, o primeiro livro dele que li foi o clássico Neuromancer, numa época em que eu estava muito interessada em ficção científica e os temas tratados por ele me interessaram bastante. Mas eu era bem nova e enfrentar aquele romance foi quase uma luta, porque quem já leu Gibson (especialmente os primeiros trabalhos dele) sabe que não é a leitura mais confortável do mundo e, ao contrário de muitos autores de sci-fi (e mesmo fantasia), ele não te explica coisa alguma: joga você dentro de um mundo um universo novo e extremamente complexo, e espera que você se segure como puder.

Como já disse muitas vezes, o futuro já está aqui. Só não foi bem distribuído.

Se você assistiu Matrix (e eu acho que todo mundo assistiu), imagine que o primeiro filme da trilogia é uma espécie de versão infanto-juvenil simplificada e ‘hollywoodzada’ de Neuromancer. Existe o hacker deprimido, a mulher de ação, o chefe misterioso, a Matrix (além de muitos outros elementos, que inclusive levaram muitas pessoas a chamar Matrix de plágio), o ciberespaço. Mas lá na época em que o Gibson publicou o livro (1984), não existia nada parecido com isso, nem mesmo a palavra ‘cyberspace’, já que ela foi inventada pelo próprio William Gibson em seu livro e, depois, usada no ‘mundo real’ quando a internet foi criada. E essa foi a primeira, mas não seria  a única vez que a obra de Gibson influenciaria a tecnologia e sociedade, por isso ele ganhou o apelido de ‘profeta’, ainda que o próprio não concorde com o título (disse que, se pudesse mesmo prever o futuro, teria colocado celulares no Neuromancer).

É claro que a ‘internet’ (matrix, ciberespaço) do Gibson é bem mais legal que a nossa: uma alucinação coletiva digital, uma espécie de sonho artificial sonhado por toda a humanidade. Ser mais legal que a realidade influenciada por ele acabou virando uma tendência para o Gibson. Ídolos virtuais, realidades digitais, vídeos de autores anônimos se tornando virais, tudo isso e mais um monte de coisas estavam na ficção dele antes de estarem na nossa vida. Outros elementos Gibson viu antes de todo mundo, foi o crescimento do poder das empresas privadas sobre os governos, a relação de dependência e fetiche que as pessoas acabariam tendo com objetos tecnológicos e as explosão de transtornos mentais relacionados ao estresse da vida urbana. Então é, ele pode não ter previsto o celular, mas é impossível negar que existe na cabeça do William Gibson alguma habilidade acima do normal para juntar elementos do presente que ninguém mais percebe, fazer ligações e descobrir (ou inventar) o que vem a seguir.

Eu não começo um romance com uma lista de compras – o romance se torna a minha lista de compras conforme o escrevo. É como aquela piada sobre o fazedor de violinos que foi questionado como ele fazia o instrumento e respondeu que ele começava com um pedaço de madeira e ia removendo tudo o que não era um violino. É isso que eu faço quando estou escrevendo um romance, exceto que, de alguma forma, estou simultaneamente gerando a madeira enquanto a talho.

Ele começou como um escritor de sci-fi, é o pai do subgênero cyberpunk, mas hoje em dia seus trabalhos não se encaixam mais nessa categoria porque, segundo o próprio, não precisa escrever sobre o futuro já que ele foi alcançado. O mais interessante nessa transição é que os traços de escritor de ficção científica continuam mesmo quando Gibson fala sobre o nosso tempo, então um e-mail ou um iPhone acabam ganhando outras cores, porque são vistos e apresentados para nós por essa visão cyber (e não mais punk). Acho que essa capacidade de se renovar como escritor e continuar tendo uma visão única é o que mantém a sua obra relevante enquanto boa parte de seus companheiros de movimento desapareceram ou escrevem trabalhos que soam um tanto datados. Eu acho, aliás, que ‘datado’ nunca poderá ser uma palavra ligada ao William Gibson, ele é o tipo de escritor que, quando você não entende do que ele fala, pode ter certeza que é porque aquilo não é a linguagem de hoje, mas a do amanhã.

Obras publicadas por aqui:

Sprawl Trilogy: Neuromancer, Count Zero, Mona Lisa Overdrive

Bigend Books: Reconhecimento de Padrões, Território Fantasma, História Zero (esse último ainda não foi, mas deve sair em breve)

Idoru, segunda parte da Bridge Trilogy (sim, publicaram a segunda parte sem ter lançado a primeira ou a terceira)

A Máquina Diferencial, livro que inventou o Steampunk, escrito em parceria com o Bruce Sterling.

Outro livro bacana para quem se interessa pela obra do Gibson é A construção do imaginário cyber – William Gibson, criador da cibercultura, onde o autor Fábio Fernandes não só discute a obra do Gibson, mas também toda a influência que ela exerce na nossa sociedade.

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