Uma gota e o mar

Uma grande explosão separou o mar em gotas de todos os tamanhos e formas. Aparentemente não existia jeito de voltar ao estado original e, por isso, as gotas acabaram se acostumando com aquela sua nova forma de estar, mesmo não sendo nem uma sombra o que eram antes.

Com o passar do tempo, as gotas foram esquecendo que eram o mar e adotando seus novos contornos como se fossem seu estado original. Cada uma delas se agarrou naquele seu novo-eu como se dependesse completamente daquilo. Já não se lembravam do mar e aquele eu, que não passava de uma ilusão provocada pela explosão, era tudo o que elas conheciam. O que começou como uma máscara foi aceito; mais, foi celebrado como um rosto de verdade.

A maioria das gotas, quando chegou a esse estágio, desenvolveu um profundo medo de perder a sua forma, porque achavam que se isso acontecesse, iriam perder a si mesmas: “O que vai ser de mim se eu não for mais redondinha em baixo e só uma pontinha fininha encima?”. Mas por mais que elas temessem, isso acabava acontecendo. Não faço ideia de quanto tempo uma gota se mantém no mesmo formato mas, eventualmente, ela acaba se espatifando e perdendo a silhueta que trazia conforto e segurança. Por isso, as gotas tentavam se manter como eram o máximo de tempo que podiam. Elas acreditavam que, do contrário, encontrariam seu fim.

Mas antes que elas vazassem para fora de suas linhas, as gotas questionavam a si mesmas: “De onde eu vim? Para onde eu vou? Quem sou eu? Por que estou aqui?”, e acabavam se lembrando de quando eram o mar. E, então, elas percebiam que ainda eram o mar. Uma gota no meio do oceano não é uma gota, é o próprio mar. Aí elas não tiveram mais medo de perder seu formato. Se deram conta de que ele era somente uma máscara e que por trás de todas aqueles diferentes contornos – daqueles muitos eu-ilusão- , estava um eu-real, e que este não podia ser espatifado, se perder ou desaparecer.

As gotas entenderam que elas eram o mar e que o mar era elas, qualquer que fosse sua aparência, e isso era o real e isso era algo que nunca poderia ser mudado. Mesmo com seus formatos particulares, elas ainda eram o mar e, quando não os tivessem mais, elas continuariam sendo o mar.

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