Moppa

Transparent é o seriado que mais me surpreendeu positivamente desde Orange is the New Black. Eu vi o piloto há um ou duas semanas, estava disponível de graça na Amazon, e fiquei salivando pelo resto da temporada. Finalmente, os episódios começaram a surgir ontem na interwebs e, entre a noite de anteontem e o começo da tarde de ontem, assisti todos os 10 episódios de 30 minutos cada.

Realmente, como a criadora disse, parece um filme de 5 horas. Acho que essa é uma das mudanças narrativas que séries exclusivas para streaming estão começando a assimilar. Acho que ninguém ainda tem ideia onde isso vai chegar, mas entre a ousadia da quarta temporada de Arrested Development e a descoberta de como o fato das pessoas assistirem tudo de uma vez influenciam na narrativa do seriado (Orange is the New Black, especialmente na segunda temporada), é possível afirmar que estamos vendo uma transformação acontecer. Isso é ótimo para contadores de história, especialmente porque serve como um ponto de partida para descobrir novas formas e jeitos de apresentar aquela história ao receptor.

Transparent é mesmo uma enorme história de 5 horas, dividida em 10 episódios de 30 minutos, sobre uma família não muito convencional mas que, ao mesmo tempo e de maneira brilhante, soa comum e extremamente real. Eles não são uma família que se encontra em todas as esquinas, mas ao mesmo são. Porque todas as famílias tem suas idiossincrasias e todas as famílias são tediosamente parecidas.

O personagem central da família  Pfefferman é Maura, que nasceu e cresceu Mort e só teve coragem para se assumir como mulher trans depois de idosa. O drama dessa personagem começa quando ela decide contar isso para seus três filhos: Sarah, Josh e Ali. Maura, os três filhos e mais sua ex-esposa, Shelly, são todos incrivelmente reais da melhor e pior forma possível. O desenvolvimento dos personagens aliás, me lembrou um pouco a forma com que Jonathan Franzen trata seus próprios personagens: eles são gostáveis e deploráveis ao mesmo tempo, você sente raiva e nojo uma hora e depois se identifica em outra, e se assusta porque eles continuam sendo pessoas longe de perfeitas que fazem escolhas ruins que levam ao sofrimento deles mesmos e daqueles ao seu redor. Mas você ainda se identifica, ainda consegue entender os motivos, ainda enxerga humanidade e ainda torce para que eles consigam se ajustar.

Acho que esse realismo e a complexidade dos personagens nos fazem sentir mais por eles, seja raiva quando fazem alguma merda ou alegria quando eles finalmente conseguem algo de bom (e tristeza quando, inevitavelmente, perdem). Quando Sarah defende Maura de agressões verbais no banheiro de um shopping, eu fiquei tão feliz. Quando todos os filhos abandonam Maura em um dos momentos mais cruciais de sua nova vida, eu chorei. “Como eu pude criar três pessoas tão egoístas?”, Maura se pergunta no primeiro episódio. E essa pergunta flutua sobre todos os episódios, não só em relação aos três filhos, mas também aos seus pais. Nenhum deles é perfeito, e as falhas de um acabam influenciando nos problemas dos outros. Mas, ao mesmo tempo, as boas ações de cada um fazem parte da construção da felicidade dos outros.

Não existe família perfeita, porque não existem pessoas perfeitas. E talvez os  Pfefferman sejam um tantinho menos habituais que o comum, mas a beleza do seriado é deixar muito claro que essas diferenças podem ser muito mais naturais que as semelhanças. E que uma família perfeita não é aquela que tem todas as peças no lugar, mas sim aquela que, não importa o quão longe cada um vá, sempre vai se lembrar do caminho de volta e ser recebido de braços e cabeça aberta.

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