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Eu queria crescer pra passarinho

Hoje eu acordei num mundo mais triste porque Manoel de Barros não estava mais nele.

É difícil pra mim falar sobre esse poeta, porque, ao mesmo tempo em que nunca o vi pessoalmente e que ele nem mesmo sabia que eu existia, desde que conheci sua obra ele tem sido parte da minha vida e de quem eu sou. Ele me ensinou que palavras são brinquedos, e que você tem que ser livre para encaixá-las da forma que quiser. Ele me ensinou que até um grão de areia quase invisível na palma da sua mão é do tamanho do mundo. Ele me ensinou que inventar não é mentir. Que, muitas vezes, a invenção é mais verdade que a realidade. Porque uma história vinda de um sentimento verdadeiro é real, ainda que nunca tenha acontecido. Ele me ensinou muitas coisas, e eu serei grata para sempre.

A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.

Eu gosto de muitos escritores. MUITOS mesmo. E, entre estes, alguns foram essenciais na minha formação. Dentro deste grupo menor, estão aqueles que me fizeram querer escrever. Manoel de Barros foi um desses. Eu disse outro dia que se literatura fosse a minha religião (e é o mais próximo que tenho disso), Manoel de Barros seria o meu Papa. É por causa do trabalho dele que eu tento escrever cada dia melhor. É porque, um dia, eu espero tocar alguém tão profundamente quanto ele me tocou. Porque é para isso que serve a arte, para encontrar todas as verdades que existem dentro de nós e transformar em algo perceptível pelos sentidos, numa tentativa de fazer com que outras pessoas também descubram aquilo que não tem forma, cor, cheiro, mas que nos levou a fazer aquele trabalho em primeiro lugar. E, aí, mesmo que nunca essas duas pessoas nunca tenham se encontrado, elas estarão ligadas para sempre.

Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias ( do mundo e as nossas ).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco pra elogios.

O que perdemos hoje não foi é um escritor, um poeta, um artista. O mundo perdeu uma parte de sua infância. Eu perdi uma parte da minha infância. Manoel queria ser lembrado como um ser abençoado pela inocência, e assim será. Viveu 97 anos e só teve infância, sua poesia nunca conheceu a juventude, a idade adulta ou a velhice.

Eu vou tentar, Manoel, ser como você e, para sempre manter viva a maravilha da infância. Porque quando eu acordei hoje, vi um mundo mais adulto. E eu não gostei. Todas as coisas estavam no lugar e todas as palavras faziam o que lhes era definido pelo dicionário. Eu não quero um mundo assim. Eu quero envelhecer e ficar criança. Eu quero crescer pra passarinho.

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