Digestório Real

Um texto escrito bem rápido (quase um rascunho, na verdade) para um curso de escrita criativa que fiz. A proposta era pegar uma expressão popular absurda e transformar em algo literal. Eu escolhi ‘com o rei na barriga’.

Eles esperaram por algum tempo, estavam cada de um lado da porta: o cabeludo na esquerda e o azul na direita. Os dois torciam com os dedos cruzados para o plano dar certo.

Além da ansiedade de aguardar, a situação era ainda pior porque sabiam que, se não voltassem para casa com a missão bem-sucedida, suas cabeças iriam parar num espeto. Ou talvez não, uma vez que o sucesso da missão é que garantiria a presença de quem poderia dar tal ordem. Mas não tiveram tempo para pensar muito nisso porque o momento que esperavam finalmente chegou. Viram uma pessoa se mexer dentro da sala, colocando a bolsa no ombro e se preparando para sair. A luz foi apagada e, antes mesmo de um pé inteiro atravessar a porta, o azul e o cabeludo o agarraram bem como tinham ensaiado. Enquanto o cabeludo tapou a boca e segurou os braços do alvo, o azul espetou uma injeção no pescoço e esperou os olhos do indivíduo se fecharem e o corpo cair desacordado.

O azul foi logo puxando alvo caído pelos ombros para dentro da sala, pediu ajuda para o cabeludo, que tinha ficado um pouco confuso com a cena toda. Deitaram o corpo no chão, era mais pesado do que tinham imaginado. O azul desgrudou de seu cinto um aparelho de ultrassom portátil, enquanto o cabeludo levantou a camiseta do alvo.

Enquanto passavam o aparelho na barriga inchada e exposta, os dois olharam com muita atenção para a pequena tela, torcendo para as denúncias fossem verdadeiras e aquele ser o glutão certo. E era. Ou pelo menos parecia ser por conta de uma massa desconhecida ali dentro, mas não teriam certeza até abrir.

O azul deixou de lado a máquina de ultrassom e puxou do cinto uma pequena faca prateada, olhou para o cabeludo, que estava ficando verde, e percebeu que era ia ter que fazer aquilo sozinho. Cortou a primeira camada de pele e disse que, se o cabeludo não queria ajudar, pelo menos segurasse o tubo de sucção para limpar o caminho.

Mais alguns cortes e o azul largou sua faca e tratou de usar as mãos para separar as duas partes da barriga cortada, mandando o cabeludo ser útil e enfiar os braços lá dentro logo de uma vez. O cabeludo virou o rosto, fechou os olhos e fez o que foi mandado, agarrando algo escondido bem no  fundo e puxando para fora junto com sangue e pedaços de órgãos.

O que trouxe para o mundo foi uma criatura disforme e coberta de vermelho dos pés até a cabeça, com tripas escorrendo por todo o corpo. Mas, mesmo naquele estado, os dois conseguiram reconhecer quem estava ali. Se ajoelharam e abaixaram a cabeça numa reverência:

“Majestade!”

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