Algumas frases de alguns livros

Hoje, do nada, eu resolvi entrar em um antigo blog meu e dar uma olhada no que eu escrevi faz séculos. Acabou que encontrei algumas coisas muito legais, como aquele antigo hábito que eu tinha de ir anotando e postando as minhas frases e momentos favoritos dos livros que estava lendo.

Acho que vou voltar a fazer isso, porque relendo as partes que selecionei, acabei revivendo alguns sentimos que tive ao ler os livros. Mas, enquanto não faço isso com os livros que estou lendo no momento, coloco as frases guardadas no blog antigo neste aqui, pra ficar mais fácil de encontrá-las.

Uma nação consiste em suas leis. Uma nação não consiste em sua situação num dado momento. Se a moral de um indivíduo é uma moral situacional, este indivíduo não possui uma moral. Se as leis de uma nação são leis situacionais, essa nação não possui leis, e dentro em pouco deixará de ser uma nação. (…) Será que vocês estão tão apavorados com os terroristas que estão dispostos a destruir as estruturas que fizeram da América o que ela é? (…) Se for assim, estarão permitindo que os terroristas vençam. Porque esse é exatamente o seu objetivo, seu único e específico objetivo: amedrontar vocês até fazê-los abrir mão de suas leis. É por isto que são chamados terroristas. Eles usam ameaças aterrorizantes para fazer com que vocês degradem sua própria sociedade. (…) E tudo se baseia no mesmo defeito da psicologia humana que faz as pessoas acreditarem que podem ganhar na loteria. Estatisticamente, quase ninguém ganha na loteria. Estatisticamente, ataques terroristas quase nunca acontecem. — William Gibson,Território Fantasma

Então me ocorreu que, apesar de sermos companheiras de viagem maravilhosas, no fundo, não passávamos de duas massas solitárias de metal em suas próprias órbitas separadas. A distância, parecem belas estrelas cadentes, mas, na realidade, não passam de prisões, em que cada uma de nós está trancada, sozinha, indo a lugar nenhum. Quando a órbita desses dois satélites se cruzam, acidentalmente, podemos estar juntas. (…) Mas só por um breve momento. No instante seguinte, estaremos na solidão absoluta. Até nos queimarmos completamente e nos tornarmos nada. — Haruki Murakami, Minha Querida Sputnik

Como é sabido, a vida apresenta uma série de problemas, dos quais os mais importantes são, entre outros, Por que as pessoas nascem? Por que elas morrem? Por que elas passam uma grande parte do tempo entre o nascimento e a morte usando relógios digitais? — Douglas Adams, O Guia do Mochileiro das Galaxias

Uma boa história faz a gente achar que viveu uma experiência completa e satisfatória. Pode-se rir ou chorar com uma história. Ou fazer as duas coisas. Terminamos uma história com a sensação de que aprendemos alguma coisa sobre a vida ou sobre nós mesmos. Pode ser que tenhamos adquirido uma nova compreensão das coisas, um novo modelo de personagem ou atitude. — Christopher Vogler, A Jornada do Escritor

Nós, escritores, de certa forma, compartilhamos esse poder divido dos xamãs. Não apenas viajamos para outros mundos, mas os criamos, em outro tempo e espaço. Quando escrevemos, realmente viajamos a esses mundos de nossa imaginação. Qualquer pessoa que tenha tentado escrever a sério sabe que é por isso que precisamos de solidão e concentração. Na verdade, estamos viajando a outro tempo, outro lugar.
Como escritores, essas viagens não são apenas um ato de sonharmos acordados, e sim o de viajarmos como xamãs, com o poder mágico de engarrafar esses mundos e os trazermos de volta, sob a forma de histórias, para compartilhar com os outros. Nossas histórias também têm o poder de curar, de fechar feridas, de fazer o mundo ficar novo outra vez e de oferecer às pessoas metáforas através das quais elas podem compreender melhor a si mesmas e as suas vidas.
Quando nós, escritores, empregamos essas ferramentas antigas dos arquétipos e da Jornada do Herói, estamos nos apoiando, de pé, sobre os ombros dos criadores dos mitos e dos xamãs de antigamente. Quando tentamos curar nosso povo através da sabedoria do mito, somos xamãs modernos. Fazemos as mesmas perguntas que não têm idade, perguntas primordiais e infantis, que os mitos levantam: Quem sou eu? De onde eu vim? O que acontece quando eu morrer? O que isso significa? Onde é que eu me encaixo? Para onde estou indo em minha Jornada do Herói?  — Christopher Vogler, A Jornada do Escritor

Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que não há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gosto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro!, o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existem o tempo, os homens, as dimensões, não haverá espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, mas ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo. — Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem

Eu era um garoto esquisito e solitário, e Winkie parecia entender isso. Porque ele também parecia esquisito e solitário. — Clifford Chase, Winkie

Era uma vez um urso triste e completamente sozinho. Ele vivia numa jaula, e se lembrava de tudo. Fim. — Clifford Chase, Winkie

com a morte, também o amor devia acabar. ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhes os braços e as pernas, vamos levar-lhes os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante. — valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis

não foi culpa do padre, nem da igreja, nem de deus. foi só o triste acaso de sermos miseráveis num país de miséria que não esperava de nós mais do que o brio e o sacrifício mudo. — valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis

quem acreditaria em mim agora quando eu dissesse que ali viveu verdadeiramente o esteves sem metafísica da tabacaria do álvaro de campos do fernando pessoa. que não acharia que eu enlouquecera, se nenhum livro comprovara a existência de tal homem. como se provaria isso que para nós estava provado pela espontaneidade e vivacidade de seu discurso. como se perderiam os pormenores, as passagens mínimas que compunham a história bem contada daquele episódio com o poeta. ficávamos pobres de fantasia, perdia-se o elemento da efabulação maior do feliz idade. a partir de então seríamos ainda mais velhos a entrar na senilidade, uns babões sem interesse nem valor especial. apenas um amontoado de ossos moles que ia aquentando o tempo sem nenhuma glória particular. o doutor bernardo pôs a mão no meu ombro e sentei-me. cairia das pernas se não o fizesse. — valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis

A pausa faz você achar que a música vai terminar. E aí, quando a música na verdade não termina, você fica aliviado. Mas depois a música termina mesmo, porque toda música termina, é claro, e DESSA. VEZ. O. FIM. É. PRA. VALER. — Jennifer Egan, A Visita Cruel do Tempo

Em sinal de protesto devíamos todos simplesmente morrer. “Morreríamos se adiantasse”, você disse, lembra? Eu sei, ninguém daria a mínima. Arrancaríamos o coração do peito, olha aqui o meu sangue, olha aqui o meu coração! Mas tem um tipo ao lado engraxando os sapatos, que cor de graxa o cavalheiro prefere? — Lygia Fagundes Telles, As Meninas

era um menino muito novo com tanto de familiar, era como se tivesse coisas das pessoas que eu conhecia. — valter hugo mãe, o nosso reino

As estações mudavam e voltavam outra vez; ele nunca fez a coisa que os animais mais gostam de fazer. Seu pelo escureceu. Algo em seu estômago lhe causava uma dor constante. Moscas o atormentavam em ciclos. Só mais uma ou duas vezes ele viu outro animal como ele; e, sem nunca brigar, nem cruzar, nem interagir com sua própria espécie de forma nenhuma, ele quase deixou de ter uma natureza. Tornou-se um indivíduo vivendo num mundo que consistia unicamente em suas compusões e aflições, que eram como mágoas, e no prazeroso exercício de suas habilidades. O único rosto de verdade que ele via era o seu próprio, quando passava pela água escura – não quando lavava algum alimento, porque nessas horas, embora ficasse olhando para o alimento em suas patas agitadas e para os arbustos e as peças de carro a sua volta, sua compulsão o deixava cego -, mas quando a chuva tinha enchido uma vala ao longo da ferrovia e, ao parar para atravessá-la, ele via uma cabeça peluda e mascarada descer do céu urbano com uma lentidão atenta e cautelosa para encostar o nariz no dele, como um sonho da namorada que ele nunca tevele, e então o tempo se dobrava em si mesmo, os padrões repetitivos de sua existência se alinhando como múltiplos reflexos de um mesmo objeto acabam se juntando, de modo que em vez de uma sucessão de dias havia apenas um dia que era toda a sua vida, na verdade, um único momento: aquele. — Jonathan Franzen, Tremor

Talvez você queira objetar: Por acaso a inteligência artificial é capaz de ler um livro com compreensão? Ela é capaz de pintar um quadro genuinamente original ou compor uma sinfonia? É capaz de distinguir fatos de meras imagens e tomar decisões políticas responsáveis com base nessa distinção?
O sistema salienta que o programa simula a inteligência do americano médio na década de 1990.
Você pode argumentar ainda que nenhuma máquina, por mais sofisticada que seja, será jamais capaz de sentir subjetivamente a cor azul ou saborear o gosto de canela ou ter consciência de si enquanto pensa.
O sistema considera isso uma perigosa irrelevância. Pois, a partir do momento em que você permite que a subjetividade entre numa discussão lógica, a partir do momento em que você confere realidade a fenômenos que jamais poderão ser verificados por uma máquina ou uma reação química, a partir do momento em que você diz que interpretação subjetiva que uma pessoa dá a moléculas de canela como Ah! Canela! tem uma significação, você abre uma caixa de bandora. Quando você der por si, a pessoa vai estar lhe dizendo que ela interpreta o silêncio no cume de uma montanha como Ah! Existe uma presença eterna ao meu redor, e a escuridão no quarto dela no meio da noite como Ah! Eu tenho uma alma que transcende sua clausura física; e é por aí que se chega à loucura. — Jonathan Franzen, Tremor

Renée sabia que, se simplesmente desistisse de sua busca por uma vida perfeita, se assentasse a cabeça e aceitasse ter filhos como a mãe tivera na idade dela, ela também poderia conquistar certo grau de contentamento e de esquecimento. Mas não havia ninguém que quisesse casar com ela e, de qualquer forma, ela odiava gente obcecada pelos pais. Uma família era uma arapuca para quem estava nela, um tédio para quem estava fora dela. Ela odiava a palavra “obcecado”. Odiava gente que odiava tanta coisa como ela odiava. Odiava a vida que a fazia odiar tanta coisa. Mas não se odiava por completo ainda. — Jonathan Franzen, Tremor

A leitora mais fiel do jornal, Ornella de Monterecchi, foi até lá para exigir que não o fechassem. Mas chegou tarde. O porteiro ainda lhe fez a gentileza de deixá-la entrar na sala abandonada. Ele acendeu as luzes fluorescentes, que piscaram, e permitiu que ela permbulasse por lá.
O ambiente estava fantasmagórico: mesas e fios largados, levando a lugar nenhum, impressoras quebradas, cadeiras de escritório tortas. Ornella percorreu com hesitação o tapete imundo e parou no copidesque, ainda cheio de folhas diagramadas manchadas e edições antigas. Aquela sala, a certa altura, continha o mundo inteiro. Agora, só tinha lixo.
O jornal – aquele relatório diário da estupidez e genialidade da espécie – nunca antes deixara de sair. Agora, sumira do mapa. — Tom Rachman, Os Imperfeccionistas

Toda família adora ter à mão uma pessoa que fez tantas merdas inacreditáveis que todos os outros se sentem cidadãos exemplares em comparação com ela. 

— Jennifer Egan, O Torreão

Assim que ela supera o choque e começa a entrar numa rotina, começa a olhar ao seu redor; observando as outras senhoras que cortam peixe, e percebe que as coisas são assim para cerca de 99 por cento das pessoas do mundo. Você está neste lugar: Há outras pessoas ao seu redor; mas elas não entendem você e você não as entende, mas as pessoas falam muitas bobagens sem sentido mesmo. Para continuar viva, você precisa passar o dia inteiro todo dia fazendo um trabalho imbecil e sem sentido. E a única maneira de sair dele é desistir; sair fora, se mandar; e sair para o mundo louco, onde você será engolida e nunca mais ouvirão falar de você novamente. — Neal Stephenson, Nevasca

Todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mãe, e a solidão é a sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e gere um cuidado mutuo. — Valter Hugo Mãe, O filho de mil homens

É como as pessoas que acreditam que serão mais felizes se mudarem para outro lugar, mas logo percebem que não é assim que funciona. Para onde quer que você vá, leva a si mesmo. — Neil Gaiman, O livro do cemitério

A silhueta de um gato em movimento cortou o luar e, ao virar-me para vê-lo, percebi que não estava sozinho – a uns quinze metros dali, uma figura emergiu da sombra da mansão vizinha e ficou de pé com as mãos no bolsos, observando a poeira prateada das estrelas. Algo em seus movimentos calculados e na postura firme de seus pés sobre a grama me revelou que era o sr. Gatsby em pessoa, tentando determinar que porção do nosso céu local lhe pertencia. — F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby

Meu pai dizia sempre, das pessoas que desgostava, que não tinha uso para aquela pessoa. Será que essas palavras poderiam simplesmente significar exatamente o que dizem? Penelope não tem uso para mim. — Alice Munro, Silêncio

Com que então é esta dor da perda. Ela se sente como se um saco de cimento tivesse sido despejado dentro dela, endurecendo muito depressa. Mal consegue se mover. Subir no ônibus, descer do ônibus, caminhar meio quarteirão até o prédio onde moda (por que afinal mora ali?), é como escalar um penhasco vertical. — Alice Munro, Silêncio

Porque enquanto amamos, estamos em busca de algo que nos falta. E por isso ficamos sempre tristes ao pensar na pessoa amada, alguns um pouco mais, outros, um pouco menos. Temos a mesma sensação de quando pomos os pés num quarto que perdemos num passado distante, repleto de lembranças saudosas. É mais que natural. — Haruki Murakami, Kafka à beira-mar

Ficou ali, diante do espelho, e teve medo. Era o verão do medo para Frankie, e havia medo que podia ser calculado aritmeticamente, com papel e um lápis, na mesa. Naquele agosto, estava com doze anos e dez meses de idade. Tinha um metro e sessenta e seis e usava sapatos tamanho trinta e sete. Ano passo, crescera dez centímetros, pelo menos era o que calculava. Já as detestáveis criancinhas do verão gritavam-lhe: “Eu, está fazendo frio aí em cima?”. E os comentários dos adultos faziam Frankie gelar, da cabeça aos pés. Mesmo que parasse de crescer aos dezoito anos, ainda teria pela frente cinco anos e dois meses de crescimento. Portanto, de acordo com a matemática, a não ser que, de alguma maneira, conseguisse parar, cresceria até ficar com mais de dois metros e setenta de altura. E o que seria uma mulher com mais de dois metros de altura? Um monstro. — Carson McCullers, A convidada do casamento

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