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O Camp X e suas cinco armas secretas

Mais da série de indicações, dessa vez ‘você deveria estar assistindo X Company‘.

Seriado canadense baseado na história real do Camp X, um campo de treinamento de espiões no Canadá, durante a Segunda Guerra Mundial. A história se passa antes de toda a romantização dos espiões, antes do James Bond, então eu meio que me surpreendi bastante já no primeiro episódio com a fragilidade dos personagens. Aliás, o que me conquistou logo de cara foi isso: os personagens são apresentados, nos posters, como ‘armas secretas’ dos aliados para ganhar a guerra, mas quando você assiste o seriado, percebe que o que o conceito que os criadores tinham em mente quando fizeram a série é mais complexo que isso.

Um pouquinho mais: existe o campo de treinamento de espiões, que recruta pessoas que eles consideram ‘especiais’, que tenham certas habilidades que podem ajudar em missões diversas (recolher informações, levar pessoas de um lugar para outro, sabotar armas dos nazistas, etc.). Os protagonistas são o grupo 1 do Camp X, formado por cinco espiões que, no primeiro episódio, estão somente há 3 meses trabalhando nisso. Por conta da falta de experiência e também da natureza das missões, eles cometem erros, morrem de medo das coisas, duvidam de si mesmos e dos colegas, não sabem o que fazer, travam bem na hora mais importante. Logo no primeiro episódio, um dos personagens coloca a missão a perder porque não tem coragem de matar um soldado nazista e, mais pra frente, esse mesmo personagem continua a exitar e faz de tudo (até manipular outros pra fazer por ele) pra não precisar matar ninguém. Outro personagem sofre ataques de pânico bem na hora que precisa decorar em quais locais os nazistas vão jogar as próximas bombas. Enfim, os personagens não são ‘super espiões’, eles são pessoas dispostas a correr riscos para ajudar os aliados a vencer a guerra. Eles são incrivelmente corajosos, isso é verdade, mas fazem muita merda… mas muita merda mesmo.

Perfilzinho do grupo:

Alfred: O mais novo espião, sofre de sinestesia completa (todos os seus sentidos são interligados) e foi recrutado por ter memória fotográfica. Cresceu dentro de casa, escondido, com medo de tudo, sem conseguir ouvir barulhos altos e sem saber muito bem como interagir com as pessoas. Normalmente precisa de uma ‘babá’ quando está numa missão, porque costuma entrar em pânico e fazer merda. Por causa da memória perfeita, ele é uma arma importante para o Camp X, mas desde o começo é deixado claro que, na possibilidade dele ser capturado pelos nazistas, seus próprios colegas devem executá-lo (já que seria possível tirar tudo dele num interrogatório).

Aurora: É a líder do grupo, já que está na resistência contra os nazistas desde o começo. Era jornalista na França, poliglota e especialista em disfarces. Eu diria que ela é a mais corajosa de todo o grupo, especialmente porque seu papel é quase sempre o mais arriscado: como é mulher, levanta menos suspeitas e, por isso, normalmente precisa interagir com grupos de nazistas pra conseguir as informações. Bastante prática e, até onde a série passou, vai ficando cada vez menos sentimental, conforme presencia os horrores da guerra.

Tom: Antes da guerra, era publicitário e por isso não tem nem um pingo do perfil de ‘soldado’ que se poderia esperar de um espião. Ele também fica com boa parte das missões em que precisa se disfarçar, já que, por causa de seu passado profissional, consegue se vender muito bem e usar charme para convencer as pessoas a fazer o que ele quer. Extremamente manipulador e provavelmente não é alguém com quem você deve confiar uma missão mais difícil ou trágica. Ele é melhor falando do que agindo, por assim dizer.

Harry: Jovem engenheiro que, antes da guerra, só tinha como preocupação chegar em casa cedo pra evitar bronca dos pais. É especialista em explosivos, por isso foi recrutado para o Camp X, além de ser extremamente rápido e eficaz em comunicação (código morse) e eletrônicos em geral. Como Aurora, eu acredito que o personagem dele está criando muitas cicatrizes pelo que está tendo que viver, especialmente porque precisa manter tudo em segredo e não pode contar a verdade para a família. Normalmente fica mais ‘por trás das cenas’, nas missões, montando os apetrechos que vão ser usados ou se comunicando com a central, mas é bem confiável quando em combate.

Neil: Acho que se o grupo tem um ‘vice-líder’, é ele. Era policial antes da guerra, trabalhou durante um tempo na China e se especializou em combate corpo a corpo. Ele é inglês, e toda a família dele foi morta no começo da guerra, o que alimentou nele um ódio gigantesco pelo nazistas, que o fez entrar no Camp X. Além de ser extremamente confiável pra realizar a tarefa que foi dada, ele também é muito bom em manter os outros focados no que estão fazendo (por isso, se o Alfred não está sob os ‘cuidados’ da Aurora, está com ele).

René: RIP (desculpa, mas eu tive que fazer isso! nem é spoiler direito, ele não tá nos posters)

O formato da série é tipo ‘uma missão por episódio’ ao mesmo tempo que eles vão montando arcos maiores que, ao que parece, vão se juntar mais para o final. Serão 8 episódios nesta primeira temporada, mas a segunda já está confirmada.

Algumas observações:

1) É bem pesada no sentido de tensão e temas. Claro, se passa na Segunda Guerra e já se poderia esperar isso. Mas ela vai além do negócio de soldados lutando em batalhas, mostra mais como as cidadezinhas da França sobrevivem sob ocupação nazista, as crianças sendo entregues pra os projetos de reprodução de arianos, essas coisas bizarras que mais se escuta falar do que se vê nas obras de ficção. Eu chorei no primeiro episódio, quando nem estava apegada aos personagens. E nesse quinto que passou semana passada, eu chorei descontroladamente junto com um personagem quando ele se deu conta da coisa horrorosa que estava acontecendo.

2) Eu fiquei com o pé atrás quando vi os trailers e posters, vendo que só tinha uma mulher no grupo e que podia ser o caso de um ‘princípio de smurfette’, mas fui surpreendida positivamente. Sim, a Aurora é a única mulher no grupo de espiões de campo, mas outras personagens femininas bem feitas e complexas aparecem em todos os episódios. Sem brincadeira, parece que eles ficaram preocupados com isso e, conscientemente, escolheram dar os melhores papéis para as atrizes convidadas. Também uma representação de cor maior do que se pode esperar pelos protagonistas, e representação LGBT, e representação de pessoas deficientes. Claro que eles podem (e devem) melhorar tudo isso, mas é bacana ver uma série de época que não usa a desculpa de ‘naquela época era diferente’ pra manter o ‘mais do mesmo’.

3) Não espere o típico ‘alemães são do mal’ que normalmente você encontra em obras de ficção sobre a Segunda Guerra. A coisa não é tão ‘preto e branco’ em X Company. Pode parecer estranho descrevendo, mas eu garanto que em quase todos os episódios você torce por algum alemão, seja soldado ou não, e que eles são representados com bastante complexidade e nuances difíceis de encontrar quando se trata desse tema. Em certos momentos, causa um pouco de desconforto, porque nós sabemos do que todos eles estavam fazendo parte; mas é aquele tipo de sentimento que obras de ficção bem feitas tem o dever de criar, porque é muito fácil fazer uma disputa de ‘bem vs mal’ e pronto, mas não é verdadeiro. Sim, alguns soldados nazistas são incrivelmente nojentos e cruéis, do tipo ‘vilão’ de sempre, mas muitos outros são apresentados como pessoas complexas que você chega a torcer a favor e sentir a perda, se por acaso eles morrem.

4) Sim, a Aurora é a Evelyne Brochu, aka Delphine de Orphan Black. Corre pra assistir ela no X Company, que tá maravilhosa demais e, além de inglês e francês, também fala alemão!!

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