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Clones, gêneros, feminismo

Esse é um post sobre como a série Orphan Black usou o feminismo não só para moldar seus temas, mas também personagens. Jé era possível notar, desde a primeira temporada, que essa série estava indo por um caminho incomum quando o assunto são obras de ação/ficção científica/suspense/conspiração. Mas era possível usar a explicação de que o papel daqueles episódios iniciais era apresentar as personagens interpretadas pela Tatiana Maslany, figuras centrais da história, e por isso nada mais natural que dar a elas mais complexidade e dimensões que para os outros personagens ao redor.

Ainda assim, olhando para trás, é possível enxergar desde o começo diferenças no tratamento dos personagens homens e mulheres. Agora, na terceira temporada, isso nunca ficou mais claro. É quase como se eles colocassem os telespectadores sentados pra explicar que sim, os homens em Orphan Black são figuras mais simples, mais rasas e unidimensionais em comparação com as mulheres da série.

Dois episódios da terceira temporada já exibidos, e já ficou bem clara a  direção para qualescolheram levar os clones Castor (série de clones homens, apresentados no final da segunda temporada). Eles são parecidos não só fisicamente, mas também em tom de voz, personalidade, intenções, objetivos; e, até agora, o que se pode prever é que, dentro todos eles, vai ser lucro se um conseguir qualquer individualidade em relação aos seus irmãos.

Exatamente o contrário do que acontece com as personagens da Tatiana Maslany que, já apresentadas como indivíduos únicos desde o começo, só crescem e se tornam mais complexas e diferentes umas das outras conforme os episódios passam. O fato de que nós conseguimos descobrir, num segundo, quando uma está se passando pela outra, mostra não só o sobrenatural talento da Tatiana, mas também que as personagens são vivas sozinhas, existem em função delas mesmas e possuem idiossincrasias o suficiente para que nós, telespectadores, enxerguemos em cada uma delas uma pessoa única no mundo (ainda que elas sejam, no fim das contas, parte de um todo).

Poderia ser só o fato de que pedir para um ator fazer o que a Tatiana Maslany faz é impossível, e aí a decisão de fazer os clones Castor serem uma matilha (criados juntos, parecidos, todos militares) torna o trabalho do Ari Millen possível. E, fossem só eles, essa seria a melhor explicação. Mas quando a gente começa a olhar para os outros homens na série e compará-los com as mulheres, é mais que óbvio que se trata de uma escolha consciente, essa de apresentar homens rasos em contraste com mulheres profundas.

É claro que a série gira em torno das personagens da Tatiana, então elas vão ser mais exploradas e terão um papel mais interessante que os outros. Ainda que elas sejam, no começo, apresentadas como uma coisa só (a punk, a cientista, a mãe suburbana, a psicopata), todas logo escaparam dessa simplificação e ganharam histórias ricas, em que tiveram que fazer escolhas morais difíceis, cometeram erros, evoluíram como personagens. Sarah começou como o tipo de pessoa que abandona a própria filha e rouba de um cadáver e, agora, é uma figura materna e de liderança, em que todos sabem que podem confiar e que genuinamente se importa e quer ajudar os outros; Alison poderia ter ficado no clichê ‘desperate housewife’, mas descobrimos que ela é, na verdade, uma pessoa que tenta se agarrar na normalidade e aparências justamente porque o mundo dentro e fora dela está desabando; Cosima começou como a cientista genial, cujo papel na série era dar explicações para o que estava acontecendo, e se transformou na personagem mais sensível e positiva da série apesar de ter de umas das histórias mais trágicas de todas elas; Helena foi de assassina maluca para uma figura infantil, extremamente leal e cujas ações sempre veem de uma procura por amor.

E não são somente elas. Na segunda temporada, uma das personagens mais complexas era a Sra. S., que precisava equilibrar seu papel dentro da conspiração com a segurança dos filhos adotivos e da neta, muitas vezes tomando decisões terríveis simplesmente porque precisava fazer uma escolha quando todas as opções eram ruins, acho que a ação final dela foi o auge dessa história, e agora ela está enfrentando as consequências dessas decisões precisou tomar. E, no primeiro episódio da terceira temporada, em meio ao surgindo dos clones Castors, a personagem que mais ganhou destaque e profundidade foi a Delphine, que já era montada em conflitos diversos desde a primeira temporada e foi manipulada por tudo e todos durante toda a segunda, acabou levanto um ultimato em relação a sua lealdade e tomou a decisão de sacrificar sua própria felicidade pessoal, tomando decisões extremas e cometendo atos extremamente duvidosos para manter o poder necessário para tentar desvendar toda a conspiração ao redor da criação dos clones e proteger todas as ‘irmãs’.

Outras personagens que fomos apresentados ao longo dos episódios: Gracie, a filha do líder dos religiosos, que começou como uma figura não muito gostável, mas por quem fomos convidados a ter empatia depois que seus motivos foram explicados; Marian, figurona da empresa que parece estar acima da DYAD, que pareceu ser apresentada como antagonista e depois foi revelado que estava mexendo os pauzinhos por trás das cortinas na intenção de ajudar os clones, já que ela mesma é mãe adotiva de uma clone feita depois do projeto original; Rachel, outra Tatiana Maslany, que é uma vilã no sentido clássico da palavra, parecendo desprovida de consciência e empatia, cometendo atos horríveis para realizar seu desejo de… se mãe e ter uma família, mas que, agora, parece estar com alguma espécie de dano cerebral que provavelmente vai levar para uma evolução maior da personagem.

Para não ser injusta, alguns homens na série fogem do molde simples da maioria deles. Felix, claro, que é a figura masculina mais importante da série, é um personagem complexo, pelo qual sentimos empatia e torcemos desde o começo, e que vai evoluindo junto com as personagens, sendo a pessoa mais importante pra a manutenção do ‘Clone Club’, já que ele é o único personagem ‘não-clone’ que parece ser aliado de todas as clones (até o momento). Mas Felix também é uma quebra do clichê de séries de ação/ficção científica. Ele é um homem gay que não faz a mínima questão de fugir do esteriótipo justamente porque em nenhum momento ele é reduzido a ser apenas o ‘melhor amigo gay’.

E, tirando ele, a coisa já começa a ficar mais complicada para o lado dos homens. Porque, sim, outros personagens masculinos são legais, mas eles não são muito mais do que aquela primeira impressão: Art, o policial que se pode confiar; Scott, o cientista nerd amigo leal; Donnie, o marido meio bobo e fácil de enganar, mas que quer proteger sua família; Cal, o papai dedicado com habilidades em computadores. Eu não coloco o Paul nessa categoria porque, na minha opinião, ele é o pior personagem da série, parece ter saído diretamente da fábrica de ‘homens vazios’ e o ator que faz ele é tão ruim que não consegue dar nem um pouquinho de personalidade pra ele. Tínhamos o Leekie, que eu achava que estava ganhando complexidade, mas acabou morto antes de ter a chance de evoluir de verdade. Também tinha o líder religioso, que era o vilão com complexo de Deus e bastante interessante, mas muito mais pelo que falava e representava na série do que pelo personagem em si.

Alguns outros homens da série se destacam, pra mim, se destacam como figuras com potencial para serem mais tridimensionais se forem explorados no futuro: Tony, o clone transgenero que foi apresentado em um episódio da segunda temporada, se mostrou um personagem não só interessante (extremamente confiante, meio malandro, com habilidades de ler e manipular as pessoas) como muito importante na questão de representação (ainda mais para um seriado que lida com identidade e que trata seus personagens LGBT com tanto respeito); Dr. Duncan poderia ser um desses, cientista brilhante que queria fazer algo bom e quebrou todas as leis éticas que você pode imaginar, mentalmente abalado mas ainda querendo ajudar e corrigir os erros que cometeu… mas ele morreu, então ficou por ai mesmo; E tem o Mark, revelado como um dos clones Castor no fim da segunda temporada, provavelmente estava infiltrado no grupo religioso mas acabou se apaixonando de verdade pela Gracie, eu imagino, deve partir em uma jornada em busca de alguma individualidade.

Mas, independente do que acontecer ou deixar de acontecer com os personagens masculinos, não tem como fugir do fato de que Orphan Black é uma série feminista desde a sua concepção. No momento em que a personagem principal foi desenvolvida como mulher, a série fez a escolha de que toda a conspiração e os aspectos de ficção científica seriam caminhos para explorar assuntos relacionados ao feminismo e o papel das mulheres na sociedade.

A ideia de monitores, por exemplo, se relaciona ao fato de que, na sociedade patriarcal, as mulheres são constantemente monitoradas em sua maneira de se vestir, agir, falar, andar, enfim… em sua maneira de ser. Uma monitoração tão constante e extrema que, no fim das contas, nem é preciso ter câmeras ou olhos de um outro, nós mesmas acabamos nos monitorando de acordo com o que a sociedade considera adequado ao nosso gênero.

E, claro, existe toda a discussão sobre domínio sobre o corpo da mulher. Várias vezes, na série, a frase ‘é meu corpo, é minha decisão’ (e outras muito parecidas) é repetida, tanto antes quanto depois das personagens descobrirem que toda a sua biologia foi patenteada pela DYAD. A busca por liberdade, controle sobre seu próprio corpo e emancipação é o que está no DNA de Orphan Black.

Como se não bastasse tudo isso, ainda temos na série uma enorme variedade de relacionamentos entre mulheres, que não dependem da existência de um homem para acontecer. As personagens da Sarah, Sra. S. e Kira representam uma família, tanto de sangue quanto adotada, em que mulheres olham e protegem umas as outras. O único romance digno de nota de toda a série é entre duas mulheres, todos os outros foram descartados ou colocados em segundo plano ao longo dos episódios, enquanto os próprios criadores e o público abraçam o relacionamento da Cosima com a Delphine como ‘a’ história de amor romântico da série. Sarah e Helena se descobrem como irmãs gêmeas biológicas e, mesmo depois de uma tentar matar a outra, criam um laço muito mais forte do que o tempo em que passaram separadas. E claro, todas as clones, o Clone Club em si, é sobre sororidade, um grupo de mulheres que, apesar de serem iguais na aparência, tiveram vidas diferentes e enxergam o mundo de maneiras diferentes, se juntando para ajudar e empoderar uma a outra na busca por autonomia, individualidade e liberdade.

Indicações de textos muito bacanas sobre Orphan Black e feminismo, que me ajudaram e inspiraram a escrever esses pensamentos:

Empty Suits – Orphan Black’s straight males characters are completely flat. That’s not an accident.

Everyone should be losing their minds over Orphan Black

Orphan Black: The feminist show you need to watch

Five feminist reasons to watch Orphan Black this saturday

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