2 livros, 3 frases

Kafka à beira-mar, Haruki Murakami:

Estou indo para o coração da floresta. Sou um homem vazio. Sou um vácuo que se alimenta do concreto. Portanto, não existe nada que eu deva temer. Absolutamente nada.

Nakata não é só ruim da cabeça. Nakata é vazio por dentro. Foi o que ele percebeu neste momento. Ele é como uma biblioteca sem nenhum livro. Antigamente não era assim. Nakata tinha livros dentro dele. Ele não conseguia se lembrar do passado, mas agora se lembrou. Sim senhor. No passado, Nakata era uma pessoa normal, como qualquer outra. Mas então, aconteceu alguma coisa que deixou Nakata vazio por dentro.

Porque enquanto amamos, estamos em busca de algo que nos falta. E por isso ficamos sempre tristes ao pensar na pessoa amada, alguns um pouco mais, outros, um pouco menos. Temos a mesma sensação de quando pomos os pés num quarto que perdemos num passado distante, repleto de lembranças saudosas. É mais que natural.

A convidada do casamento, Carson McCullers:

Ficou ali, diante do espelho, e teve medo. Era o verão do medo para Frankie, e havia medo que podia ser calculado aritmeticamente, com papel e um lápis, na mesa. Naquele agosto, estava com doze anos e dez meses de idade. Tinha um metro e sessenta e seis e usava sapatos tamanho trinta e sete. Ano passo, crescera dez centímetros, pelo menos era o que calculava. Já as detestáveis criancinhas do verão gritavam-lhe: “Eu, está fazendo frio aí em cima?”. E os comentários dos adultos faziam Frankie gelar, da cabeça aos pés. Mesmo que parasse de crescer aos dezoito anos, ainda teria pela frente cinco anos e dois meses de crescimento. Portanto, de acordo com a matemática, a não ser que, de alguma maneira, conseguisse parar, cresceria até ficar com mais de dois metros e setenta de altura. E o que seria uma mulher com mais de dois metros de altura? Um monstro.

– Você já conheceu alguém de que, depois, você lembra mais como um sentimento do que como uma imagem?
– Que que você quer dizer com isso?
– Quero dizer o seguinte – falou Frankie, devagar. – Vi os dois, claro. Janice estava com um vestido verde e sapatos altos, também verdes, e elegantes. O cabelo dela estava preso no alto da cabeça, com um pequeno coque. Um cabelo escuro, com uma pequena mecha solta. Jarvis estava sentado junto dela, no sofá. Usava seu uniforme marrom e estava bronzeado e muito limpo. Eram as duas pessoas mais lindas que já vi. Mas era como se eu não pudesse ver tudo que queria deles. Meus miolos não conseguiam juntar as peças com rapidez bastante para eu entender tudo. E, então, eles foram embora. Está entendendo o que quero dizer?

– Você nunca mais vai ver aquele gato vagabundo.
– Se pelo menos eu soubesse para onde ele foi.
E assim, em todas aquelas tardes lúgrubes, suas vozes faziam um ruído de serra, uma contra a outra, dizendo as mesmas palavras, e Frankie acabou achando que pareciam versos de pé quebrado, na boca de duas loucas. Ela finalizava dizendo a Berenice:
– Parece que todo mundo, simplesmente, foi embora e me deixou.

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