Xilocaína emocional e o Grande Tubarão Branco

Eu vinha querendo escrever um texto sobre depressão desde que eu tive que experienciá-la por um (felizmente) breve período (resultado de uma decisão minha em mudar minha medicação pra ansiedade sem consultar minha médica antes… é, eu sei, idiota). Acontece que eu estou lendo Graça Infinita, do David Foster Wallace, e me deparei com um capítulo em que ele fala sobre o assunto melhor do que eu jamais poderia sonhar. Por isso, escolhi colocar aqui algumas frases desse capítulo ao invés de tentar eu mesma colocar em palavras um período que ainda está muito fresco na minha pele e que eu ainda estou aprendendo a lidar e compreender (foi o primeiro tipo dos dois descritos por ele que eu tive).

Todas as citações são do capítulo 14 de novembro – Ano da Fralda Geriátrica Depend (começa na página 705 desse gigantes livro).

Xilocaína Emocional

Alguns pacientes psiquiátricos — fora uma certa percentagem de pessoas que ficaram tão dependentes de químicos para obter sensações de bem-estar que quando é necessário abandonar os químicos elas passam por um trauma-de-perda que cala bem fundo nos sistemas centrais da alma — essas pessoas sabem bem de primeira mão que há mais de um tipo da dita “depressão”. Um tipo é coisa-pouca e às vezes é chamado de anedonia ou melancolia simples. É uma espécie de torpor espiritual em que você perde a capacidade de sentir prazer ou afeição por coisas anteriormente importantes. O ávido jogador de boliche larga o campeonato e fica em casa à noite encaranto inerte uns cartuchos de kick-boxe. O comilão perde o apetite. O sexual descobre que sua amada Unidade de repente é só um pedaço de cartilagem sem sensações, só pendurado ali. A esposa e mãe devotada acha a ideia de família dela tão comovente, de repente, quanto um teorema de Euclides. É um tipo de xilocaína emocional, essa forma de depressão, e por mais que não seja francamente doloroso esse amortecimento anedônico como uma espécie de abstração radical de todas as coisas, um ocamento das coisas que antes tinham conteúdo afetivo. Termos que os não deprimidos soltam a três por quatro e dão de barato como coisas plenas e carnudas — felicidade, joie de vivre, preferência, amor — são despidos até virarem esqueletos e reduzidos a ideias abstratas. Eles têm, por assim dizer, denotação mas não conotação. A pessoas anedônica ainda consegue falar de felicidade e sentido et al., mas se tornou incapaz de sentir qualquer coisa nessas palavras, de entender algo nelas, de ter alguma esperança em relação a elas ou de acreditar que elas existem como qualquer outra coisa além de conceitos. Tudo se torna um contorno da coisa. Objetos viram esquemas. O mundo vira um mapa do mundo. Uma pessoa anedônica navega, mas não tem localização. I. e., o anedônico fica, no jargão do AA de Boston, Incapaz de se Identificar.

 O próprio Hal não tem uma genuína emoção tipo intensidade-da-vida-interior desde que era pequenininho; ele acha que termos como joie e valor são apenas variáveis em equações rarefeitas, e consegue manipulá-los direitinho a ponto de garantir a todo mundo menos ao próprio Hal que está ali, dentro de sua carcaça, enquanto ser humano – mas na verdade ele é bem mais robótico que John Wayne. Um dos problemas dele com a sua Mães é Avril Incandenza achar que o conhece do avesso enquanto ser humano, e além de tudo um ser humano internamente valioso, quando na verdade dentro de Hal basicamente não há nada, ele sabe. A sua Mães Avril ouve os seus próprios ecos dentro dele e acha que o que está ouvindo é ele, e isso faz Hal sentir a única coisa que sente até o fim, ultimamente: solidão.

Grande Tubarão Branco

Hal ainda não tem idade para saber que isso se deve ao fato de que o vazio inerte não é o pior tipo de depressão. A anedonia de olhos mortos é apenas a rêmora do flanco central do verdadeiro predador, o Grande Tubarão Branco da dor. As autoridades chamam essa situação de depressão clínica ou involucional, ou transtorno disfórico unipolar. Ao contrário de apenas uma incapacidade de sentir, um amortecimento da alma, a depressão calibre-predador que Kate Gompert sempre sente quando entra em Abstinência da marijuana secreta é ela própria uma sensação. Ela recebe muitos nomes — angústia, desespero, tormento, ou p. ex. a melancholia de Burton ou a mais oficial depressão psicótica de Yevtusgenko — mas Kate Gompert, entricheirada na batalha, a conhece apenas como Aquilo.

Aquilo é um nível de dor psíquica totalmente incompatível com a vida humana como a concebemos. Aquilo é uma sensação de um mal radical onipresente e não só como característica mas como essência da existência consciente. Aquilo é uma sensação de envenenamento que toma todo o eu nos níveis mais elementares. Aquilo é uma náusea nas células da alma.

Se uma pessoa com uma dor física acha difícil cuidar de qualquer outra coisa fora aquela dor, uma pessoa clinicamente deprimida não consegue nem perceber qualquer outra pessoa ou coisa independente da dor universal que a está digerindo célula a célula. Tudo é parte do problema, e não há solução. É um inferno de uma pessoa só.

O termo oficial depressão psicótica faz Kate Gompert se sentir especialmente só. Especificamente a parte psicótica. Pense nisso nos seguintes termos. Duas pessoas estão gritando de dor. Uma delas está sendo torturada com uma corrente elétrica. A outra, não. A gritadora que está sendo torturada com corrente elétrica não é psicótica: seus gritos são circunstancialmente adequados. A pessoa que grita sem estar sendo torturada, por outro lado, é psicótica, já que os terceiros que farão os diagnósticos não podem ver os eletrodos ou uma amperagem mensurável. Uma das coisas menos agradáveis de ser psicoticamente deprimido numa enfermaria cheia de pacientes psicoticamente deprimidos é perceber que nenhum deles é de fato psicótico, que os gritos deles todos são completamente adequados a certas circunstâncias cujo encanto especial é serem parcialmente indetectáveis por qualquer terceiro. Daí a solidão: é um circuito fechado: a corrente é tanto aplicada quanto recebida internamente.

A pessoa dita “psicoticamente deprimida” que tenta se matar não o faz por entre aspas “desesperança” ou por qualquer convicção abstrata de que os ativos e os débitos da vida não batem. E certamente não porque a morte pareça subitamente atraente. A pessoa em que a agonia d’Aquilo atinge um certo nível insustentável vai se matar exatamente como uma pessoa encurralada vai acabar pulando da janela de um arranha-céu em chamas. Não se iluda sobre as pessoas que pulam de janelas em chamas. O pavor que elas têm de cair de grandes alturas ainda é tão grande quanto seria para você ou para mim ali parados especulativamente na mesma janela só dando uma olhada na vista; ou seja, o medo de cair é uma constante. A variável aqui é o outro terror, as chamas do incêndio: quando a chamas chegam perto demais, cair para a morte se torna um terror algo menos terrível que o outro. Não é desejar a queda; é o pavor das chamas. No entanto ninguém que esteja lá na calçada, olhando para cima e gritando “Não faça isso!” e “Força!” entende o salto. No fundo. Você teria que ter estado pessoalmente acuado e sentindo as chamas para entender de verdade um terror bem maior que a queda.

Advertisements
Tagged , , , , , , , ,

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: