Como o ateísmo me fez uma pessoa melhor

É muito comum escutar pessoas religiosas dizendo como suas crenças os tornaram boas pessoas, como foram salvos de caminhos ruins pelo deus em que acreditam e como tudo fica melhor quando você confia em sua fé. Eu não posso dizer que tive uma criação muito religiosa, meus pais cresceram sob o catolicismo e eu acabei sendo batizada e indo em algumas missas quando era necessário, mas não fiz catecismo ou primeira comunhão ou algo que o valha. Igreja, pra mim, sempre foi um lugar com muito eco e estranhos bancos de madeira feitos especialmente para você se ajoelhar na hora que o padre mandasse.

Hoje, é estranho pra mim pensar nessa história de se ajoelhar junto com todas aquelas pessoas estranhas e ficar escutando um homem também desconhecido falar coisas que eu não entendia (não só porque eu era criança demais pra prestar atenção e o texto é truncado, mas também por causa do eco horrível). Todo esse ritual católico – sentar, ficar de joelhos, levantar, repetir palavras, abraçar, sentar de novo – começou a me irritar a medida que fui ficando mais velha. Casamentos, batizados, missas de sétimo dia, nada disso me dava uma impressão boa de igrejas, padres ou cristianismo em geral.

Eu deixei de chamar a mim mesma de católica bem cedo e não achei necessário trocar por outra religião. Eu adotei a postura do ‘livre pensador’, porque eu também ainda não estava pronta para desistir completamente da ideia de um deus que trazia sentido para o universo e a minha vida. Mas, a verdade é que o ateísmo foi algo pelo qual eu me interessava e sempre que eu via alguma reportagem ou lia algum texto sobre o assunto, eu sabia que aquelas ideias faziam sentido e que, no dia que eu realmente parasse para questionar e pensar no assunto, eu acabaria ateísta.

Acabou sendo uma transição meio longa, especialmente porque você cresce com tudo ao seu redor falando que existe um deus no céu que é responsável por tudo e te vê e que te ama e que sabe o que faz. É muito fácil colocar todas as suas dúvidas e questionamentos em um ser invisível que está sempre certo. É muito mais cômodo viver pensando que existe um plano e que existe um sentido. E, mais que tudo, é possível esquecer que você e todos ao seu redor vão morrer se você está convencido de que existe um outro mundo para onde todos vão ao falecer e onde serão felizes juntos para sempre.

Eu fui, aos poucos, me livrando de cada uma dessas “redes de segurança” que a religião me deu. Rejeitar todas as religiões foi fácil e rápido, porque eu sempre achei todas elas um poço de hipocrisia e só estudar história para aprender o tanto de mal que elas já fizeram para o mundo. O próximo passo foi um pouco mais complicado, porque rejeitar deus de uma vez só ainda era agressivo demais para mim mas, ao mesmo tempo, eu tinha os olhos abertos para o mundo e não conseguia conciliar a ideia de um deus todo poderoso e cheio de amor que simplesmente vê suas criaturas se destruindo das piores maneiras possíveis e, mesmo tendo o poder de arrumar tudo o que está de errado, decide não o fazer. Não faz sentido, na verdade, imaginar que esse deus perfeito possa ter criado algo tão cheio de defeitos quanto a humanidade. Nessa época, eu acabei descobrindo o deísmo e me identifiquei bastante com o que ele diz, especialmente porque desligava a podridão do mundo da imagem de deus e era isso o que mais me incomodava na época.

Então, eu não tinha mais religião, mas eu tinha um deus. Eu tinha um deus, mas esse deus havia apenas criado a realidade e deixado tudo se desenrolar sozinho, não tinha poder para intervir ou mudar absolutamente nada. Era um deus que mais se parecia com uma energia, uma força que estava presente em todas as coisas do universo desde a criação, completamente desligada de culpa ou responsabilidade ou mérito. Não demorou para eu perceber que o que eu estava chamando de deus já tinha nome: natureza.

Esse foi o meu passo derradeiro e sem volta. Perceber que o Universo é rico, complexo, cheio de mistérios, lindo e horroroso ao mesmo tempo, e que ele está aqui, na nossa frente, pronto para ser visto, tocado, sentido. Por que eu vou querer inventar qualquer outra coisa se eu já tenho tanto pra descobrir? Como disse o Douglas Adams, por que eu preciso inventar que existem fadas escondidas num jardim ao invés de apreciá-lo pelo que ele é?

Descobrir o mundo é ganhar uma nova vida. Dizem que se nasce duas vezes: a primeira, do jeito que todo mundo sabe; e a segunda, no dia em que você percebe que vai morrer. Eu acho que é verdade. Porque quando eu me dei conta que o mundo é aqui e agora, que eu sou aqui e agora, eu mudei para sempre. E mudei para melhor.

A primeira mudança foi instantânea: quando você para de acreditar em um deus, você recebe, automaticamente, toda a responsabilidade das suas ações. Eu não podia mais dizer que ‘deus quis assim’ se algo dava errado para mim. Não, essa é minha vida e a pessoa responsável por fazer com que meus objetivos se concretizem sou eu, não um ser invisível no céu. E logo depois você se dá conta de que, da mesma forma que não existe nenhum deus olhando você, não existe nenhum deus olhando por mais ninguém. E isso fez com que eu me tornasse alguém com muito mais empatia e engajada socialmente, porque não é difícil esquecer alguma situação de opressão e violência quando você pensa que tem um deus todo poderoso que deve considerar aquilo justo de alguma forma (se não considerasse, não deixaria acontecer!). Mas, se esse deus não existe, então nós temos que agir para que isso acabe. A minha capacidade de me colocar no lugar dos outros aumentou infinitamente depois que eu me tornei ateísta e, com isso, eu acabo me esforçando mais para fazer alguma diferença não só na minha vida, mas também na dos outros.

O ateísmo também aumentou a minha curiosidade em relação ao mundo e eu voltei a me interessar por ciência (eu gostava muito quando criança) e a sentir um frio na espinha cada vez que algum cientista descobre algo novo sobre o universo. Essa vontade de aprender acabou passando também para outras áreas do conhecimento, claro, e aprender nunca é demais. Também me dei conta de que dizer ‘eu não sei’ não é algo vergonhoso e que não é porque existem lacunas e perguntas ainda não respondidas que devemos começar a inventar todo o tipo de coisas para colocar no lugar. Conhecimento é algo construído coletivamente, e você precisa manter a mente aberta para ideias, evidências, conceitos, descobertas. Eu sempre adorei aprender e perceber que as respostas para tudo estão por aí, só precisam ser achadas, foi algo que me estimulou intelectualmente muito mais do que a ideia de um livro velho sem qualquer base na realidade, mas que supostamente contém toda a sabedoria do mundo.

Eu também percebi o grande preço que o mundo estava pagando só para que eu me sentisse confortável. Ninguém vai argumentar que não é confortável viver acreditando que sua alma é eterna que você será salvo de todo o mal pelo seu deus perfeito e bondoso. Quando você começa a pensar racionalmente em todas as ideias religiosas, se pergunta como é que alguém pode acreditar em todas aquelas fantasias, mas as pessoas morrem de medo. Medo de morrer, medo que os outros morram, medo de que a vida não tenha um sentido. As pessoas procuram religião porque precisam disso: de algo que diminua o medo de morrer e perder pessoas amadas, e porque seres humanos são reconhecedores de padrões por motivos evolutivos e querer que tudo tenha um sentido. Bom, a verdade não é bonita e confortável… mas é a verdade. O universo não nos deve sentido algum. O sentido da vida de cada um é responsabilidade da própria pessoa. Você tem que construir um sentido para a sua vida todos os dias, e é bom que comece logo porque, sim, essa é a sua única chance!

No momento em que você decide comprar o que diz uma religião por que isso te faz ficar confortável, você precisa lembrar de todo o mal causado por essa religião (e todas elas já causaram e/ou ainda causam mal para o mundo). As pessoas matam por um deus achando que estão fazendo a coisa certa, e o que dá o respaldo para elas acharem isso é a força que a religião em questão possui. Não importa qual seja a sua religião, você precisa começar a se perguntar se o seu conforto pessoal é tão importante assim que vale todo o sofrimento causado por ela.

O mais importante de tudo, no entanto, foi que, no momento em que parei de acreditar em qualquer recompensa divina, tudo o que eu fiz de bom deixou de ser uma barganha. Se você age com bondade porque tem medo de ir para o inferno, ou porque quer ir para o céu, ou porque acha que deus está vendo, você é um lixo de pessoa. Não existe nada mais egoísta do que fazer algo de bom esperando uma recompensa, e é isso que toda a ideia de religião e deus pregam.

O ateísmo faz com que eu me esforce para ser uma pessoa melhor porque eu acho que isso é o certo e o que deveria ser feito por todos, porque eu vejo tudo o que está errado no mundo e eu não quero fazer parte disso, porque eu sei que eu posso fazer a diferença nem que seja no meu próprio microcosmo. E eu não estou esperando recompensa nenhuma.

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