Dentes Brancos em frases – parte 1

Estou na metade desse livro incrível que é Dentes Brancos, da Zadie Smith, e como sempre andei separando as frases que mais gostei. Vou colocar as favoritas dessa primeira metade agora e as que surgirem depois numa segunda parte, já que é um livro grande e com grandes momentos que merecem destaque.

— O que eu quero dizer é que acho que os homens já causaram bastante caos neste século. Já tem bastante porcaria de homens no mundo. Se eu soubesse que ia ter um menino — faz uma pausa, preparando as duas amigas falsamente conscientes para este novo conceito — , eu pensaria seriamente no aborto.

— Jones, por favor. Faça-me este grande favor. Se alguma vez ouvir alguém, quando você voltar para o seu país, se você, se nós, se a gente voltar para nossos respectivos lares, se alguma vez ouvir alguém falar do Oriente — e então sua voz baixou um registro, o tom se tornou grave e triste —, guarde o seu julgamento. Se disserem: “Eles são isto”, “Eles são aquilo” ou “As opiniões deles são assim ou assado”, guarde seu julgamento até dispor de todos os fatos. Porque aquela terra que eles chamam de “Índia” tem milhares de nomes e é povoada por milhões, e se, você acha que encontrou dois homens iguais no meio daquela multidão, está enganado. Não passa de uma ilusão do luar.

— Os nossos filhos vão nascer das nossas ações. Os nossos acidentes vão se tornar o destino deles. Ah, as ações vão permanecer. É uma simples questão do que fazer quando apagar, meu amigo. Quando a dona gorda estiver cantando. Quando as paredes estiverem caindo, o céu estiver escuro, o chão estiver rugindo. Nesse momento, nossas ações vão definir a gente. E não faz a menor diferença se você está sendo ou não está sendo observado por Alá, Jesus ou Buda. Num dia frio, um homem consegue ver a respiração, num dia quente, não. Nas duas ocasiões, o homem respira.

Ah, havia algum prazer. E não se deve nunca subestimar as pessoas, não se deve nunca subestimar o prazer que extraem ao testemunhar a dor alheia, ao darem má notícia, ao verem pela televisão bombas caindo, ao ouvirem os soluços sufocados no outro lado da linha telefônica. Dor em si não passa de dor. Mas dor + distância pode ser = entretenimento, voyeurismo, curiosidade por aspectos humanos, cinéma vérité, uma boa risada, um sorriso compreensivo, uma sobrancelha erguida, um desdém disfarçado.

Dois filhos. Um invisível e perfeito, congelado na agradável idade de nove anos, estático na moldura de uma fotografia enquanto a televisão embaixo dele vomitava toda a merda dos anos 80 – bombas irlandesas, distúrbios ingleses, impasses norte-americanos -, mixórdia acima da qual o menino se elevava intocável e imaculado,  alçado ao status de Buda sempre sorridente,  imbuído de uma serena contemplação oriental; capaz de nada, um líder natural, um muçulmano natural, um chefe natural – em resumo, nada a não ser uma aparição. Um daguerreótipo espectral formado do mercúrio da imaginação do pai, preservado na solução salina das lágrimas maternas. O filho permanecia silencioso, distante e “supostamente bem”,  como um dos postos avançados coloniais de Sua Majestade, imobilizado num eterno estado de ingenuidade original, de pré-pubescência perpétua. Esse filho Samad não conseguia ver. E havia muito Samad aprendera a cultuar o que não conseguia ver.

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