Dentes Brancos em frases – parte 2

Momentos favoritos da outra metade de Dentes Brancos. Inclusive, aproveito para recomendar o livro! É muito bem escrito, divertido e trata de temas extremamente importantes e relevantes para os dias de hoje.

O mundo moderno tem desta coisa esquecida. A gente ouve as garotas nos banheiros dizerem: “É, ele me comeu e se mandou. Não me amava. Simplesmente não era capaz de encarar o amor. Estava danificado demais para saber como me amar”. Agora, como foi que isso aconteceu? O que houve neste século desamável que nos convenceu de que somos, apesar de tudo, eminentemente amáveis enquanto pessoas, enquanto espécie? O que nos levou a pensar que qualquer um que não consiga nos amar está de algum modo danificado, é deficiente, avariado? E, em especial, se nos trocam por um deus, ou por uma madona chorosa, ou pelo rosto de Cristo num pão ciabatta – nesse caso chamamos as pessoas de malucas. Desiludidas. Regressivas. Estamos tão convencidos da nossa bondade, e da bondade do nosso amor, que não suportamos acreditar que poderia haver algo mais digno de amor que nós, mais digno de adoração. Os cartões de congratulação nos dizem rotineiramente que todo mundo merece amor. Não. Todo mundo merece água limpa. Nem todo mundo merece amor o tempo inteiro.

Millat dispõe as cadeiras para demonstrar a visão do sistema solar que foi tão clara e extraordinariamente descrita no Alcorão séculos antes da ciência ocidental (panfleto: O Alcorão e o cosmos); Magid desenha em um quadro-negro a praça de armas de Pande, com uma reconstrução detalhada do possível trajeto dos projéteis, e no outro quadro-negro um diagrama que representa uma enzima de restrição penetrando nitidamente uma sequência de nucleotídeos; Millat usa o computador como televisão, um apagador como a imagem de Magid-bode, em seguida, com uma mão, arremeda cada baba que escorre, a tia-avó e o contador do primo que apareceram nesse ano para a blasfema atividade de cultuar um ícone; Magid utiliza o projetor suspenso para esclarecer um artigo que escrevera, conduzindo o irmão ponto por ponto em seu argumento, defendendo as patentes de organismos alterados geneticamente; Millat usa o fichário para representar outra pessoa que ele despreza, enche-o de cartas imaginárias trocadas entre um cientista judeu e um muçulmano incréu; Magid junta três cadeiras, acende duas lâmpadas anglepoise e agora há dois irmãos dentro de um carro, tremendo de frio agarrados um ao outro até poucos minutos depois se separarem para sempre e de um avião de papel decolar.

Mas a multiplicidade não é uma ilusão. Tampouco a velocidade com que aqueles que se encontram no caldeirão em ebulição se precipitam na direção dele. Paradoxos à parte, eles estão correndo, assim como Aquiles estava correndo. E ultrapassarão os que negam com a mesma certeza com que Aquiles teria feito a tartaruga sofrer uma derrota. Sim, Zero tinha um ponto de vista. Almejava a Unidade, mas o mundo é Multidão. E, no entanto, esse paradoxo ainda é fascinante. Quanto mais Aquiles se esforça para alcançar a tartaruga, mais eloquentemente a tartaruga expressa sua vantagem. Da mesma maneira, os irmãos correrão em direção ao futuro apenas para constatar que mais e mais eloquentemente expressam seu passado, esse lugar em que estiveram há pouco. Porque esta é uma outra coisa acerca de imigrantes (refugiados, exilados, viajantes): não conseguem se livrar da história deles, assim como não escapamos de nossa própria sombra.

Mas seria um interessante levantamento (que tipo de decisão você tomaria) examinar o presente e dividir os espectadores em dois grupos: aqueles cujos olhos depararam com um homem a sangrar, caído sobre uma mesa, e aqueles que observavam a fuga de um rebelde camundongozinho castanho. Archie, por exemplo, observou o camundongo. Observou-o ficar imóvel por um segundo com um ar de presunção, como se esperasse nada menos que isso. Observou-o escapar correndo sobre sua mão. Observou-o se precipitar ao longo da mesa, e pelas mãos daqueles que desejavam encurralá-lo. Observou-o saltar da extremidade e sumir pelo respiradouro. Siga em frente, meu filho!, pensou Archie.

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