Querida ansiedade,

Querida ansiedade,

Nós estamos juntas já faz algum tempo e acabamos nos conhecendo bem desde então. No começo, eu era muito grata a você, sempre me impedindo de tomar decisões idiotas, me impedindo de me envergonhar, me impedindo de entrar em situações perigosas.

Mas, agora, você está apenas me impedindo.

Você sempre é a primeira a aparecer, antes mesmo de eu perceber que você é necessária. E você sempre faz questão de mostrar que chegou.

Você faz meu coração bater tão forte que parece que ele está procurando um jeito de sair para fora do meu peito.

Você acelera o sangue no meu cérebro, nos meus braços e pernas, nos meus músculos.

Você faz meu corpo inteiro ficar tenso e encurta a minha respiração.

Você me inunda de oxigênio e me deixa pronta para a ação, ainda que não exista ação nenhuma acontecendo.

Eu fico tonta.

Eu começo a tremer, sinto a adrenalina tomar conta de mim.

Eu me sinto enjoada. Eu quero vomitar.

As sensações físicas estão fora do meu controle. Elas me fazem ficar doente. Literalmente doente.

Eu não consigo pensar em nenhuma outra coisa.

Você sempre aparece de uma maneira tão real e convincente, que eu começo a procurar motivos para todo esse terror que sinto – algo que explique toda a loucura dentro de mim. Se o perigo é real ou não, não tem importância, porque eu não consigo evitar sentir como se fosse.

Agora, eu fico ansiosa por causa da ansiedade. Eu começo pensar em você mesmo quando você não está lá – aquela sensação de pressa, descontrole, tontura.

Você já parou para pensar no que faz comigo? Eu sei que é uma pergunta idiota. É claro que não. Você não pensa em nada. Você é instinto, eu entendo, só ação e nenhum pesamento. Você é a sirene que toca para me avisar que as figuras nas sombras vão me atacar. Mas elas nunca atacam. A única coisa me atacando é você.

Eu odeio como me sinto quando você está por perto. Você é um guarda emburrado e desagradável, sempre pronto para pular entre mim e o perigo. Mas você sempre pula perto demais.

Eu consigo sentir seu hálito quente e molhado no meu pescoço e, quando isso acontece, eu não consigo respirar. Eu faria qualquer coisa pra evitar você e, às vezes, é exatamente isso que eu faço: evito os lugares em que sei que você vai estar.

No começo, eu não conseguia te entender mas tinha algo em você que era estranhamente confortável e seguro. Eu tenho medo, muito medo, de mandar você ir embora. Eu não sei o que é viver sem você, mas o que eu sei é que viver com você é muito ruim.

Você vai dizer que me protege – do perigo, de perder, de falhar, de me envergonhar. Eu sei que você realmente acredita nisso. Você acredita nisso por nós duas. Mas agora, eu começo a pensar que talvez você esteja errada.

Eu estou procurando muito por razões para te explicar. Eu te escuto. Eu te sinto. Mas eu não sei o porquê de você estar aqui. Então, eu estou começando a pensar que você precisa de mim muito mais do que eu preciso de você, e que eu estaria melhor sem você.

Você é alarmista. Eu presto muita atenção ao drama que você cria dentro de mim. Agora, eu vou me concentrar na verdade, que é só uma: eu não preciso de você. Eu sei que você pensa que está me protegendo, e eu agradeço por você sempre ter estado lá quando eu precisei. Mas, agora, você está mesmo quando eu não preciso, e isso não me faz bem.

Você reage rápido demais. Enxerga rápido demais coisas que não existem . Inventa rápido demais problemas onde tudo está certo. Decide rápido demais que eu não sou capaz de lidar com o mundo.

Quando eu fecho os olhos, eu vejo você e eu sinto você. Mas, quando eu respiro fundo, você desaparece.

Eu sei que você odeia isso. Toda a reação, toda a prontidão, todo o trabalho que você faz – tudo desaparecendo lentamente, junto com o ar que eu inspiro, seguro e solto.

Então é assim que eu vou começar. Não vai ser fácil. Nós nos tornamos uma parceria. Eu e você. Previsíveis. Seguras. Dependentes.

Eu sei que você não quer me machucar, mas a verdade é que machuca.

Obrigada por tentar tomar conta de mim. Eu sei que você quer ficar, e uma parte de mim realmente quer que você fique – caso tudo dê errado. Mas eu vou ficar melhor sem você. Então, lentamente, junto com o ar que solto cada vez que respiro fundo, eu estou deixando que você vá embora.


Texto traduzido e adaptado do blog Hey Sigmund

Deixo também como indicação esse poema mais ou menos nos mesmos moldes, que gosto muito, sobre viver com depressão:

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