Monthly Archives: November 2015

Murakami e a solidão

Acabei de ler o primeiro livro de contos do Murakami publicado aqui no Brasil, Homens sem mulheresEle é um dos meus autores favoritos, então eu meio que já sei o esperar de uma história dele (especialmente aqueles elementos que quase sempre se repetem, que eu gosto de chamar de Bingo do Murakami), o tema favorito dele é solidão, desconexão e isolamento. Quase todos os livros dele (não falo todos agora porque eu não parei pra pensar, mas eu acredito que podem ser todos) falam desse assunto ou tem esses temas grudados nos personagens e os guiam pelas suas jornadas.

Homens sem mulheres fala sobre esses assuntos desde o título. São contos sobre homens isolados (tenham consciência ou não) que sofrem por não conseguirem se conectar com o mundo, que aparece representado nas histórias em figuras femininas, as mulheres ausentes do título da coletânea.

O meu conto favorito foi Órgão independente, que conta a história de um médico independente e mulherengo, que não consegue criar conexões sérias com nenhuma das muitas mulheres com quem se envolve. Até que ele se apaixona por uma jovem casada e, ao ser rejeitado, deixa de comer até morrer de inanição. A história é exagerada quando se conta, mas a forma com que o Murakami apresenta esse personagem e a dor dele é bastante real, especialmente porque nada é muito explicado, já que nosso ponto de vista é exterior, estamos vendo tudo do ponto de vista de outro personagem e não do médico que vê seu amor (ou a falta dele) ser transformado em uma doença fatal.

Essa ideia de que a falta de conexão pode te matar (ou te fazer sumir, virar nada, desaparecer de repente) me parece um tema que deve atormentar bastante o Murakami e ele escreve sobre isso como ninguém mais.

E imagino, a meu modo, como é ser o homem mais solitário do mundo. Eu já sei como é ser o segundo homem mais solitário. Mas ainda não sei como é ser o homem mais solitário do mundo. Há um abismo entre ser o segundo mais solitário e o mais solitário do mundo. Possivelmente. Ele não é só profundo. É assustadoramente largo. Tão largo que há, no fundo do abismo, um monte alto formado por cadáveres de pássaros que não conseguiram atravessar de uma ponta à outra e caíram.

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