Eu o conheci, Horácio. Um companheiro de graça infinita.

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Seis meses dos 12 que tive em 2015 foram dedicados à enorme piada contada por David Foster Wallace em seu mais famoso livro, Graça Infinita, um tijolão de mais 1000 páginas considerado a obra prima desse autor, e sobre o qual não consegui falar direito até agora. E, mesmo agora (seis meses depois de ter lido, por acaso) não sei se vou conseguir falar “direito”. Aliás, eu não sei se alguém já conseguiu falar direito sobre esse livro, nem mesmo o próprio David Foster Wallace.

O nome original do livro é Infinite Jest, mas ‘Jest’ não tem tradução para o português e, no fim de muito debate (explicado no vídeo abaixo pelo próprio tradutor da obra) foi decidido chamar de Graça Infinita. Jest é uma piada, uma graça, um xiste, uma tiração de sarro, zombar de alguma coisa. E é isso que David Foster Wallace faz nas muitas páginas da obra. Mas isso não quer dizer que, por ser uma enorme (infinita) piada, o livro não deve ser levado a sério: alguns assuntos são tão complexos, tão pesados e tão tristes que a única forma de se falar sobre eles é rindo.

Ok. Vamos partir para a história (SEM SPOILERS). O problema aqui é existem uns 5 livros diferentes dentro desse livro, o que dificulta um pouco esse negócio de resumir o plot, mas vou tentar fazer de uma maneira simples. Quase. O quanto der.

O arco principal do livro gira em torno da família Incandenza, composta por uma mãe e três filhos. O pai está sempre presente também, apesar de ter matado antes da história do livro começar. A família Incandenza é dona de uma escola infantil e juvenil de tênis, local que é cenário para grande parte do livro, onde vive a mãe e os dois filhos mais novos. O caçula da família, Hal Incandenza, deu um salto gigantesco em suas habilidades de tênis no último ano e, durante o livro, ele se encontra no auge de seu jogo, ao mesmo tempo em que esconde um vício em drogas e uma profunda depressão de todos ao seu redor.

Outra grande parte do livro se passa na casa de recuperação para viciados Ennet (e em várias outras instituições de mesmo objetivo). Aqui, a gente acompanha o dia a dia de pessoas com sérios problemas. São, na minha opinião, as partes mais pesadas do livro. É muito, muito triste e cru, muitas vezes é impossível ler durante muito tempo, justamente porque o assunto e a situação que aquelas pessoas viveram e ainda vivem é de revirar o estômago.

Um terceiro foco de Graça Infinita é num grupo terrorista e separatista chamado Assassinos de Cadeiras de Rodas. Contexto: o livro se passa num futuro em que o EUA se juntou ao Canadá e ao México formando a Onan (Organização de Nações Norte-Americanas), mas acontece que grande parte do lixo tóxico produzido por toda a região acabou indo parar no Canadá, mais precisamente na província de Quebec e, por isso, esse grupo (sim, formado por assassinos em cadeiras de rodas) quer se separar da Onan.unendlicherspasubersicht

Até aqui, acho que tá tudo bem. Você deve estar se perguntando aquela questão básica: como essas histórias se ligam? Bem, aí vem o título do livro. Além de ter fundado a escola de tênis, James Incandenza (pai do Hal) era um cineasta de vanguarda. Um de seus trabalhos se chamava Graça Infinita, e foi o resultado de uma busca pelo entretenimento perfeito, aquele filme que iria suprir toda e qualquer necessidade de prazer do ser humano. A consequência disso foi uma obra que tira toda a vontade da pessoa de fazer qualquer outra coisa que não seja assistí-la. Quem vê Graça Infinita não quer fazer mais nada, não consegue fazer mais nada: não come, não dorme, não usa o banheiro, não conversa, não vive. Essa apatia, claro, acaba levando à morte. O objetivo dos Assassinos de Cadeiras de Rodas é conseguir a fita master do filme e usar como arma contra todo o território dos EUA, num ataque terrorista um tanto irônico: a nação americana seria morta pela sua necessidade de prazer individual, aquela mesma que fez com que ninguém se importasse com as consequências que seu estilo de vida teria para os outros, o que acabou levando a criação do grupo terrorista em primeiro lugar.

O filme é o objeto que liga todas as histórias aparentemente desconectadas. Mas ele é também a grande piada do autor, uma vez que apesar de toda a importância dada à ele, David Foster Wallace está somente usando o filme como desculpa para contar a história de seus personagens e fazer comentários ácidos sobre uma sociedade cada vez mais centrada na ideia de que tudo o que acontece é sobre mim, eu sou o centro do universo e o meu prazer é a prioridade do mundo.

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Tudo o que eu escrevi até agora não é nem 1% do livro. Não tem nem um pingo da complexidade das histórias, das ideias, da narrativa. Esse não é um livro fácil. Não é um livro que você pode ler com metade da sua atenção. Em primeiro lugar, o livro é muito pesado e desconfortável de ler, é um trabalho enorme só segurar e virar as páginas desse calhamaço. Em segundo, David Foster Wallace usa aquilo que virou sua marca: notas de rodapé. São muita, mais de 200 páginas de notas de rodapé, que obrigam você a ir e voltar no livro (usar mais um marcador de página é essencial), e algumas momentos elas servem para tirar sarro de você, que está tendo todo esse trabalho, e em outros elas são parte essencial da narrativa, esquecendo que são notas e se tornando capítulos inteiros.

Mas nada disso é ruim. Pode ser ruim se você está procurando um livro para passar tempo e se divertir. Se você quer isso, não leia Graça Infinita. Nem chegue perto. O livro é justamente um trabalho contra essa ideia de que nós precisamos nos divertir em tudo o que fazemos o tempo todo, um tratado de mais de 1000 páginas para explicar que essa forma de viver, priorizando o seu prazer e divertimento acima de todas as outras coisas, é tóxica não só para ao mundo ao seu redor, mas também para você: te escraviza, te lobotomiza e pode acabar te matando.


Pra não sair do tema, vou compartilhar um clipe da banda The Decemberists baseado em Graça Infinita. O clipe é um jogo  Eschaton, muito famoso entre os jovens tenistas do livro, em que as quadras são transformadas em um planeta em guerra. O capítulo totalmente dedicado a descrever e explicar o jogo foi um mais divertidos (e confusos) do livro.

 

 

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4 thoughts on “Eu o conheci, Horácio. Um companheiro de graça infinita.

  1. Nossa!!!! Adorei tudo! Mas acho que vou deixar pra depois que eu conseguir alcançar a meta mínima de 24 livros por ano 8D Pq é certeza que ele vai me atrasar! HUAHUAUHAUHAUH XD

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