Cicatrizes: a guerra muda tudo

12357168_1654785204781489_3030054401779749298_o

Eu continuei a assistir X Company, depois de ver o episódio piloto, porque os personagens sentiam como pessoas de verdade. Quando pensamos em espiões, muitas vezes a ideia que vem à cabeça é de um super-herói: alguém que não se deixa abater, que tem todas as respostas, que está preparado para o imprevisível e que consegue manter suas diferentes máscaras em todas as situações que se encontra. O problema em vender X Company como uma série de espionagem é que ela vai contra tudo isso. Sim, nós acompanhados cinco espiões em diferentes missões durante a Segunda Guerra Mundial, mas é seria muito mais correto dizer que é uma série as diferentes formas que uma guerra pode afetar as pessoas. Acho que não é tão bom para o marketing, mas com certeza esse segundo contexto traz histórias mais interessantes.

Todo mundo concorda que o começo da série não foi lá dos melhores. Ainda que os episódios, separados, fossem muito bons, era um pouco estranho que o formato fosse ‘missão da semana’ num universo como a Segunda Guerra Mundial. De certa forma, funcionou para apresentar os personagens e o universo, mas não existe a menor dúvida que a série subiu de nível mais para o final da primeira temporada, quando o formato foi abandonado e trama maior começou a ser o foco dos episódios. Desde o começo, no entanto, X Company tem um elenco excelente e personagens bem construídos que você facilmente se apega e pelos quais acaba torcendo, e quando a deixou de lado o formato ‘missão da semana’ foi como se liberasse os personagens para sentir e serem o tempo todo e não só quando eles fossem o foco do episódio. E, claro, as experiências vividas por eles (normalmente ruins) são carregadas para outras missões, como cicatrizes.

A guerra muda tudo. É o que X Company está querendo nos dizer, se comparar o começo da primeira temporada com esses dois episódios já exibidos da segunda. O grupo de espiões começou tão idealista, fresco e até ingênuo, de mãos limpas e corações leves (na medida do possível para um guerra). E, agora, eles estão todos quebrados e marcados pelo que viveram. Ainda que mais experientes e competentes que no começo, eles começaram essa segunda temporada ainda menos heróis do que antes. São só pessoas tentando se manter inteiras numa situação desumana.

tumblr_inline_o1qcespvz11t0xl3o_1280

Duas histórias me impressionaram bastante nesses primeiros episódios. A do antagonista, Faber (um dos vilões mais interessantes que vi na tv nos últimos tempos) que teve a sua vida pessoal completamente destruída no fim da temporada passada, quando um subordinado seu descobriu que ele escondia um filho com Síndrome de Down. Pra evitar que o pequeno Ulli fosse morto pelo regime nazista, o próprio Faber sufocou o filho, no momento mais forte da primeira temporada inteira que meio dá o tom para essa segunda temporada (muito mais pesada e muito mais escura). É impossível não gostar do Faber, ainda que ele cometa ações monstruosas, você ainda se pega torcendo por ele quando, num momento que já estava se escrevendo faz tempo, ele consegue descarregar toda a sua raiva pelo que precisou fazer com o filho. O ator, Torben Liebrecht, é brilhante.

A outra história que me tocou foi a do René, personagem dado como morto no primeiro episódio da série, revelado vivo no fim da primeira temporada, e que apareceu agora preso e totalmente destruído depois de ter passado 3 meses sendo torturado pelos nazistas. Ele era o líder do grupo, o herói da resistência, aquele que todos os outros viam como exemplo. E, agora, ele não é nem mais um rascunho do que era. Quase sem voz, sem vontade algum de viver, sem dignidade, sem esperança. Ele é usado pelos nazistas para tentar fazer Alfred, um dos protagonistas da série, falar. Enfiam vidro nele, colocam um pano molhado de gasolina em sua boca e ameaçam tacar fogo, são cenas tão fortes que é difícil de assistir. Ainda mais porque o Alfred é um dos personagens mais sensíveis da série e dói ver ele sofrer em ter que deixar o René sofrer. Eles trabalharam muito bem juntos, Jack Laskey e o François Arnaud. No fim do episódio, quando o grupo de espiões consegue tirá-los de lá, é ainda mais triste ver como René se envergonha do que se tornou e pede que nenhum deles (especialmente Aurora, que era sua namorada antes de ter sido dado como morto) olhe para ele, e depois, desaba chorando no colo do Alfred.

Não tem como romantizar essas coisas. Não tem como tratar uma guerra como algo que transforma as pessoas em heróis, super-espiões prontos para qualquer coisa. Uma guerra destrói as pessoas, até as que sobrevivem. Acho essa é a verdadeira força de X Company e onde eu espero que eles foquem a narrativa: ninguém ganha uma guerra, todo mundo termina em pedaços, tentando juntar os cacos.


 

Sobre o que estou assistindo: Eu adoro Supergirl, de verdade. Quando comecei a ver, foi mais por uma completa falta de heroínas na mídia e uma vontade de apoiar as que aparecessem. Acabei gostando muito. Já disse que eu queria muito que esse seriado tivesse existido quando eu era criança, teria feito muito bem para mim e eu fico muito feliz em ler relatos de meninas empolgadas, assistindo, e se enxergando numa personagem tão importante quanto a Supergirl. Meu único ponto de interrogação é: o que eles estão fazendo com o Jimmy Olsen? Sério?! Eu não estou entendendo. Ele começou num papel de mentor, já que viveu a trajetória do Superman e sabe bastante coisa sobre ele e os vilões. Ao mesmo tempo, ele era um dos interesses amorosos em potencial da Supergirl. Agora, ele perdeu o espaço para outros personagens mais interessantes que cumprem as funções dele muito melhor que ele mesmo, e o personagem ficou bem mais ou menos: ele mais ou menos gosta do serviço, ele mais ou menos gosta da Supergirl, ele mais ou menos gosta da namorada oficial, ele mais ou menos ajuda contra os vilões. Eu não sei o que ele quer, qual a função dele e nem o que os roteiristas estão querendo fazer com o personagem. O que é uma pena, de verdade. Eu achei muito bacana a adaptação do personagem clássico para um mundo mais moderno, mas perdeu completamente a função na trama.

Sobre que estou escutando: Me deu vontade de escutar Arcade Fire esses dias e foi só colocar os fones para lembrar do shows deles aqui num dos Lollas passados. Putz, eu queria de novo. Foi um dos melhores shows que já vi, ainda mais porque conseguimos ficar num lugar excelente e eles tocaram a minha música favorita deles, que é uma das maiores inspirações pra o meu romance. Vou colocar ela aqui embaixo.

Advertisements
Tagged , , , , , , , , , , , ,

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: