Sufocar com pêssego em calda no asilo

Passei da metade do livro O pintassilgo, da Donna Tartt e, quando eu menos esperava, surgiu uma parte focada nos pensamentos, ideias e sentimentos do narrador-protagonista que eu gostei muito. Li umas três vezes, não só pra entender, mas porque achei muito poderoso (tanto pelas ideias, quanto pela forma com que foi escrito). Vou compartilhar aqui não só pra mais pessoas lerem, mas também para guardar para algum outro momento (livro muito grande, não tem como achar as coisas folheando).

Mas depressão não era a palavra certa. Aquilo era um mergulho que encerrava tristeza e repulsa muito além do pessoal; uma náusea doentia e encharcada contra toda a humanidade e todo o esforço humano desde o princípio dos tempos. A repugnância sofredora da ordem biológica. Velhice, doença, morte. Ninguém escapava. Até os belos eram como frutas macias prestes a estragar. E mesmo assim de alguma forma as pessoas ainda continuavam fodendo e se reproduzindo e atirando nova forragem no túmulo, produzindo mais e mais novos seres para sofrer desse jeito como se fosse algo redentor, ou bom, ou até moralmente admirável: arrastando mais criaturas inocentes para o jogo em que se perde de um jeito ou de outro. Bebês se contorcendo e mamães complacentes e drogadas arrastando os pés. Ah, ele não é uma gracinha? Ohh. Crianças gritando e escorregando no parquinho sem a menor ideia de que infernos futuros as esperam: empregos maçantes, hipotecas desastrosas, casamentos ruins, perda de cabelo, prótese de quadril, xícaras solitárias de café numa casa vazia e uma bolsa colostomia no hospital. A maioria das pessoas parecia satisfeita com o fino esmalte decorativo e a ardilosa iluminação de palco que, às vezes, fazia a atrocidade intrínseca de a desagradável situação humana parecer de certa forma mais misteriosa e menos repugnante. As pessoas apostavam, jogavam golfe, plantavam jardins, negociavam ações, faziam sexo, compravam carros novos, praticavam ioga, trabalhavam, rezavam, redecoravam a casa, ficavam abaladas pelas notícias, preocupavam-se com os filhos, fofocavam sobre os vizinhos, debruçavam-se sobre críticas de restaurantes, fundavam instituições de caridade, apoiavam candidatos, iam ai U.S. Open, jantavam, viajavam, distraíam-se com todo o tipo de dispositivo, atolando-se incessantemente com informações, textos, mensagens, entretenimento vindo de todas as direções para tentar se forçar a esquecer: onde estamos, o que somos. Mas sob a luz forte não havia como disfarçar as coisas. Aquilo estava podre da cabeça aos pés. Dedicar seu tempo ao escritório; gerar obedientemente sua prole de dois ou três; sorrir educadamente na festa de aposentadoria; mastigar lençóis e sufocar com pêssego em calda no asilo. Era melhor nunca ter nascido – nunca ter desejado nada, nunca ter esperado nada.


 

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A inesperada virtude da ignorância

Um ano atrasada, eu sei, mas finalmente assisti Birdman e fiquei realmente encantada. Esse tipo de história, o tema ‘vamos acompanhar a destruição psicológica de um artista’ me atrai bastante (Cisne Negro é um dos meus filmes favoritos da vida) e também estava curiosa porque eu sabia de toda a experimentação com takes enormes e cortes bem sutis que não dá para perceber que é corte, o que passa a impressão de que o filme inteiro é uma coisa só. A melhor parte, no entanto, foram os diálogos. Acho que é porque estou estudando diálogos no momento, então ando prestando bastante atenção nessa parte das histórias que leio/assisto/escuto, e em Birdman (também por conta das atuações excelentes), a impressão que dá é de realmente estar assistindo pessoas conversando. Acho que é sempre assim quando a história é realmente boa: os momentos de realidade que todos nós podemos ver e nos identificar acabam dando a força necessária para que as experimentações não soem falsas e desnecessárias.


 

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Sobre o que estou assistindo: Comecei a assistir ontem a série Mozart in the Jungle, da Amazon. Eu nem sabia que existia! Nem tive dúvidas para começar a ver porque: Gael Garcia Bernal e Malcolm McDowell interpretando maestros numa série sobre o universo da música clássica. Não tinha como não ver. Estou na metade da primeira temporada (são episódios curtos) e gostei bastante do que vi até então. Os personagens são tridimensionais e agem como pessoas, o que é sempre bom (e deveria ser mais frequente). O mais bacana é que a série não usa aquele trope do personagem outsider que não conhece nada sobre aquele universo e aí os outros vão ensinando tudo, sendo tudo apenas uma maneira de inserir o telespectador no assunto. Ao contrário, todos os personagens são músicos e usam a linguagem daquele universo sem se preocupar fazer exposição. Apesar disso, o roteiro é bom o bastante para não deixar boiando quem não conhece nada do assunto.

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