Luto, Havana e democracia

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Terminei de ler recentemente o livro O Pintassilgo, da Donna Tartt. Um pouquinho do plot: o menino Theo mora com sua mãe em Nova York e, um dia, para matar o tempo antes de um compromisso dos dois na escola, eles resolvem ir num museu. Acontece que, por muito azar, o museu é alvo de um ataque terrorista bem quando ele estão quase indo embora. Theo sobrevive, mas sua mãe, não. A partir daí, acompanhamos a jornada dele através do luto e de mudanças extremamente drásticas em sua vida.

Eu realmente gostei do começo do livro. Normalmente tenho um pouco de preguiça de narração em primeira pessoa, especialmente porque acho muito difícil dar certo de verdade, mas uma autora tão boa assim consegue desde o começo nos convencer da escolha pela maneira segura e verdadeira que constrói seu narrador-personagem. Outro ponto que me pegou foi o quão bem a questão do luto é tratada. A passagem do tempo e como isso vai transformando a dor do personagem tem o ritmo perfeito, em nenhum momento parece arrastado ou mesmo pesado demais, e muito menos apressado ou “passando por cima” dos sentimentos que precisam estar ali. O cotidiano do Theo com a família que o acolhe também me encantou muito. É aquela coisa contraditória: eles te tratam tão bem que você se sente mal, eles querem tanto fazer você se sentir parte da família que você nunca consegue se enxergar como outra coisa senão um intruso.

A vida dele com o pai negligente e o amigo “má-influência” me pareceu mais clichê que o começo, mas a complexidade dos personagens faz que com que você até esqueça isso. Eu realmente gostaria que ela tivesse explorado melhor os sentimentos do Theo em relação ao Boris, porque ele estava claramente apaixonado e isso seria algo bem grande para um menino naquela idade, grande o suficiente para ele pelo menos se questionar internamente (ainda mais por conta da narração em primeira pessoa). Quando mais uma morte trágica acontece, eu comecei a revirar os olhos um pouco. Eu não sou muito chegada no uso de morte para avançar o plot, especialmente se são várias e não estão sob o controle dos personagens. Mas, por causa dessa morte, podemos ler um dos melhores momentos do livro: o Theo voltando para NY sozinho, de ônibus, com um cachorrinho. Gostei bastante desses momentos.

Depois tem o salto temporal e foi aí que o livro me desanimou. Eu gostava muito de estar vendo todas essas situações tensas (terrorismo, morte, alcoolismo, drogas) pelo ponto de vista do Theo adolescente, e muito daquela visão diferente se perdeu quando ele cresceu. Achei o final muito arrastado e um tanto desnecessário. Eu enxergava o quadro como um símbolo, ele guardando a sua vida que teve antes da morte da mãe, e quando ele começou a ser foco das ações, achei que perdeu a força. Mas, pesando tudo, é um livro muito bem escrito com uma história interessante sobre perda, luto, depressão e a tentativa de se recuperar e se reerguer mesmo quando você é chutado para o chão uma, duas, três, quatro, incontáveis vezes seguidas.


Outro livro que li recentemente foi Nunca Vai Embora, do Chico Mattoso. Ele faz parte da coleção Amores Expressos. O Chico Mattoso foi mandado para Havana, em Cuba, por um mês com o objetivo de escrever uma história de amor que se passa na cidade. O resultado é um livro bem pequeno (120 páginas eu acho) com um ritmo bem rápido, que não dá muito trabalho de ler. Eu gostei, mas não muito. Conta a história de um dentista frustrado, que decide largar a clínica e acompanhar a namorada, uma aspirante à cineasta, numa viagem à Havana. Ela vai para fazer um documentário sobre a cidade, ele vai porque não aguenta sua vida e também porque é bem obsessivo por ela e não quer perde-la. Só que a relação deles começa a se despedaçar logo no começo da viagem, como se a cidade tivesse os afastando. Depois de uma briga feia, ele acorda de manhã e vê que a namorada sumiu e levou todas as coisas. A partir daí, o livro se transforma numa coisa meio investigativa e paranoica, porque o personagem é convencido por uns cubanos de que a namorada deve ter sido sequestrada e não simplesmente ido embora.

É um livro bem escrito e descrevendo a história agora, me parece bem mais interessante do que realmente é. O negócio do personagem realmente acreditar que a namorada foi levada ao invés de ter ficado de saco cheio dele não me convenceu muito e, por isso, acabei não comprando a segunda metade do livro. A primeira metade, no entanto, em que mostra como a relação deles está se desfragmentando e como eles parecem incapazes de se conectar, é bem bacana. Eu gostei, especialmente, do cinismo do personagem quando vê a namorada e seus amigos artistas em conversas rococó sobre cinema, documentários, arte.


Sobre o que estou jogando: Estava bem curiosa, aí comecei a jogar Democracy 3, um jogo em que você é presidente/primeiro-ministro de algum país e precisa resolver os problemas e impor a sua visão através das leis, dos incentivos, políticas, etc. Ainda não aprendi direito como funciona o negócio (além de não ter conseguido instalar os negócio pra ter mais países e mais ações), mas na logo na minha primeira tentativa (presidenta dos EUA) fui assassinada por extremistas religiosos. Tá certo.

 

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