Nem super e nem heroína

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Hoje é começa a quarta temporada de um dos melhores seriados que, infelizmente, poucas pessoas assistem da atualidade: The Americans. Eu comecei a ver no começo do ano passado, quando estava muito empolgada com essa ideia de espionagem, acabei encontrando a série na Netflix e, logo no episódio piloto, me apaixonei.

The Americans é uma história sobre espionagem, mas também sobre família (mais especificamente, como ser e manter uma família). Ela foi inspirada em casos reais de espiões da União Soviética que folham plantados nos EUA e viviam como americanos (com empregos, famílias, etc.) na intenção de descobrir informações que ajudassem a Mãe Rússia durante a Guerra Fria. Quando começamos a acompanhar a vida de Elizabeth e Phillip Jennings, eles já estão nos EUA há bastante tempo, são donos de uma bem sucedida agência de viagens e  pais de dois filhos (uma menina adolescente e um garotinho mais novo). Ao mesmo tempo em que realizam as missões que lhes são passadas, eles se esforçam para manter uma vida de fachada que, depois de tanto tempo, não tinha como não se tornar uma vida de verdade.

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Minha personagem favorita do seriado é a Elizabeth Jennings, interpretada brilhantemente pela Keri Russell. Ela é tão diferente do que costumamos ver em personagens femininas em seriados (e filmes também, ficção em geral) que nem dá para achar um termo (ou trope) em que ela se insira. Comparando com as outras séries que assisto, eu consigo achar algumas similaridades com duas personagens: Claire Underwood (House of Cards) e Jessica Jones (Jessica Jones). O que eu vejo de parecido nas três personagens é que nenhuma delas tem as características clássicas usadas para tornar as personagens ‘gostáveis’ para o público. Mas apesar de algumas similaridades, as diferenças tornam impossível dizer que Claire e Jessica estão no mesmo ‘tipo’ de personagem que Elizabeth.

Sim, Jessica Jones é grossa, foge de responsabilidades e afasta todas as pessoas que tentam ajudá-la, mas ela é uma heroína (ou melhor, uma anti-heroína). Todas as características ‘desgostáveis’ dela se tornam pequenas perto das ações heroicas que ela toma (mesmo que ela mesma não as enxergue como tal). No caso da Claire é mais complicado, porque ninguém em sã consciência vai chamar essa personagem de heroína. Ela é manipuladora, egoísta e cruel. Mas existe um truque pra fazer um personagem “mau” se tornar “menos mau”: mostre alguém pior que ele. Em comparação com o marido, Claire se torna humana. Sim, ela tem um milhão de características desgostáveis, mas Frank Underwood é apresentado como alguém um milhão de vezes pior, o que nos faz criar empatia com a esposa por comparação.

Elizabeth Jennings não é uma heroína como Jessica Jones. E, ao contrário de Claire Underwood, ela não tem um marido ‘pior’ que ela para que pareça, por comparação, mais gostável. Ao contrário, na verdade: desde o piloto, Philip Jennings é a parte emocional do casal. Apesar de ter começado como um disfarce, ele valoriza mais a família do que a Rússia. Quando ele propõe para Elizabeth que eles tentem algum acordo com os EUA, se entregando e entregando todo o esquema sob a condição de poderem viver ali com proteção do FBI, ela pergunta se ele está brincando e depois deixa o pessoal que os monitora ficar sabendo das dúvidas que tem quanto a lealdade do marido à Pátria Mãe.

Claro que, como acontece em toda boa história serializada, ela vai mudando aos poucos. Evoluindo de acordo com as situações em que é colocada. Mas, ainda que acompanhemos ela se tornar menos dura ao ao longo das temporadas (mostrando que se importa com Philip e os filhos, ao menos), na última temporada nós vemos ela ativamente trabalhar para recrutar a filha mais velha como espiã para a Rússia, ainda que Philip seja completamente contra.

O que eu quero dizer com tudo isso é que The Americans não faz o mínimo de esforço para facilitar a relação do espectador com Elizabeth Jennings. Eles não se preocupam em tornar as decisões e ações dela empáticas. É possível compreender o ponto de vista dela, mas entender racionalmente é diferente de sentir. O mais notável é que, apesar de tudo isso, é impossível não amar essa personagem. Pensando melhor, eu acredito que seja exatamente porque The Americans se recusa a tornar Elizabeth Jennings uma personagem “gostável” que ela se tornou, como eu li numa certeira crítica recente, alguém impossível de não amar.


 

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Supergirl

O episódio dessa semana de Supergirl foi o melhor da série até agora. Seguindo a já tradição de pegar elementos de Superman, nessa semana vimos a prima dele ser afetada pela Kryptonita Vermelha que, basicamente, faz com que eles se tornem uma versão má de si mesmos. É estranho falar isso, mas Supergirl foi a melhor vilã de Supergirl até agora. Ajudou o fato de que a atriz, Melissa Benoist, é ótima e conseguiu vender a transformação da personagem com naturalidade, claro, mas a melhor parte foi o incomodo em ver alguém que deveria representar o certo e o bem, se tornar… humano.

Claro que foi tudo exagerado, senão não seria seriado de televisão: ela não só falou umas verdades cruéis na cara de todo mundo e mostrou características não muito nobres como egoísmo e soberba, mas também deixou inimigos escaparem, jogou gente de cima de prédios e saiu explodindo carros por aí. A maior qualidade do episódio, pra mim, foi o fato de que até quando ela estava sendo particularmente cruel (a cena com a Alex foi dolorosa), as coisas que a Supergirl “do mal” falava não eram mentiras! Ela estava se divertindo com o sofrimento dos outros e jogando verdades na cara deles da maneira mais sincericída possível, mas aquilo vinha de um lugar verdadeiro, eram sentimentos que ela já tinha tido e reprimido, só podendo soltá-los numa situação como essa. Ela não tem o direito de ser má, nem um tantinho má. Quando voltou a si, ela se sentiu terrível por tudo o que fez e a pior parte é que tudo aquilo não veio do nada, estava dentro dela o tempo todo e a kryptonita vermelha só ajudou a liberar.

É bem legal um seriado explorar isso. Fazer com que a heroína se torna sua própria inimiga. Porque a própria Supergirl sabe que, no momento em que ela decidiu vestir a capa, ela perdeu o direito de ser humana e cometer erros que as pessoas cometem. Como a chefe dela diz em uma das melhores cenas do episódio: você não tem o direito de ser multidimensional, você é uma heroína e precisa ser um símbolo do que existe de bom no mundo para poder dar esperança para as pessoas.

Achei me lembrando de um artigo sobre isso que li recentemente no site The Mary Sue, sobre como nós precisamos de personagens como a Supergirl porque, mesmo que pareça irreal o fato de ela sempre fazer o que é certo e influenciar os outros a tomar o caminho mais nobre, a ficção tem o poder de inspirar as pessoas. Nós precisamos ver histórias que mostram não o que somos, mas o que poderíamos ser.


 

Sobre o que estou jogando: Terminei o primeiro jogo do Fire Emblem Fates! Eu acho que já tinha comentado que jogaria primeiro Birthright, e foi o que eu fiz. Gostei muito. Além de ser mega divertido (como um jogo precisa ser), a história foi muito bem feita e os personagens originais e carismáticos (uma das maiores diversões do jogo ainda é servir de cupido entre eles e montar os casais mais estranhos que der). Agora, vou começar a jogar o segundo caminho: Conquest. Parece que é um pouco mais difícil que Birthright, pelo que li em comentários, e mais “dark” também. Já era de se esperar porque, como escrevi recentemente no twitter, em Birthright você trai uma família que te ama para fazer o que é certo, enquanto em Conquest você trai seus princípios para manter a família que te ama. Depois desse, tem o Revelation, um terceiro caminho em que você não escolhe nenhum dos lados e tenta parar a guerra ‘de fora’. Vai ser impossível parar até jogar tudo. Sabe que, quando fiquei sabendo que iam ter um milhão de Fire Emblem novos, eu achei que estavam querendo apenas ganhar nosso dinheiro. Agora, eu acho isso também! Eles querem que a gente compre todas as versões para ganhar bastante dinheiro, mas pelo menos eles nos deram motivo para jogar todas as versões. Duvido alguém jogar um dos caminhos e não ficar curioso para saber quais rumos a história tomaria se tivesse escolhido outro.

 

 

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