A origem do tédio

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Quando eu era criança, o meu desenho animado favorito era o Batman. Eu e minha irmã tínhamos fitas reservadas especialmente para gravar e colecionar cada um dos episódios (que passavam na Warner). Até hoje me lembro perfeitamente de momentos como o encontro da Arlequina e da Hera Venenosa e aquele episódio em que todos os vilões se juntam pra jogar cartas e contar como ‘quase pegaram’ o Batman. Assistir aquele desenho animado era um ritual para mim e minha irmã. Antes disso, a gente assistia o desenho dos X-Men (aquele clássico bem anos 90) e eu lembro também de gostar bastante do seriado Lois & Clark quando passava na televisão (lembro de ver com a minha mãe, mas não de detalhes de plot ou episódios porque eu era bem pequena).

Enfim, essa introdução teve como objetivo dizer que histórias de super-heróis fizeram parte da minha vida desde muito pequena. Eu não lembro de ler muitos quadrinhos com eles (li mais X-Men quando um pouquinho mais velha, pré-adolescente, por influência de um amigo que era muito fã), mas essas histórias sempre me empolgaram muito. Hoje em dia, dois dos meus seriados favoritos são Jessica Jones e Supergirl (e adoro os dois exatamente por suas diferenças entre si). Os dois primeiros filmes da trilogia original do X-Men estão entre meus favoritos do gênero (gostei muito do Primeira Classe e do Dias de um Futuro Esquecido também, o terceiro X-Men achei bem ruim). Mas eu acabei não entrando muito nessa onda de filmes de heróis da atualidade porque cresci e comecei a aprender sobre o feminismo e como é importante ter representações femininas em obras de ficção, e a falta dessas personagens na maioria desses filmes me incomoda profundamente (quando tem, normalmente é uma só, tipo síndrome de smurffete, mas isso é assunto para outro dia).

Aí anunciaram que a Mulher-Maravilha ia estar no filme Batman v Superman e pronto, eu já sabia que eu ia precisar assistir. E eu fui na última sexta-feira da seguinte forma: com as expectativas lá embaixo e com o único desejo de ver a Diana Prince. Só. E, ainda assim, saí do cinema quase derretendo de tédio e chatice.

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Até agora, estou me perguntando como é que os responsáveis conseguiram transformar um filme de super-herói num troço tão chato. Chato no sentido clássico da palavra. Até as lutas não tinham graça ou uma pontada de diversão. São 2 horas e 40 minutos acompanhando dois personagens aborrecidos, afogados em pena de si mesmos e sem motivação que justifique as ações que tomam. Sem contar as histórias paralelas completamente desnecessárias, como a da Lois Lane e a introdução vergonhosa dos futuros integrantes da Liga da Justiça. Falando em vergonha, quanta vergonha alheia é possível sentir por um ator? Porque eu acho que cheguei no pico vendo a performance do Lex Luthor. Até agora não consegui entender: a) por que ele queria tanto destruir o Superman; b) como foi que alguém não avisou para o ator e o diretor que não estava dando certo.

Entre as coisas que deram certo eu achei interessante a ideia do Superman virar uma figura religiosa, uma pena que isso foi explorado apenas por cenas em que ele é venerado e diálogos bobos como “deus contra o homem”. Ao mesmo tempo, fico me perguntando como é que ele conseguiu inspirar tanta devoção. Porque o Superman do Henry Cavill está muito longe de ser uma figura inspiradora, que serve como exemplo e símbolo de como as coisas deveriam ser e não de como ela são. Ele não é a sombra do herói perfeito que deveria ser, e isso não é porque ele foi humanizado e tem conflitos sobre suas próprias ações e sua moral, é porque ele é só um chato mesmo. Gostei bastante do Alfred desse filme também, o que pode parecer algo estranho de se falar, mas o fato é que o Bruce Wayne do Bem Affleck é uma figura tão sem graça e com tantas birras infantis, que o Alfred (por dar impressão de estar fazendo por obrigação ao mesmo tempo em que revira os olhos para os mimimis do patrão) acaba se sobressaindo.

E, apesar de ter uma participação minúscula, a Mulher-Maravilha não me decepcionou. Aliás, ela parece ser a única pessoa do filme com uma motivação clara (apesar de ser completamente desligada da trama principal, o que é um problema já que o filme tem histórias paralelas demais) e que mostra algum sentimento de diversão e graça. A impressão que eu tive foi que ela estava vendo aquela briguinha dos dois da mesma forma que nós: algo tão idiota que não valia a pena prestar atenção. Aliás, ela só resolve ajudar quando a situação fica realmente feia. Lá na luta final, quando percebe que o horroroso e aleatório monstro de CG vai ser um inimigo difícil de derrotar, ela dá um sorriso meio “isso vai ser divertido” e, automaticamente, se torna uma personagem mais carismática em comparação com os dois chatões que lutam ao seu lado.

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Teria sido muito bacana ver o filme comparando os métodos do Superman e do Batman, a moral dos dois personagens e como, apesar das diferenças, os dois tentam fazer o que acreditam que é certo da forma que acham correta. Teria sido bacana ver uma discussão sobre ações e consequências. Teria sido bacana ver um filme que não parecesse estar todo mundo se desculpando por ser um filme de super-herói, tentando enfiar temas mal trabalhados como uma forma de esconder a vergonha por seus protagonistas usarem fantasias para lutar contra o mal. Algo um pouco menos pretensioso do que aquelas 2 horas e 40 de masturbação pseudo-psicológica que, no fim das contas, não serviu para absolutamente nada, uma vez que o conflito foi resolvido com uma palavra: Martha. Sim, no final, a batalha entre Superman e Batman foi resolvida pela coincidência da mãe dos dois ter o mesmo nome. Não, eu não estou zoando. Foi isso mesmo.

Podem ficar com suas Ligas da Justiça, seus Batmans e seus Supermans. Já decidi que os únicos filmes do gênero que vou me dar ao trabalho de ver no cinema serão Mulher-Maravilha, Capitã Marvel e X-Men. E, depois desse trauma, sempre cruzarei os dedos para que sejam, no mínimo, divertidos.


 

Ps: O crossover de Supergirl e The Flash é o antídoto perfeito para quem estiver sofrendo de nhaca pós Batman v Superman. De nada.

 

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