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Mais Alices

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Todo mundo que me conhece, mesmo que de passagem, sabe o quanto as duas Alices do Lewis Carroll são importantes na minha vida. Li os dois livros quando adolescente e, desde o primeiro momento, fiquei fascinada por tudo nas obras (desde a liberdade imaginativa até a construção da linguagem). Durante a faculdade, minha iniciação científica foi sobre Alice, meu TCC foi sobre Alice e sempre que pude, usei esses livros como tema para outros trabalhos. Meu amor por essas obras é tão grande que está mais para adoração (algumas pessoas diriam obsessão), mas fica complicado deixar de pesquisar, estudar e querer aprender mais sobre algo tão múltiplo e infinito quanto esses dois livros. Além deles também tem as milhares de interpretações diferentes vindas de outros artistas (escritores, desenhistas, músicos, cineastas), e que sempre trazem algo de interessante porque é legal qual a interpretação de alguém sobre um obra tão gigante.

Na última semana teve a estreia de Alice Através do Espelho, continuação do Alice no País das Maravilhas do Tim Burton de alguns anos atrás. Esse novo filme só tem a produção do Burton, o diretor é outro mas o elenco é o mesmo e, em teoria, seria uma adaptação do segundo livro. Quando foi anunciado, eu fiquei me perguntando como seria, uma vez que o primeiro filme usou muitos elementos do Através do Espelho e o que Alice Encontrou Lá (nome do livro original), além de ter mesclado personagens das duas obras. Aliás, as coisas mais importantes para a trama primeiro filme (as duas Rainhas e o Jabberwocky) são retirados do segundo Alice (apesar de terem dado a caracterização da Rainha de Copas para a Rainha Vermelha, que são, originalmente, personagens completamente diferentes)

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Enfim, eu ia assistir o filme de qualquer jeito. Porque eu vejo tudo que tem Alice. Essa postura já me fez assistir muita porcaria (a maior delas foi uma minissérie do canal Sci-Fi, que tinha um visual muito bacana mas um roteiro tão porco que no meio do negócio eu não sabia se conseguiria terminar de ver). Mas agora não irei. Por que? Por conta da notícia nojenta dessa semana de que o Johnny Depp agredia sua ex-esposa. Ainda que Alice seja algo fundamental na minha vida, não me sentiria confortável vendo o filme nesse momento e ajudando a encher o bolso desse homem. Não que o meu boicote vá influenciar em qualquer coisa, é claro que não. Provavelmente ele vai continuar tendo uma carreira, fazendo muitos filmes, ganhando prêmios e saindo de tudo isso limpinho. Porque, julgando por exemplos parecidos, é assim que Hollywood trata agressores de mulheres.

Bom, já que Alice Através do Espelho está fora (e eu já tinha lido que o filme é ruim mesmo, então não faz muita diferença), vou deixar aqui a indicação de duas adaptações de Aventuras de Alice no País das Maravilhas (primeiro livro) que assisti faz algum tempo e gostei muito.

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Alice, de Jan Svankmajer: Filme checo surrealista de 1988. Nessa adaptação, é a própria Alice quem conta a história usando elementos de seu quarto (brinquedos, móveis e roupas) para criar o País das Maravilhas e seus habitantes. Mistura live action com animação stop motion e eu achei um pouco creepy (crianças abrindo bonecos com tesouras e coisas do tipo). Quem gosta do livro (ou mesmo daquele filme de animação original da Disney) vai sentir falta do humor, mas é uma visão super pessoal da obra original e, em geral, ficou bacana (fica meio arrastado do meio pro fim).

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Alice in Wonderland, de Jonathan Miller: Filme britânico feito pra a TV pela BBC em 1966. É, provavelmente, minha adaptação favorita do livro. Não tem o humor e a fantasia do original, então pode ser que não agrade a todos. Mas os diálogos seguem fielmente o que foi escrito pelo Carroll, algo que acaba se tornando o trunfo do filme visto que nenhum dos personagens está caracterizado como coelho ou lebre ou gato. São atores (a maioria mais velhos) vestidos com roupas vitorianas, em cenários vitorianos, tendo diálogos nonsense. Alice é apresentada como uma menina entediada e meio entorpecida, que não cria conexão alguma com nada nem ninguém. O que o filme faz é pegar aquela parte do livro que é enorme crítica à sociedade inglesa e colocar em evidência, mostrando que seus rituais, suas crenças e suas burocracias não fazem sentido algum, especialmente quando vistos do ponto de vista de alguém jovem e que ainda não está inserido completamente nesse universo. (ps: o Chapeleiro desse filme é a melhor interpretação do personagem que já vi em qualquer adaptação de qualquer mídia).

Uma vez que você tira as cabeças de animais, começa a enxergar sobre o que tudo isso se trata. Uma criança, cercada por pessoas apressadas e preocupadas, se perguntando ‘é isso que significa ser adulto?’  (Jonathan Miller)


Por fim, só queria deixar aqui a marca da minha tristeza de não poder assistir ao musical Wonder.Land (atualmente em cartaz), cujo um dos criadores é o Damon Albarn, de quem sou fanzoca. A trilha sonora está na internet, mas eu queria muito ver toda a produção porque as fotos dão água na boca.

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Rob Compton and Rosalie Craig in wonder.land at MIF. Credit Brinkhoff & M¿¿genburg.jpg

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