Uma boa morte na ficção (e nem todos os heróis precisam morrer)

Eis aqui a minha teoria. Nós escritores estamos aí para o seguinte: construímos tensões sobre o riso, então dê permissão e o riso vem. Construímos tensões sobre a dor e, por fim, diga, chore e torça para ver seu público em lágrimas. Construímos tensões sobre a violência, acenda o pavio e corra. Construímos estranhas tensões de amor, em que tantas outras tensões se misturam para ser modificadas e transcendidas, e permita a fruição delas na mente do público. Construímos tensões, especialmente hoje, sobre doenças e então, se formos bons o suficiente, suficientemente talentosos, elas permitem que o nosso público fique doente. (Ray Bradbury)

Bem ao estilo do meme da diferentona, eu achava que só eu estava começando a me incomodar com a epidemia de mortes em obras de ficção atuais. Mas, claro, que não é bem assim e, nos últimos tempos, comecei a ler alguns artigos sobre isso que me ajudaram a pensar um pouco sobre esse assunto e o porquê desse tipo de decisão narrativa estar me cansando tanto.

No começo do mês, o site Vox publicou uma reportagem do Todd VanDerWerff intitulada: TV está matando tantos personagens que a morte está perdendo a força. Eu acredito que é isso mesmo que está acontecendo. Ele fala, no texto, que tudo começou com a morte do Ned Stark na primeira temporada de Game of Thrones. Uma morte que não estamos acostumados a ver em ficção, provocou reações fortes do público e começou a estimular roteiristas de várias outras séries a fazer a mesma coisa. O resultado disso foi que a televisão mergulhou em uma onda de mortes preguiçosas e sem sentido, cujo único propósito era chocar a audiência e dar fama de ‘ousado’ ao seriado e seus criadores.

12 de junho de 2011 foi um grande dia na história da TV.
Ned Stark, o herói virtuoso de Game of Thrones, estava numa situação péssima – aprisionado não por crimes, mas por ter descoberto a verdade sobre o caso incestuoso que a rainha mantinha com seu irmão gêmeo. O filho da rainha, Rei Joffrey, sem saber que era fruto de um incesto, tinha que julgar Ned.
Na esperança de proteger sua filha, que iria se casar com Joffrey, Ned concordou em se declarar culpado de traição e aceitar como punição passar o resto de sua vida em serviço da Patrulha da Noite, uma organização dedicada a proteger o reino contra ameaçar sobrenaturais vindas do norte. Esse era o plano da rainha. Tudo o que Joffrey precisava fazer era assinar.
Qualquer pessoa que entende como histórias de TV funcionam acreditava saber como tudo ia se desenvolver. Veja, um dos filhos de Ned já era parte da Patrulha da Noite. Ned aceitaria sua punição e iria lutar contra zumbis de gelo ao lado do filho. Era perfeito.
Mas as coisas não aconteceram dessa forma. Joffrey não tinha interesse no acordo planejado por sua mãe. Como rei, ele queria mostrar sua força. O carrasco girou a espada, cortando a cabeça de Ned para fora de seu corpo. O episódio terminou antes da primeira gota de sangue.
E a televisão mudou. Talvez para pior. (Todd VanDerWerff)

Talvez tenha sido coincidência, talvez seja fruto dessa morte (como pensa esse jornalista), mas o fato é que virou moda contar na televisão história que se passam em universos em que ‘ninguém está salvo’ e ‘qualquer um pode morrer’. As maiores reviravoltas das tramas são essas: mortes de personagens importantes (às vezes nem tão importantes assim). Todo início e final de temporada tem a obrigatoriedade de uma morte chocante para que as pessoas comentem no twitter e coloquem a série nos trending topics, além dos videos de reação no youtube e o desespero de não soltar ou tomar spoilers. É como se a tv não soubesse mais contar histórias além daquelas com mortes chocantes.

Não me entenda mal, eu não acho os personagens de todas as histórias do mundo tem que viver para sempre. Longe disso, eu acho que uma história que envolva morte pode ser linda, triste e chocante. Mas tem que ser bem contada. Especialmente se, como é na maioria dos casos, os criadores nos pedem para investir tempo e apego emocional nesses personagens. Você quer matar seus personagens, ótimo: faça de uma forma que respeite o público, a história e o próprio personagem. Faça com que essa morte tenha significado, porque é isso que faz uma história ser boa. A maior diferença entre a vida real e a ficção é que a ficção precisa fazer sentido.

Porque, por favor, compreenda que, se você me envenenar, devo ficar doente. Parece-me que as pessoas que escrevem o filme doente, o romance doente, a peça doente se esqueceram de que o veneno pode destruir mentes, assim como destruir a carne. Muitos vidros de veneno vêm com instruções para vômito em seu rótulo. Por causa da negligência, ignorância ou inabilidade, os novos Bórgias intelectuais entopem nossa garganta com bola de cabelo e nos negam a convulsão que pode nos fazer sentir bem.
Essas pessoas se esqueceram, embora sempre soubessem, do conhecimento antigo de que apenas ficando realmente doente é que alguém pode recuperar a saúde. Até os animais sabem quando é bom e apropriado vomitar. Ensine-me como ficar doente então, no momento e no lugar certos, e assim poderei andar de novo pelos campos e, como os cães sábios e felizes, saber o bastante para mastigar erva-doce. (Ray Bradbury)

Consigo pensar em alguns exemplos de mortes bem feitas em histórias recentes. O primeiro foi um que, de certa forma, o público já estava esperando há bastante tempo: Clara, em Doctor Who. Por conta da natureza da série, os fãs de Doctor Who já esperam o final de um personagem assim que ele é apresentado e, depois de muita especulação, foi anunciado, antes mesmo dos episódios começarem a ser exibidos, que a nona temporada seria a última da Jenna Coleman. Nem toda companion que sai de Doctor Who morre, mas logo nos primeiros episódios da temporada era possível perceber que a Clara iria morrer. Isso porque a série estava, claramente, de luto por ela mesmo enquanto ela ainda estava viva. Surgiram até algumas teorias de que o Doutor já sabia, desde o começo, que ela morreria em breve (viagens no tempo e tal) e por isso é que estava tão triste e tão apegado desde o começo (sem contar que em todos os episódios alguma coisa era dita sobre o fato de que era apenas uma questão de tempo até que ela morresse e ele ficasse sozinho). Quando a morte finalmente aconteceu, não foi um choque. Não foi nem algo grandioso. Foi uma história simples sobre um rapaz (amigo da Clara) que recebeu uma sentença de morte por um crime que não cometeu e foi convencido pela Clara de que a melhor ideia era ele passar a sentença pra ela, na intenção de ganhar tempo para provar que ele era inocente. Acontece que essa escolha da Clara não estava nos planos das pessoas que incriminaram seu amigo (tudo era uma armadilha, claro) e, quando todas as cartas foram colocadas na mesa, já era tarde demais. Então Clara morreu para salvar uma pessoa, um amigo, que nem iria morrer em primeiro lugar. Foi triste, mas foi lindo.

Claro que é Doctor Who e (quase) ninguém fica morto por muito tempo, então a série deu um jeito de dar um final feliz para a personagem ainda que sua morte seja essa (ponto fixo no tempo e espaço). Mas, mesmo que essa fosse a última vez que eu visse a personagem, não acharia ruim. Foi bom final, foi uma boa morte. Levou em consideração o arco da personagem, suas escolhas e também respeitou todo o carinho que os telespectadores criaram por ela durantes os anos em que ela participou do seriado. Da mesma forma, The Americans matou uma personagem nessa temporada que terminou semana passada, e o fez de forma exemplar. O Vulture fez um artigo sobre isso, inclusive, escrito por  Jackson McHenry.

A maioria dos personagens da TV não tem uma morte tão sensível como a de Nina, mas muitos morrem, geralmente apenas pelo choque, e especialmente neste ano. Em um estudo, Caroline Framke do Vox descobriu que 236 personagens foram mortos na temporada 2015-2016 da televisão. Na TV, como na vida, morte sempre é chocante. Mas num roteiro, existe uma escolha antes de cada decisão, e sempre dá pra achar um culpado: um ator que vai sair do seriado, ou, mais comum, os escritores por serem responsáveis pela execução. Uma morte de personagem bem desenvolvida pode deixar o universo da série mais perigoso ou empurrar personagens para dentro de um território emocional rico. Uma morte mau executada é apenas um desperdício. (Jackson McHenry)

Num seriado de espionagem durante a Guerra Fria, é de se esperar que a contagem de corpos seja alta. E é. Mas, apesar disso, a morte nunca é tratada de forma fria em The Americans. Nunca é fácil, nunca é simples e sempre existe uma consequência.

Tem uma cena em um dos episódios finais em que Paige vê sua mãe matar um homem. Ele está tentando roubá-las, mas Elizabeth é mais rápida. Ele é enforcado, esfaqueado e jogado no chão, a garganta aberta sangrando. Em algum outro seriado de espionagem, isso seria apenas mais um corpo descartável, uma cena de luta para mostrar perigo. Mas então, nós vemos a filha de Elizabeth, Paige, assistindo a tudo com uma expressão de horror. Ela nunca vai esquecer esse momento. (Jackson McHenry)

E, pra finalizar, tem Orphan Black. Na terceira temporada, eles mataram um personagem importante que estava presente na história desde o começo. Eu nunca gostei do Paul (nem do ator e nem do personagem) e fiquei feliz de saber que não ia precisar mais aguentá-lo enquanto via uma das séries que mais amo, mas isso não tirou nem um pouco o peso do episódio em que ele morre. Tá certo que em Orphan Black, os homens sempre estão em segundo plano, mas foi dado todo o respeito emocional para o personagem e os fãs naqueles últimos momentos.

E, por isso, é que me pareceu tão estranho quando eles (ao que parecia na época) mataram a Delphine no final da terceira temporada. Especialmente porque eles deram mais destaque e desenvolvimento para a personagem, colocaram ela no centro do arco principal e, em vários momentos, construíram narrativas que incentivavam os telespectadores a ficar do lado dela ao invés do das sestras (o que acabou transformando ela em uma das personagens mais populares da série entre a terceira e a quarta temporada). E, aí, no último minuto da temporada, eles fazem ela tomar um tiro e é isso. Não mostraram corpo e, por isso, eu não acreditei que ela tinha morrido de verdade (Helena sobreviveu a um tiro na primeira temporada, Rachel sobreviveu a um lápis no cérebro na segunda), e, tirando as primeiras entrevistas (que com certeza foram feitas antes do episódio ir ao ar), nem os criadores da série conseguiam confirmar que ela estava morta (e eles confirmaram que Helena tinha morrido entre a primeira e a segunda temporada, ainda que ela não tivesse). Eu realmente não sei se o plano deles era que a personagem sobrevivesse ou se a reação do público acabou mudando a direção que planejavam ir (especialmente porque a morte dela levaria a série para dentro da triste e grande lista de obras de ficção que usam o trope Bury Your Gays, mais vivo do que nunca atualmente), mas, depois de alguns episódio telegrafando que ela estava viva, a Delphine voltou semana passada.

A melhor parte disso é que: 1) Évelyne Brochu continua na série; 2) Orphan Black não cagou na morte de uma personagem e, por isso, eu posso continuar indicando como exemplo do que outros seriados deveriam fazer; 3) Um dos criadores postou no twitter um negócio que me inspirou a escrever esse post inteiro: nem todos os heróis tem que morrer.

Eu fiquei muito feliz de ver um seriado que eu gosto subverter essas mortes por choque que já estavam me incomodando faz tempo. Eu realmente não vejo ficção para saber quem vai morrer. Eu vejo porque quero experimentar outras vidas. Às vezes, essas vidas acabam em morte (assim como na vida real), claro, e nem tudo pode ter um final feliz (seria idiota se fosse assim). Mas, quando você me pede para investir tempo e apego emocional na história, o mínimo que eu peço em troca é que, como disse Ray Bradbury, me dê a oportunidade de vomitar depois de me fazer beber veneno.

Não estou pedindo finais felizes. Estou pedindo apenas finais adequados, baseados na avaliação correta da energia contida e da denotação oferecida. (Ray Bradbury)

 

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