Quatro é o número mágico

A nova temporada de Orange is the New Black foi para o Netflix um dia depois do fim da temporada de Orphan Black. Essas duas séries estão entre as minhas favoritas de todos os tempos e fiquei muito feliz em ver que ambas se superaram em seus quartos anos, entregando episódios que, no geral, só perdem para suas primeiras temporadas.

Orphan Black e Orange is the New Black tem mais em comum do que o ‘Black’ no título. As duas séries foram lançadas mais ou menos na mesma época, as duas séries focam em mulheres e as duas séries usam histórias de ficção para refletir sobre assuntos ligados às mulheres da vida real. Orphan Black usa ficção científica para falar sobre o direito das mulheres ao próprio corpo e busca por controle de seus destinos e identidades; Orange is the New Black usa o cenário de uma cadeia feminina para falar sobre a opressão sistêmica sofrida por mulheres na mão de homens incompetentes que, por estarem inseridos numa sociedade machista, possuem poder sobre elas. A quarta temporada das duas séries parece ter seguido a ideia de ‘volta às origens’ e, talvez não por coincidência, foi a mais sombria e pesada até então.

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Orange is the New Black está acostumado a falar de assuntos delicados e, desde o começo, constrói lentamente uma narrativa focada em denunciar não um agressor em especial, mas todo um sistema quebrado e corrupto que acaba fazendo vítimas mesmo quando essa não era a intenção. Não vou dar spoilers, mas isso chega ao seu ápice nessa temporada, trazendo para primeiro plano outras discussões ligadas como racismo, privilégio branco e o movimento Black Live Matters. Nessa temporada outro tema forte foram doenças e transtornos mentais. Em determinado momento eu me surpreendi com a quantidade de personagens que tem algum transtorno e como todas são tratadas com respeito, delicadeza e individualidade.

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Orphan Black está chegando ao fim, a quarta temporada foi a penúltima e, por isso, já era de se esperar um fundo do poço. Segundo o método de contar histórias do gênio Dan Harmon (e eu preciso fazer um post só sobre isso): se você pegar uma história e dividir em quatro partes, o momento mais sombrio será a terceira. Porque é dessa escuridão que surge o turning point para o final. Orphan Black fez isso bem no meio da quarta temporada com um perfeito exemplo do momento ‘all is lost’. O mais bacana é que o luto e o desespero das personagens ganhou o primeiro plano, como sempre deveria ter sido (e o meu problema com a terceira temporada foi justamente esse zoom out que eles deram, focando mais no universo e conspiração do que naquilo que fez a série ser o que é: Tatiana Maslany), e a série nunca foi mais forte emocionalmente do que nesses últimos dez episódios.

Eu realmente acho que, em alguns anos, vamos olhar para Orphan Black e Orange is the New Black e ver o começo de uma era em que a ficção não tem medo, mas sim orgulho, de contar histórias sobre mulheres.


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Sobre o que estou lendo: Cheguei na página 200 de Pureza, do Jonathan Franzen, e ainda não consegui entender direito qual é a história. O livro é bem grande (mais de 600 páginas, acho) e ele tem o costume de usar algo simples para mergulhar em personagens e temas, então não é exatamente um problema. Como sempre, os personagens que ele cria são tão extremamente complexos e as relações familiares doem de tão reais. O Franzen uma vez disse que ele é o tipo de escritor que escreve sempre o mesmo livro, mas eu estou vendo, pelo menos até então, um caminho diferente sendo aberto com Pureza. Volto a comentar se isso se confirmar.

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