O resto é caos

Tirei umas férias mais longas do blog porque passei uns dias em Gramado (além do tal romance, que ainda estou escrevendo), mas agora pretendo voltar a atualizar com mais frequência. Gramado, aliás, é a cidade perfeita para se esconder do mundo e escrever, quando for rica vou comprar uma das casinhas fofas de lá e, toda vez que quiser focar totalmente num projeto, ficar uns meses por lá. Sem contar o fato de que as pessoas de lá são tão doces quanto os chocolates das milhões de lojas espalhadas pelas única avenida da cidade inteira.

Mas, deixando o meu futuro de sonhos de lado por enquanto, guardei alguns tópicos para comentar quando voltasse a postar. Então, aqui estão eles:


“Deus, eu poderia viver enclausurado dentro de uma noz e me consideraria um rei do espaço infinito – não fosse pelos meus sonhos ruins.” (Shakespeare, Hamlet)

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O último romance que li foi Enclausurado, o novo do Ian McEwan. Eu gosto muito desde escritor, desde o primeiro trabalho dele que li (Amsterdam) percebi como ele constrói universos extremamente realistas e sabe trabalhar os conflitos humanos sem fazer melodrama. Tudo na obra dele me parece seco e real. Por isso, quando li a sinopse de Enclausurado, fiquei muito curiosa. O livro é sob o ponto de vista de um feto. Sim, um feto mesmo. Ele, de dentro da barriga de sua mãe, narra toda a história com aquele mesmo realismo dos outros livros do McEwan e nos faz, rapidamente, esquecer da premissa absurda e acreditar completamente no universo, nos personagens e na narrativa.

Então estou aqui, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda. Meus olhos se fecham com nostalgia quando lembro como vaguei antes em meu diáfano invólucro corporal, como flutuei sonhadoramente na bolha de meus pensamentos num oceano particular, dando cambalhotas em câmera lenta, colidindo de leve contra os limites transparentes do meu local de confinamento, a membrana que vibrava, embora as abafasse, com as confidências dos conspiradores engajados numa empreitada maléfica. Isso foi na minha juventude despreocupada. Agora, em posição totalmente invertida, sem um centímetro de espaço para mim, joelhos apertados contra a barriga, meus pensamentos e minha cabeça estão de todo ocupados. Não tenho escolha, meu ouvido está pressionado noite e dia contra as paredes onde o sangue circula. Escuto, tomo notas mentais, estou inquieto. Ouço conversas na cama sobre intenções letais e me sinto aterrorizado com o que me aguarda, pela encrenca em que posso me meter

Eu comprei o livro no dia que saiu (inclusive fiz a vendedora ir busca-lo no estoque, porque nem estava exposto ainda) e comecei a ler sem muitas informações. Não sabia, por exemplo, que a obra é praticamente uma releitura de Hamlet. Eu amo Hamlet, então foi uma surpresa muito bem vinda.

A história é basicamente: o narrador-feto descobre que sua mãe e seu tio estão planejando assassinar seu pai. Essa suspeita faz com que ele reflita sobre sua existência no momento, sua vida futura, as pessoas com quem terá que conviver, a natureza humana e o mundo do qual irá fazer parte. Tudo isso com a linguagem realista e precisa do Ian McEwan.

Somos animais sociais, no passado mantínhamos distância entre nós por meio da violência ou de sua ameaça, como cães numa matilha. Nascemos com essa expectativa deliciosa. De que serve a imaginação senão para visualizar, saborear e repetir possibilidades sangrentas? A vingança pode ser executada cem vezes ao longo de uma noite insone. O impulso, a intenção sonhadora são humanos, normais, e deveríamos nos perdoar.

Um dos melhores e mais originais livros que li neste ano. Recomendo muito, tanto para quem gosta de histórias fantásticas quanto para quem gosta de realismo. É o tipo de romance que não se encaixa em nenhum desses rótulos, mas deve agradar todo mundo que gosta de uma boa história.


4.2

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Quero comentar sobre a terceira temporada de Black Mirror, que é uma das minhas séries favoritas. Mas a ideia é falar de cada episódio individualmente, então vou fazendo isso aos poucos começando neste post.

Nosedive: Se você tem facebook, twitter, instagram, Snapchat ou qualquer rede social (o que eu acho que todo mundo lendo isso tem), vai se sentir extremamente desconfortável vendo este episódio. O mundo todo em tons pasteis está sempre pronto para um foto, seus habitantes praticam sorrisos no espelho e toda e qualquer interação com qualquer pessoa resulta numa nota de zero a cinco que vai definir como você será visto e tratado pelo mundo. O que faz esse episódio ir além de uma história com a moral de que não devemos fazer coisas só pelos outros ou que é ruim passar todo o tempo conectado, é o fato de que não parece existir uma escapatória. Mesmo as pessoas que não ligam muito para ter notas altas e serem a nata da sociedade, acabam dentro do mundo das tais estrelinhas porque  o simples fato de se orgulharem de terem uma nota baixa já mostra que a nota significa algo para elas. Ou seja, você pode não gostar do jogo, mas não tem como escapar de fazer parte dele. Acompanhar a decadência da protagonista, já esperando que ela aconteça (porque é Black Mirror), é extremamente desconfortável. Porque a atuação e o roteiro conseguem transformá-la em alguém tridimensional, ainda que a maior parte de suas cenas sejam “parecendo ser” para o mundo. Detalhes, como a forma com que ela olha para a projeção de si mesma com um namorado holográfico durante a visita à uma casa que pretende comprar, mostram que ela é extremamente solitária sem que seja preciso esfregar isso na nossa cara. Porque solidão (assim como tristeza, raiva, desespero) não é algo bonito, que pode ser “curtido” e que vá te render popularidade, então nunca deve ser mostrado em público. Quando toda a realidade dela começa a se despedaçar, o que você sente assistindo é um conflito de emoções porque, ao mesmo tempo que é “bom” perceber que sua vida não pode girar em torno da nota que os outros te dão, esse caminho não tem volta, uma vez que você está para sempre dentro de uma vitrine para o julgamento alheio.


Com toda a bateria que está sendo consumida, é uma surpresa que ainda esteja funcionando

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Eu comecei a ouvir The Libertines quando era adolescente. Uma das minhas mais queridas amizades foi feita ao som dessa banda, aliás. Por esses (e outros) motivos, eles sempre terão um lugar especial no meu coração e na minha biblioteca musical. Nunca que eu esperaria vê-los ao vivo, ainda mais em sua formação original. Eu vi o Carl Barat ao vivo quando ele veio para cá há alguns anos e cheguei a comprar ingresso para o show solo do Pete Doherty (que viria a ser cancelado), e achava que isso era o mais próximo que chegaria dos Libertines. E aí, sem eu estar esperando, o Popload Festival trouxe a banda inteira para cá e realizou o desejo adolescente de vê-los ao vivo.

No one can hold a light to your misery
You’re the number one
Being hard done
Hard done by
You’ll get by with your smile
Wicked smile and laughing at the misfortune of others

(Heart of the Matter, The Libertines)

Confesso que não tinha escutado direito o último álbum deles, Anthem For Doomed Youth, até saber que viriam tocar aqui. O maior motivo disso, eu acho, era porque eu realmente tinha medo de me decepcionar e “estragar” a memória que tinha deles. Mas, ingresso comprado e show marcado, eu tinha que escutar as músicas novas. A boa surpresa é que esse terceiro trabalho deles é realmente muito bom. Soa como o Libertines de antes e fala das mesmas coisas que eles falavam nos dois primeiros discos, que é basicamente: eles mesmos. Mas, agora, parece que eles conseguem se enxergar de uma forma menos séria e com menos drama, ao mesmo tempo em que percebem que são eles e não o mundo, o responsável por todos os seus problemas.

Oh, the road is long
If you stay strong
You’re a better man than I
You’ve been beaten and flayed
Probably betrayed
You’re a better man than I

(Gunga Din, The Libertines)

O show foi tudo aquilo que eu poderia esperar (menos algumas músicas que eu queria escutar, mas não se pode ter tudo). Eles continuam com muita energia, muito carisma e tocando com vontade e coração. Fazia bastante tempo que eu não parava para escutar as músicas antiga deles, então foi uma nostalgia gostosa vê-los na minha frente tocando as canções que fizeram parte da minha juventude. Mais especial ainda foi ter podido compartilhar esse momento com a minha amiga que viveu toda essa história musical comigo. Dez anos de bateria sendo consumida, mas tanto o Libertines quanto a amizade criada ao som deles continuam funcionando.

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2 thoughts on “O resto é caos

  1. Momo Del Rey says:

    Eu e o Rúbio estamos querendo passar a lua de mel em Gramado *o*~ Parece ser lindo e pelas fotos de vocês deu mais vontade ainda UHAHUAHUAUHA XD

    Eu MORRO de vontade de ver Black Mirror, mas aquele meu medo de violência gráfica ainda não me deixou HUAHUAHUA Aí eu botei o Rúbio pra ver e ele já aprovou alguns episódios! Esse Nosedive tá neles hueuhehueuhe

    • Não tem muita violência gráfica em Black Mirror, Ju! Pode ver tranquila… quer dizer, vai ser um soco no estômago por episódio porque o povo vai ver achando que é sobre tecnologia e é sobre a podridão do ser humano. (tem um episódio mais violento na terceira temporada, o penúltimo… mas de resto, é tranquilo).
      Ai Gramado é maravilhoso, vocês vão adorar!

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