3%, me ajuda a te ajudar

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3% é a primeira série brasileira lançada pelo Netflix. Acho que todo mundo sabe da história: era um piloto promissor que colocaram online e fez sucesso, tentaram vender e não conseguiram, aí ficou parado uns anos até a Netflix surgir e resolver bancar. Eu fiquei muito feliz quando escutei que a série ia sair. Não, eu não fui uma das pessoas que viu o piloto “teste” (só fui ver depois de assistir a série), mas a ideia de mais um meio para contar histórias nossas é maravilhosa. Desde o começo, torci para dar certo e disse que ia assistir quando saísse. Resolvi assistir nesta semana, de cabeça e coração aberto (na verdade, mais inclinada a gostar do que normalmente) e, infelizmente, fiquei decepcionada.

Não tem nada a ver com o orçamento curto ou os efeitos longe de serem como filmes e séries gringas usam. Não tem mesmo. Quer dizer, eu assisto Doctor Who, que só começou a melhorar seus efeitos de um tempo para cá. Sempre fui da opinião que uma história boa sustenta efeitos (ou arte) mais ou menos, eu realmente não me importo com isso. Só que os maiores problemas de 3% estão justamente na história, no roteiro. E aí não tem jeito, nem que a série tivesse orçamento de um blockbuster hollywoodano por episódio.

3% chega um pouco atrasada, já que a moda das distopias adolescentes já passou, mas a premissa compensa a sensação de “já vi isso antes”. A história se passa num mundo dividido em dois: Continente e Maralto. O pessoal do Continente vive na miséria, enquanto o pessoal do Maralto vive numa sociedade perfeita. Só existe uma forma de ir do Continente para o Maralto: passar no Processo. O Processo é uma seleção rigorosíssima na qual você pode se inscrever e participar quando completa vinte anos. Só tem uma chance e, para piorar, só 3% das pessoas que participam conseguem ir do lado de cá para o lado de lá. O fato dessa história ter sido criada por brasileiros dá mais peso à premissa. Nós vivemos numa sociedade de extrema desigualdade social e as “provas” que passamos para tentar subir degraus são desumanas e, na maioria das vezes, impossíveis de serem vencidas. Mais: parecem criadas justamente para a maioria fracassar e se sentir um lixo por causa disso. É uma discussão necessária e a o formato escolhido seria perfeito para isso, é uma pena que, como tudo o resto da série, essas questões sejam apenas vistas de forma superficial.

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Minha primeira cara torta com a série foi logo no começo, ao ver os jovens do continente com suas roupas coloridas e rasgadas que mais parecem fantasias de mendigos ao invés de passar a realidade dura que a série diz que eles enfrentam todos os dias. Aliás, esse é um dos maiores problemas de 3%: ela diz ao invés de mostrar. Nós ficamos sabendo através de diálogos como funciona esse mundo, ao invés de nos ser mostrado.

As provas do Processo são muito bacanas. Desde a entrevista até a que todos ficam presos sem comida e sem água  e precisam organizar uma sociedade em miniatura (numa clara referência ao Senhor das Moscas). O problema aqui é a falta de clareza no objetivo de cada uma delas. Que tipo de qualidade o Processo procura? Por que, nunca sociedade que nos dizem ser perfeita, os trapaceiros e jovens de caráter duvidoso não são eliminados? Por que a última prova foi tão idiota? O fato é que, ainda que segure a atenção e desperte nossa curiosidade, até mesmo o Processo em si não aguenta o mínimo de olhar crítico e alguns poucos questionados. O roteiro não se segura nem mesmo em detalhes como um que me foi apontado por um amigo: o chip de identificação que os personagens usam, por exemplo, pode ser traficado de uma pessoa para outra (ideia boa); a personagem que faz essa operação diz que guarda os chips que consegue num fígado de animal porque, segundo ela, eles ficam desativamos se não estiverem em células vivas. Como assim? As células do fígado do animal estão mortas! Não é como se ela tivesse implantado num cachorro vivo para guardar, é um fígado dentro de uma geladeira.

Esse tipo de furo no roteiro deixa a história frágil, e não tem mais muito o que a segure. Muitos dos diálogos são expositivos, e alguns são de dar vergonha alheia. As interpretações são inconsistentes, mas eu não acho justo colocar a culpa nos atores, visto o material que eles tinham para trabalhar. Alguns deles conseguem comover ou impressionar em algumas cenas, quando as outras peças se encaixam, então acho que eles fariam um trabalho muito melhor se todo o resto ajudasse. Mas não existem arcos dramáticos fortes e os personagens mudam de personalidade de uma hora para outra, tomam decisões que contradizem o que nos foi apresentado antes sem que exista qualquer explicação ou evolução.

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O que eu gostei bastante foi a fotografia, que se mantém eficiente e bonita do começo ao fim (mas quem conhece o currículo do César Charlone já esperava isso), e também algumas reviravoltas inesperadas (apesar de existir um senso de segurança em alguns personagens, que a gente sempre sabe que não serão mortos ou eliminados até o final).

Eu vi muita gente falando que todo mundo deveria maneirar nas críticas porque ia prejudicar a série e, por consequência, diminuir as chances do Netflix produzir mais séries brasileiras. Eu entendo o sentimento, como disse no começo, eu comecei a assistir 3% querendo gostar. E, mesmo decepcionada, a minha torcida é para que a segunda temporada seja maravilhosa. De verdade. Eu adoro séries, eu adoro arte brasileira e eu acho que nós temos muitas histórias para contar. Histórias que só nós podemos, que falem conosco diretamente e que mostrem ao mundo quem somos. 3% poderia fazer isso, queria fazer isso, eu consigo ver toda a boa intenção. Mas, infelizmente, não vai além disso: intenção. Vai ser preciso mergulhar mais fundo para conseguir transformar em realidade.


Sobre o que estou assistindo: Eu sei que cheguei atrasada e não vou fazer comentários grandes antes de ver o último episódio, mas estou assistindo Westworld e desacreditando de tão maravilhosa que é esta série. Aliás, eu desacredito por um outro motivo mais pessoal também (que me fez rir e chorar desde a abertura), mas isso é assunto para outra hora. No momento, só quero dizer que Westworld é exatamente o tipo de coisa que me fez ser apaixonada por ficção científica.

Você precisa ver: Já conhecia alguns dos vídeos da série Princess Rap Battles, mas esse entre a Katniss e a Hermione é maravilhoso. Eu considero fatality no momento em que a Hermione diz que Jogos Vorazes é apenas “Battle Royale se passando em 1984”.

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