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Raduan Nassar é Eterno, Roberto Freire é subnitrato de pó de merda

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Raduan Nassar é o maior escritor brasileiro vivo e um dos maiores de todos os tempos. Publicou apenas 3 livros, e já com o primeiro deles (Lavoura Arcaica) conseguiu um lugar eterno entre os grandes nomes da literatura em língua portuguesa. Recluso, largou o mundo literário e foi criar galinhas numa fazenda que, há alguns anos, doou para a Universidade Federal de São Carlos (que construiu nela um novo campus voltado ao meio agrícola).

“A vida só se organiza se desmentindo, o que é bom para uns é muitas vezes a morte para outros, sendo que só os tolos, entre os que foram atirados com displicência ao fundo, tomam de empréstimo aos que estão por cima a régua que estes usam para medir o mundo.”
― Raduan Nassar, Lavoura Arcaica

Hoje, ao receber o prêmio Camões, Raduan fez um belo e corajoso discurso contra o desgoverno Temer. É a segunda vez comparece a uma cerimônia pública nos últimos dois anos, e nas duas vezes ele aproveitou a credibilidade de sua voz para alertar e discutir sobre o momento que o nosso país vive. Dessa vez, no entanto, ele foi desrespeitado de forma grotesta pelo atual ministro da cultura, Roberto Freire, que subiu ao microfone pouco depois da fala de Raduan e começou a fazer comentários grosseiros sobre o autor e, quando a plateia se incomodou com tamanha falta de respeito, bateu boca com os presentes.

“Não se pode esperar de um prisioneiro que sirva de boa vontade na casa do carcereiro; da mesma forma, pai, de quem amputamos os membros, seria absurdo exigir um abraço de afeto; maior despropósito que isso só mesmo a vileza do aleijão que, na falta das mãos, recorre aos pés para aplaudir o seu algoz; age quem sabe com a paciência proverbial de um boi: além do peso da canga, pede que lhe apertem o pescoço entre os canzis. Fica mais feio o feio que consente o belo.”
― Raduan Nassar, Lavoura Arcaica

Reproduzo aqui o discurso de Raduan Nassar, alguém que deu ao Brasil mais do que Roberto Freire sonhará em dar. Aliás, Roberto Freire não é digno nem de pisar no chão por onde passa Raduan Nassar. Me incomoda profundamente que um zé ninguém tenha se achado no direito de desrespeitar um dos maiores escritores brasileiros, mas o que me deixa mais tranquila é a certeza de que, enquanto Roberto Freire será esquecido pelo mundo (até entre os golpistas), Raduan Nassar é eterno.

“Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.
Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.
Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.
Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.
Saudações a todos os convidados.
Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.
Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.
Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.
Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.
Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.
Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.
Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.
Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.
Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas
É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.
O golpe estava consumado!
Não há como ficar calado.
Obrigado”

 

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