Monthly Archives: March 2017

Ruminations & Salutations

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Na minha humilde opinião, o melhor álbum de 2016 foi Ruminations, do Conor Oberst. Desde que escutei pela primeira vez, eu notei que esse trabalho tinha algo especial que o separava da maioria das músicas de hoje em dia. Não só isso, mas também o separava dos outros trabalhos do próprio Conor Oberst. É que Ruminations é, essencialmente, um rascunho. Foi escrito e gravado em duas semanas, quando o Conor voltou para a cidade e casa onde cresceu, e começou a compor novas canções usando apenas sua voz, uma gaita, um violão e um piano. Ele mandou as gravações para seu produtor, na intenção de começar a preparação do álbum, juntar a banda num estúdio como manda o figurino e tudo mais. Mas, seu produtor disse achar que as músicas deveriam ficar da maneira como estavam: cruas e simples. Então, Ruminations foi lançado assim mesmo: Conor cantando e tocando sozinho, sem qualquer firula ou truque, sem ter onde se esconder e sem ter qualquer espaço para erro. O resultado ficou lindo (e muito, muito triste).

Early to bed, early to rise
Acting my age, waiting to die
Insulin shots, alkaline produce
Temperature’s cool, blood pressure’s fine
One-twenty-one over seventy-five
Scream if you want, no one can hear you

(Counting Sheeps – Conor Oberst)

O que eu mais conheço do Conor Oberst foi o que ele lançou com o Bright Eyes. Ele sempre escreveu músicas emocionais e dramáticas, sempre falou de morte e doenças. O que me conquistou de vez e me fez virar fã foi a poesia, ele sempre soube pintar momentos dolorosos usando uma ou duas frases. Mas, como eu li num review, ele nunca soou sozinho. A dor que ele cantava sempre vinha acompanhada. Dessa vez, com letras mais maduras e sem perder sua voz única na hora de escrever letras, ele soa dolorosamente solitário. Não só porque ele gravou tudo sozinho, mas porque alguns detalhes fazem essa sensação ficar maior. Por exemplo: logo na primeira canção do disco, Tachycardia, é possível escutar ele engolindo entre um verso e outro. Porque a música fala de doença e morte (como a maior parte do disco, aliás), esse detalhe ajuda a aumentar a sensação de desespero na voz e na letra da música.

Salutations foi lançado esse mês e é uma releitura do primeiro álbum, com a banda completa da forma que o Conor tinha imaginado no inicio, e mais algumas músicas inéditas. . A sensação de solidão diminuiu muito mas, em compensação, é muito bacana escutar as belas e simples canções do álbum original de uma forma diferente. Minha favorita desse disco é Napalm, que não estava no álbum original, mas a versão nova de Till St. Dymphna Kicks Us Out. Essa canção, aliás, é bem interessante e eu acho que resume bem o tema desses dois trabalhos do Conor Oberst: à princípio, é uma música sobre afogar as mágoas com os amigos num bar até ser mandando embora pelos funcionários. Mas St. Dymphna é o nome da santa padroeira das doenças mentais e, sabendo disso, a letra da música ganha um significado mais profundo e pesado.

Oh, you know you shouldn’t say it
So you’re thinking it out loud
Some things we lost are never to be found
But if you’re gonna talk like that
At least buy another round
And we can keep drinking till St. Dymphna kicks us out

(Till St. Dymphna Kicks Us Out – Conor Oberst)

Nenhum desses álbuns (mas especialmente Ruminations) é música para te fazer se sentir bem. Nesse sentido, acredito que não algo que qualquer pessoa vai ouvir e gostar. Às vezes é incomodo e, sendo sincera, existem momentos em que você não quer ouvir (ou ver ou ler) uma coisa que te soca o estômago e te faz lembrar de sentimentos dolorosos. Ainda assim, o que o Conor Oberst fez nessas canções foi transformar em sons a sua dor e solidão, compartilhando conosco momentos de vulnerabilidade e exposição extrema. Não dá para pedir mais que isso de um artista.


Sobre o que  estou assistindo

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Supergirl: Eu estou tendo alguns problemas com a segunda temporada de Supergirl (que basicamente se resumem ao foco absurdo no Mon-El e na falta de uma storyline coesa para a própria Supergirl), mas uma coisa que eles estão fazendo certo desde o começo é desenvolver a Alex Danvers. Já na primeira temporada ela era uma personagem bacana, especialmente porque é uma das únicas humanas que consegue bater de frente com os aliens da série e porque o relacionamento dela com a Kara é a coisa mais fofa e perfeita da série. Mas, nessa segunda, ela se tornou a melhor personagem da série. É difícil colocar a Supergirl nos mesmos dilemas morais em que dá pra colocar outros personagens (ela tem que representar tudo que existe de bom e certo no universo), então a maioria desses temas são dados para a sua irmã e, além disso, a Chyler Leigh é a melhor atriz do elenco, então a combinação ficou perfeita. Esse último episódio só confirmou aquilo que todo mundo já estava pensando: Alex Danvers é a Supergirl da segunda temporada de Supergirl.

X Company: Falta apenas um episódio para do fim de X Company e esses últimos episódios foram difíceis de assistir. Não por qualidade, porque a temporada está ótima, mas porque eles mergulharam em situações terríveis que normalmente não são mostradas em histórias sobre a Segunda Guerra. Exemplos: festas nazistas em que soldados, bêbados, organizam uma caça aos empregados judeus para se divertir; um catálogo de cor de olhos e cor de cabelo para servir de medida na hora de escolher quais crianças serão raptadas para adoção e quais serão exterminadas em campos. A pior parte é que tudo parece muito recente. Quando X Company começou, era um drama histórico sobre espionagem mas, infelizmente, o que está acontecendo no mundo fez a série se tornar assustadoramente atual. É uma pena que o ser humano tenha essa tendência doentia de repetir atrocidades.


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Sobre o que estou lendo: Acabei de ler Não tive nenhum prazer em conhecê-los, do Evandro Affonso Ferreira. Ele é um dos meus escritores brasileiros vivos favoritos e sempre que sai um livro novo, corro para comprar. Como em seus trabalhos anteriores, a linguagem é poética e bem cuidada, com frases tão lindas que dá vontade de tatuar só para guardar para sempre. Nesse, ainda mais que nos outros, porque é um romance mosaico: a história de um escritor de 90 anos, solitário e esperando a morte, é contada por meio de fragmentos que parecem desconectados mas que, aos poucos, vão montando a vida e a mente do protagonista. Gostei bastante, ainda que tenha achado o final lento e arrastado porque a estrutura acaba se tornando repetitiva. Ainda assim, ler Evandro Affonso Ferreira é descobrir mais da nossa língua, e isso é sempre bem vindo.

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